Crítica | A Bela e a Fera, de Madame de Villeneuve e Madame de Beaumont

A Bela e a Fera é um dos contos de fadas mais adaptados para as mais diversas manifestações artísticas – música, literatura, teatro, cinema e televisão – desde tempos imemoriais, ganhando sua primeira versão cinematográfica como um curta animado da série Merry Melodies, em 1934 e, um ano antes, serviu de inspiração para um dos mais famosos monstros do cinema, King Kong. Seguiu-se a imortal versão de Jean Cocteau, de 1946, e uma infinidade de outras bem menos relevantes, até 1991, quando a Disney “tomaria posse” da história e lançaria um de seus mais magníficos longas animados reacendendo, assim, o interesse pela fábula.

Mas muito poucos conhecem de verdade o nascedouro dessa história atemporal que foi colocada em forma literária pela primeira vez em 1740, pela escritora francesa Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, mais conhecida apenas como Madame de Villeneuve, ganhando uma versão resumida – e, talvez por isso, mais conhecida – 16 anos depois pela também francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, ou Madame de Beaumont. Mas isso não quer dizer necessariamente que não houve nada parecido antes.

a_bela_e_a_fera_capa_zahar_plano_criticoNa verdade, por mais incrível que possa parecer, Rodrigo Lacerda, escritor e tradutor responsável pelo trabalho de pesquisa que antecede e encerra a (fenomenal, diga-se de passagem) coletânea dos dois contos acima pela Editora Zahar, assevera que existe uma interessante base histórica para o conto, narrando que, em 1537, nasceria, nas ilhas Canárias, o espanhol Pedro González, portador de uma doença conhecida por hipertricose, que lhe dava pelos avermelhados por todo o corpo, como um animal. E ele foi tratado dessa forma, jamais – em sua infância – ganhando educação e sendo dado pelo próprio pai ao Rei Carlos V como uma curiosidade para diverti-lo, assim como um animal em uma jaula. No entanto, ele jamais chegaria a seu destino, tendo seu navio tomado por franceses que, ato contínuo, o presentearam a Henrique II, rei da França, que partiu para uma experiência de “humanização” de Pedro González. Ele ganhou educação refinada, permanecendo na corte de Henrique II até sua morte quando Catarina de Médici tomou posse dele e resolveu continuar a experiência, fazendo-o se casar com a filha de uma serviçal da corte, também chamada Catarina. Diz a lenda, que  ela desmaiou ao vê-lo pela primeira vez, mas, depois, acabou afeiçoando-se dele.

E isso parece ser efetivamente verdade, pois, ao longo do casamento, eles tiveram sete filhos, quatro deles com hipertricose. Mas o mundo é cruel e o final de conto de fadas foi negado a Pedro e sua esposa Catarina. Infelizmente, as crianças foram separadas dos pais, com as “peludas” sendo também vendidas ou dadas como curiosidades a diversas cortes europeias e, aparentemente, nunca mais se reuniram com os pais, que faleceram com idade avançada. É perfeitamente possível encontrar retratos da época tanto de Pedro quanto de alguns de seus filhos com a doença pela internet, com uma breve pesquisa.

Essa base factual para o conto soma-se, claro, às diversas histórias folclóricas de seres animalescos – de ambos os gêneros – casando-se ou tendo relações com pessoas “normais” e a combinação, provavelmente, inspirou Madame de Villeneuve a publicar sua versão mesclando esse provável conhecimento prévio e outros elementos fabulescos. Nascia, então, na primeira metade do século XVIII, A Bela e a Fera.

Abaixo, abordarei cada um  dos contos separadamente.

estrelas 4

A Bela e a Fera
(Madame de Villeneuve – 1740)

O conto original, publicado pela primeira vez em 1740, não é exatamente infantil. Na linha das melhores histórias de Esopo, o pai das fábulas, e dos Irmãos Grimm, que vieram depois ainda de Madame de Villeneuve, a história criada pela autora francesa é melhor apreciada por adolescentes e jovens adultos, não por ser particularmente pesada ou complexa, mas sim por conter nuances que são de mais fácil absorção pelos mais velhos. A sugestão sexual, por exemplo, é mais saliente do que no conto posterior de Madame de Beaumont e há uma boa quantidade de reviravoltas que pode confundir os menores.

De toda forma, ao longo de suas 174 páginas, Madame de Villeneuve cria um rico universo próprio, mantendo todos os seus personagens sem nome, com exceção de Bela, que é o apelido da filha mais nova (de doze) de um comerciante rico. A Fera é apenas Fera e, quando príncipe, apenas príncipe, o mesmo acontecendo com a Dama, a Rainha, o Rei, o Pai, as irmãs, os irmãos. Com isso, o foco não se perde e a Bela e a Fera ganham os holofotes aqui, com especial destaque para a Bela que é muito mais do que uma jovem que tem sua vida determinada pelo “príncipe encantado”, algo que pode surpreender muitos leitores. A história segue em linhas gerais aquilo que todos conhecem provavelmente com base na animação de 1991, mas há muitos outros enriquecedores detalhes trabalhados pela autora.

