Crítica | A Bela Que Dorme

estrelas 3,5

A eutanásia é um dos temas mais polêmicos da contemporaneidade e gera discussões afloradas toda vez que algum caso surge na mídia. Devido ao posicionamento delicado do tema, torna-se quase impossível não conversar sobre o assunto sem ocupar um posicionamento definido. Nas mãos erradas, ou, na linguagem cinematográfica, nas câmeras erradas, o tema pode render um dramalhão bem oportunista e raso. Por sua vez, há cineastas que trabalham o peso da temática com tocando em suas cordas sensíveis sem amanteigar demais a narrativa. Marco Bollecchio é um destes cineastas.

Em A Bela Que Dorme, o luto, a dor, a fé e a desesperanças estão presentes, mas tudo é contado de uma maneira tão singular que a experiência se estabelece em nossas vidas entranhadas nas malhas do estranhamento. E nesta afirmação, aponto que a experiência pode ser boa e ruim, pois vai depender de como o espectador encare a projeção dos fatos. Ao mesclar elementos tipicamente documentais e ficção, o filme aborda as dúvidas acerca do desligamento dos aparelhos para finalização de uma vida aparentemente sem rumo ou prolongamento de uma vida vegetativa aparentemente cheia de significados para os que a cercam.

É na seara deste tema delicado que o filme trafega, adaptando a história de Eluana Englaro, uma jovem que só foi livrada do coma após 17 anos de internamento. Por decisão da família, registrou-se a eutanásia, entretanto, o caso causou tanta comoção nas pessoas, pano para manga para a mídia oportunista que foi parar no Parlamento Italiano. Ao longo de seus 115 minutos, A Bela Que Dorme reverte o tom espetacular que a mídia deu ao caso e constrói uma trama pouco digesta que problematiza tudo que capta em seus enquadramentos sofisticados.

A trama tem a moça como elemento central, mas o roteiro traz personagens que gravitam em torno desta questão. Há o senador (Toni Servillo), forçado por questões políticas a votar contra a eutanásia, a sua filha (Alba Rohrwacher), católica fervorosa fortemente contrária aos princípios da morte assistida, a viciada em substâncias químicas (Maya Sensa), que lá pelas tentas resolve cometer suicídio e uma mãe religiosa que diante da sua fé quase inabalável, espera que um milagre dos céus tire a sua jovem filha do coma.

Com personagens grafados de maneira profunda ao longo da narrativa, o filme não é para os fracos. Tem um ritmo às vezes letárgico, aposta mais no desenvolvimento de conflitos psicológicos, em detrimento de cenas de ação ou lágrimas esparramadas pelos rostos dos personagens. Para alguns soou como um problema, mas é fácil observar que Marco Bollecchio apostou no tom da fábula, por isso há uma sucessão de coincidências que para um espectador mais desatento, soa como falta de verossimilhança. Neste ponto, em termos comparativos, salvas as devidas proporções, lembra o excelente De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, no que diz respeito, óbvio, a permuta entre fábula, narrativa e “realidade”.

Ainda na seara dos personagens, cabe ressaltar que é um filme de atuações fortes, marcadas pela catarse já esperada em seu desenvolvimento pessimista. As situações extremas fazem as pessoas exigirem muito de si, através de sentimentos que trafegam entre o luto e a dor, captados por uma câmera que mais observa do que julga. Através de sombras, cenas esfumaçadas e enquadramentos poéticos, tais como pés flutuantes e lençóis ao vento, a trama ainda aposta no famoso plano do personagem a refletir-se no espelho, mas aqui, como desde o início já foi apontado, as obviedades estão bem distantes. Cada instante revela um punhado de complexidade à espera da interpretação do espectador.

A Bela Que Dorme é uma narrativa que faz jus ao cineasta que a dirige. Bollecchio cresceu numa escola que o limitava, teve fama de rebelde e na primeira oportunidade que surgiu, partiu para Londres com planos de estudar Cinema. Com toda a sua irreverência e senso crítico, lançou o seu primeiro filme em 1965, o astuto De Punhos Cerrados, um drama que tinha como cerne as relações familiares.

Em 1969 o cineasta mexeu na ferida da educação católica, traçando severas críticas, ao dirigir um episódio do filme Amor e Raiva, obra conceituada na época, também orquestrada por nomes como Pasolini, Bertolucci e Godard. Em 1978, Bollecchio uniu-se ao psiquiatra Massimo Fagiolli e lançou filmes de cunho psicanalíticos, repletos de complexidade. Em A Bela Que Dorme, estas experiências parecem convergir para a narrativa, tamanho o mergulho na intimidade, na psicanálise, no pessimismo e na melancolia, traços que parecem dar o tom dos comportamentos e vivências de boa parte dos que compõem o contingente do mundo contemporâneo.

A Bela Que Dorme (Bella addormentata) – Itália /2012.
Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Marco Bellocchio, Stefanni Rulli, Veronica Raimo
Elenco: Toni Servillo, Isabelle Huppert, Alba Rohrwacher, Michele Riondino, Maya Sansa, Pier Giorgio Bellocchio, Gianmarco Tognazzi, Brenno Placido, Carlotta Cimador
Duração: 115 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.