Crítica | A Bruxa de Blair

estrelas 3

Campanhas publicitárias arrasadoras quase sempre estiveram presentes no esquema industrial cinematográfico. Quem não se lembra “daqueles” filmes que tiveram acompanhamento publicitário mais interessante que a obra em si? A Bruxa de Blair não teve uma campanha arrasadora no que tange ao financiamento de bonés, camisas, comerciais em horários nobres, mas produziu um segmento diferenciado de divulgação numa época em que a internet ainda não estava tão democratizada.

Moral da história: foi sucesso de crítica e público e conquistou um lugar sofisticado na história do cinema contemporâneo, haja vista a necessidade humana de novidades constantes para aquecer uma sociedade imersa numa cultura da imagem à beira da saturação. Com roteiro e direção assinados por Daniel Myric e Eduardo Sanchez, a história é tão sedutora e perigosa quanto as sereias da Odisseia de Ulisses: Heather Donahue, Michael C. Williams e Joshua Leonard envolvem-se na produção de um documentário sobre a fábula da Bruxa de Blair. Eles viajam para Burkittsville para realizar entrevistas os com os moradores, pessoas que lhes contam a história de Rustin Parr, eremita responsável pelo sequestro de sete crianças na década de 1940.

Ao ser capturado pela polícia, o sequestrador que assassinou as crianças alegou que estava possuído pelo espírito de Elly Kedward, uma bruxa enforcada no século XVIII. Impressionados com os relatos, os estudantes decidem ir mais fundo na pesquisa e adentram na lendária floresta. Será neste espaço que as coisas começarão a dar errado. Confusões, sustos, sons estranhos e desavenças transformam a experiência investigativa no pior pesadelo de suas vidas.

O filme é considerado pelos historiadores do cinema recente como o precursor da popularização, na virada do século, do found foutage, um gênero que assim como todos os outros do esquema industrial de produção, exauriu-se diante de tantas produções, algumas elegantes e interessantes, outras presas aos ditames de fórmulas esquemáticas e oportunistas.

No que tange aos detalhes estruturais, A Bruxa de Blair não é tão arrebatador. A montagem cuidou da dinâmica, com apenas 81 minutos de filme, tendo na narrativa o essencial para que possamos compreender a história, além dos atores se entregarem da melhor maneira possível, no intuito de dar credibilidade ao filme, sem depender de sustos fáceis ou ferrões musicais para os seus desempenhos dramáticos, numa cenografia assustadora, cuidadosamente elaborada pelos envolvidos na produção.

Na época do seu lançamento em Cannes, a campanha de divulgação distribuiu cartazes com o rosto dos atores, dados como desaparecidos. Tal façanha midiática também foi aplicada ao site IMDB, que divulgou o desaparecimento do elenco durante a produção. A mãe de um dos envolvidos, inclusive, recebeu condolências pelo “suposto falecimento de sua filha viva”.

Como era de se esperar, A Bruxa de Blair ganhou uma continuação pouco tempo depois. Ter entrado para a seara dos 100 filmes americanos de maior sucesso financeiro de todos os tempos abriu espaço para uma possível franquia, mas a indústria não o aproveitou de forma ordinária, tal como Jogos Mortais, Colheita Maldita e outros filmes do gênero que ganharam continuações numerosas. Inicialmente interessante, a sequência se perde tal como os estudantes de cinema deste primeiro filme. A análise, entretanto, é assunto para outra crítica. Enquanto isso confira a origem de tudo e prepare-se para o terceiro filme, a estrear em breve nos cinemas.

A Bruxa de Blair ( The Blair Witch Projetc) – EUA, 1999 
Direção: Daniel Myrick e Eduardo Sanchéz
Roteiro: Daniel Myrick e Eduardo Sanchéz
Elenco: Heather Donahue, Joshua Leonard, Michael C. Williams, Sandra Sanchez, Jim King, Bob Griffin, Patricia Decou, Mark Mason
Duração: 81 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.