O pai de Bela perde todo seu dinheiro e é obrigado a mudar-se com toda sua numerosa família para uma modesta casa no campo. Bela é a única das irmãs que se adapta e se conforma com a mudança de status social. As outras cinco não aceitam o ocorrido e continuam vivendo sem trabalhar, sem ajudar em casa. Os seis irmãos ajudam o pai na plantação e Bela lida com os afazeres domésticos do dia-a-dia até que o pai é informado de que um carregamento esquecido de sua propriedade chegara na cidade, o que poderia colocá-lo de volta em situação econômica confortável. Infelizmente, porém, ele descobre que nada mudou e, no caminho de volta para casa, ele acaba esbarrando no fantástico castelo da Fera. Como está perdido, cansado e todo molhado em razão de chuva, decide entrar no local, mesmo não encontrando uma viva alma. Para sua surpresa, ele é magicamente recebido com uma farta refeição, roupas novas, uma confortável cama e um lauto café da manhã. Ao começar a partir no dia seguinte, e ainda sem encontrar ninguém por ali, o pai arranca um rosa do jardim, pois Bela havia lhe pedido apenas esse simples presente, ao passo que as demais irmãs haviam pedidos joias, vestidos e tudo o que há de melhor. No momento em que colhe a rosa, a Fera chega para atacá-lo e dizer que aquele senhor abusara de sua hospitalidade e que agora teria que pagar com a vida. Suplicando, o pai diz que precisa voltar para as filhas, o que faz com que a Fera pause e diga que se, em um mês, ele voltar ali trazendo uma de suas filhas para tomar seu lugar (para supostamente morrer) e se ela viesse de bom grado, por livre e espontânea vontade, então ele deixaria o pai viver.

Claro que Bela insiste em entregar-se para salvar o pai e passa, então a viver no castelo sozinha, tendo todos os seus desejos instantânea e magicamente atendidos. A Fera só lhe faz companhia uma vez ao dia, ao final do dia, sempre perguntado-lhe amenidades, mas terminando com um “você quer dormir comigo?”, ao que Bela sempre responde negativamente e a Fera nunca insiste ou demonstra qualquer tipo de insatisfação. Durante a noite, porém, Bela sonha com um belo rapaz cujas pinturas aparecem no castelo, por quem se apaixona. Mas, como ela acha que ele não existe, não há muito o que possa fazer. Esse jogo continua constantemente por muito tempo até que o final esperado aconteça e a maldição da Fera seja, então quebrada.

Mas Madame de Villeneuve tem uma imaginação fértil e sua narrativa contém um sem-número de detalhes intrigantes e dignos das melhores ficções científicas: baús de conteúdo infinito (logo me veio à cabeça a TARDIS), teletransporte (Jornada nas Estrelas), animais que servem de companhia e serviçais para Bela e, talvez o mais fascinante de todos, uma sala onde, por intermédio de espelhos e “refração da luz”, Bela pode assistir óperas e peças de teatro ao vivo diretamente de outras cidades e outros países, em uma impressionante visão de futuro da autora, que antecipa, ao mesmo tempo, a televisão e a internet em duas centenas de anos. No entanto, de Villeneuve não se perde em tentativas de explicações detalhadas de tudo que de mágico se passa na história. Ao contrário, ela lida com essas questões de maneira muito natural e tranquila, sem se apegar a um ou outro elemento específico. Não há nem mesmo uma descrição detalhada da fisionomia da Fera, apenas as reações de Bela e seu pai a ela, o que deixa para a imaginação do leitor montar em sua cabeça a figura horrenda que a autora evoca (e não a Fera bonitinha da Disney). Há, também, uma rara e gostosa fluidez no que ela escreve, que resulta em uma daquelas histórias que, quando o leitor se dá conta, já acabou.

E muito disso se dá – para quem ler em português, claro – pela magnífica tradução de André Telles. No lugar de simplificar o texto com “atualizações” ou “tropicalizações” emburrecedoras, o tradutor empresta uma aura sofisticada e reverente ao texto original (e sim, eu fiz a comparação), que abraça com força a cadência da escrita de Madame de Villeneuve, entregando ele mesmo um texto amistoso, mas nobre, que faz excelente uso do português formal, sem recorrer a palavreado “moderno” ou “da moda”. Trata-se de um trabalho sério e altamente recomendado que é, na verdade, padrão do tradutor, como se pode constatar em seus esforços com as obras de Julio Verne, Marcel Proust, Hergé (nos quadrinhos de Tintim) e Alexandre Dumas.

