Crítica | A Bíblia Satânica, de Anton Szandor La Vey

Numa sociedade como a nossa, repleta de dogmas que precisam de um bom exorcismo, a Bíblia Satânica é uma leitura supostamente destinada apenas para pessoas corajosas. Ao adentrar no universo mitológico sobre Satanás, comumente conhecido como o adversário de Deus, percebemos como a palavra/conceito “desconstrução” precisa circular por mais áreas do conhecimento. Festas de Halloween são as prediletas dos adoradores de Satanás? Não. Crimes contra crianças apontados como oriundos de práticas satânicas? Não, pois um dos mandamentos da narrativa bíblica em questão é não maltratar crianças.

Diante do exposto, caro leitor, assumo que a leitura foi muito esclarecedora, mantenedora de uma visão crítica das coisas, numa compreensão do quanto ainda estamos vinculados aos tabus maniqueístas da civilização ocidental, erguida sob a égide do bem e do mal. Basicamente, o satanismo é uma linha de admiração e veneração ao dito adversário de Deus. Popularmente divulgado e reconhecido por meio das publicações e militância de Anton LaVey, os satanistas estão vinculados aos conceitos da maioridade moral, hedonismo, individualismo, materialismo, dentre outros, com ressonâncias das reflexões filosóficas de Friedrich Nietzsche e Ayn Rand, bem como das cerimônias ocultas de Aleister Crowley.

Criado em meio ao um ambiente de superstições, oriundos da família de sua avó, o fundador da Igreja de Satã logo cedo se interessou por temas obscuros, mergulhando nas leituras de clássicos, tais como Drácula e Frankenstein. Junto a isso, histórias de ficção científica e o oculto na história da humanidade. Interessado por música, tal como o mito de Lúcifer, aprendeu a tocar instrumentos e até ingressou em atividades cristãs, aderindo mais tarde ao Satanismo. LaVey estudou Criminologia no São Francisco City College e foi fotógrafo do Departamento de Polícia. Mais tarde, em 1956, comprou uma casa na Califórnia Street. Pintou de preto e criou a ideia de uma casa assombrada, tamanho o diferencial em relação aos demais ambientes residenciais da região. Em 31 de abril de 1966, LaVey anunciou a fundação da Igreja de Satanás, numerando 1966 como o Ano Um (Anno Satanas), o primeiro ano da Era de Satã. A escrita das suas escrituras satânicas viria logo depois.

Estruturalmente, a Bíblia Satânica traz um elucidativo prólogo, um prefácio, uma introdução, as nove declarações satânicas, para mais adiante, adentrar nas divisões Fogo (O Livro de Satã), Ar (O Livro de Lúcifer), Terra (O Livro de Belial) e Água (O Livro de Leviatã), tendo ainda um glossário ao final, para os termos mais incomuns. Na Introdução, Lurker, representante da Associação Portuguesa de Satanismo, nos informa que a prática é intrínseca ao homem, na sua condição natural não deturpada por nossa sociedade moralmente castradora em que vivemos. Em suma, algo que nasce conosco e se desenvolve ao passo que avançamos em nossas histórias de vida.

Ele reforça que o lema do Satanismo é o individualismo, a descoberta pessoal, a busca por questionar a tudo e a todos, sem foco no sobrenatural, mas na percepção realista das coisas. Irônico, tal como Anton LaVey, o responsável pela nossa entrada nesta universo curioso e cheio de leituras mal interpretadas pela sociedade reforça que um ritual nada mais é do que uma teatralização da realidade e que os satanistas não esperam pelas coisas, ao contrário, vão atrás do que desejam.

As Nove Declarações Satânicas são claras. Resumidamente, Satã representa indulgência e não abstinência; sabedoria não corrompida, ao invés de ilusões; vingança, ao contrário de dar a outra face; essência de vida, não fúteis sonhos espirituais; além da representação do homem como apenas mais um animal, o mais perverso de todos, às vezes ser pior que “aqueles” que caminham sobre quatro patas. Ele ainda reitera que Satã tem sido o melhor amigo da Igreja, pois é quem a mantém em atividade ao longo de tantas eras.

Mais filosófico que religioso, as reflexões da Bíblia Satânica não encorajam a crueldade, como muitas pessoas erroneamente imaginam, no entanto, caso seja colocado em oposição, deva destruir quem lhe impede de atravessar sua vida.  Em determinado momento LaVey diz que “ao caminhar em território aberto, não incomode ninguém”, pois se “alguém lhe incomoda, peça-lhe que pare”, finalizando que “se ele não parar, destrua-o”.

No que concerne aos pecados e regras do satanismo, o autor elenca, no primeiro caso, a estupidez (topo da lista), a pretensão, o solipsismo (esperar das pessoas as suas respostas e reações), a autoilusão, o conformismo de massa (deixar-se se iludir por uma entidade lhe dizer o que fazer), a falta de perspectiva, a negligência da ortodoxia do passado, o orgulho contraprodutivo e a falta de estética (a cultivação da beleza e do balanceamento).

Com as cisões dentro da Igreja de Satã, outras linhas satânicas surgiram. Desconsideradas pela “matriz”, fundada em 1966, as práticas satânicas não se prendem muito aos aspectos sobrenaturais que o cinema, a literatura e a televisão geralmente relacionam. Ao longo do século XX, por exemplo, muitos assassinos em série usaram o nome do satanismo indevidamente, tendo em vista justificar as suas atrocidades, o que ajudou a calcificação do imaginário inadequado.

No dia 06 de junho de 2006, data que também ficou conhecida pelo lançamento da refilmagem de A Profecia, a Igreja de Satã, localizada em Hollywood, na Califórnia, realizou uma missa para cem convidados, numa postura de zombaria em relação aos mitos acerca da data, pois conforme esclarecido pelos satanistas, o número 666 não significa nada para os seus seguidores. Falando em datas, a mais importante para um satanista, hedônico e ciente da sua importância no mundo, é a sua data de nascimento, numa espécie de lembrete sua própria existência.

LaVey faleceu em 29 de outubro de 1997, decorrente dos problemas de coração. Deixou legado, dentre eles, a missa negra, exageradamente exposta pelos não seguidores, religiosos mais preocupados com a ascensão do satanismo, em detrimento da manutenção da sua fé cristã, nada mais é que uma paródia dos rituais da Igreja Católica. Não há os sacrifícios com animais, tampouco oferenda com seres humanos, pois nos mandamentos bíblicos, as regras são claras: essa é uma postura indevida. Como descrito anteriormente, o legado é extenso. A indústria cinematográfica, por exemplo, se apropriou de várias considerações, como veremos ao longo dos próximos textos sobre a representação de Satanás no cinema.

A Bíblia Satânica (Estados Unidos, 1983)
Autor: Anton Szandor LaVey
Editora no Brasil: Saida de Emergência
Tradução: Eduardo Alves
Páginas: 208

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.