O que é realmente estranho no trabalho de Madame de Villeneuve – e o que me impede de dar a nota máxima – é sua estrutura narrativa depois que a história principal acaba. Por que sim, ela continua após o “final”, inclusive alterando o ponto de vista que passa a ser o da Fera, para contar como ele se tornou o monstro. Diferente da primeira parte da obra, esta história de origem é acelerada e com muita informação nova, criando todo um universo diferente para a origem da transmutação do príncipe, com uma Rainha em guerra, uma fada-ama apaixonada pelo príncipe e uma complicada relação que exagera nas idas e vindas. É quase como um apêndice ao texto principal, ainda que o que a autora cria seja algo indelevelmente ligado à linha-mestra da história, inclusive criando o gancho para a terceira parte.

Sim, há uma terceira parte! Nela, mais uma vez o ponto de vista narrativo é alterado e voltamos a um passado mais remoto para, desta feita, conhecermos a verdadeira origem da Bela que não é exatamente uma filha de comerciante e sim uma princesa. Não se enganem: é uma história interessante, mas, novamente, é cheia de reviravoltas, cheia de subtramas que pouco acrescentam à principal, inclusive introduzindo, nos proverbiais 45 minutos do segundo tempo, novos personagens e um desfecho demasiadamente feliz e protraído no tempo.

Uma coisa, porém, é certa ao terminar de ler A Bela e a Fera original: Madame de Villeneuve não economizou na criação de uma rica mitologia, jamais se furtando em desenvolver ao máximo seus personagens. A Bela e a Fera é um conto fácil e gostoso de ler que pode surpreender muita gente que só conhece a história a partir da animação da Disney.

estrelas 2

A Bela e a Fera
(Madame de Beaumont – 1756)

Sem maiores delongas, a versão de A Bela e a Fera, escrita por Madame de Beaumont 16 anos depois da publicação do original, é o equivalente aos Cliff’s Notes americano, aquela publicação dedicada a fazer resumos de obras literárias para gente pregui… ops… para gente que precisa estudar os clássicos e não quer “reler” (hahahahahahahaa). A segunda autora basicamente pegou as 174 páginas originais e transformou-as em apenas 25, contando fundamentalmente a mesma história, mas tirando, no processo, toda a mágica e todos os fascinantes detalhes criados por Madame de Villeneuve. E, claro, como tudo que é simplificado e rasteiro, essa versão é que acabou tornando-se a mais famosa e aquela mais conhecida por todos.

Afinal, se eu posso ler em 25 páginas algo de 174, para que vou me dar ao trabalho de pegar o mais longo, não é mesmo?

Não que o resumo seja imprestável, pois não é. Acontece que lê-lo em seguida ao trabalho original gera as mais do que inevitáveis comparações e o continho de Madame de Beaumont é o contão de Madame de Villeneuve, só que sem graça, sem vida e sem substância. Se o teste era fazer um resumo de um clássico, ela conseguiu. Se, porém, o teste era escrever uma história realmente comparável à original, então de Beaumont falhou miseravelmente.

Reduzindo a família de Bela de 12 para seis irmãos, excluindo todo o passado da Fera e da própria Bela e transformando a história principal em um correria sem fim que reflete a original muito mais do que muitos imaginam, a leitura do conto é facílima, quase que como ler a orelha de um livro em pé em uma livraria. Ela passa o recado, sem dúvida, e foi a grande responsável em tornar o conto verdadeiramente popular – impossível saber se A Bela e a Fera seria tão adaptado na cultura popular mundial não fosse esse resumo -, mastigando-o para todas as idades, retirando a camada mais adulta e entregando uma fábula adocicada, bem no estilo clássico de histórias que pais contam a seus filhos antes deles dormirem.

Se meus comentários parecem azedos, é porque talvez sejam mesmo. Sim, a grande “culpada” disso é a própria Editora Zahar, que coloca os dois contos juntos em seu belo encadernado de capa dura com ilustrações clássicas, tendo ainda a desfaçatez de colocar o resumo, que veio depois, antes da obra original, mas talvez eu tenha sido mais inclemente do que deveria. É que sempre considerei – e ainda considero – versões “adaptadas” de clássicos um verdadeiro acinte à literatura. Sou veementemente contra, por exemplo, a leitura de 20 Mil Léguas Submarinas em versão reduzida como diversas escolas “receitam” a seus alunos, já tendo debatido ferozmente sobre o valor pedagógico disso para salvar minha filha dessa perda de tempo (e sim, ela acabou lendo o original mesmo). E o trabalho de Madame de Beaumont se parece muito com essas adaptações feitas para as pessoas poderem dizer que “leram o livro”, perdendo de muito longe do original, retirando-lhe a alma e a relevância.

O segundo conto, assim, não é muito mais do que uma curiosidade que só deve ser lido mesmo por quem se der ao trabalho de ler o original antes.

Bela e a Fera (La Belle et la Bête, 1740 e 1756)
Autoras: Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve (Madame de Villeneuve – 1740), Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (Madame de Beaumont – 1756)
Publicação no Brasil: Editora Zahar
Tradução: André Telles
Apresentação: Rodrigo Lacerda
Páginas: 244 (os dois contos, apresentação e cronologia)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.