Crítica | A Cabana

estrelas 2

Lançado em 2007, o livro A Cabana rapidamente se tornou um sucesso mundial, tomando conta das mesas de cabeceiras de inúmeras pessoas, muitas das quais passavam por crises de fé. No Brasil, estamos falando de uma época no qual tais obras se destacaram no mercado, com um crescimento do espiritismo em famílias que sempre foram católicas, não é por mero acaso que Nosso Lar estreou no mesmo período. É a fase do New Age, com uma visão universalista da religião e William P. Young, autor do romance original, explora esses pontos, embora se mantenha, em teoria, no catolicismo. Agora, dez anos mais tarde, o livro, enfim, ganha sua adaptação cinematográfica, com o mesmo nome.

A trama acompanha Mack Philips (Sam Worthington), que, quando criança, fora vítima de violência por parte de seu pai, que batia nele e em sua mãe. Agora, anos mais tarde, Mack é casado e tem duas filhas e um filho. Sua vida, contudo, é virada de cabeça para baixo quando, durante um acampamento, sua filha mais nova desaparece, tendo apenas suas roupas ensanguentadas encontradas posteriormente. Philips, então, entra em uma crise de fé até receber uma estranha carta, o convidando para a cabana onde as roupas de sua filha foram achadas. Lá ele se encontra com Deus, ou Papa (Octavia Spencer), como é chamado, Jesus (Avraham Aviv Alush) e o Espírito Santo, ou Sarayu (Sumire Matsubara) e deve aprender sobre o perdão antes que a culpa o consuma.

Cercado de polêmicas à época do lançamento do livro, A Cabana certamente conta com bastante coragem ao representar a Santíssima Trindade como uma mulher negra, um jovem de origem árabe e uma garota oriental, o que, por si só, já passa uma grande mensagem de aceitação, pedindo para que, não só o protagonista, como o espectador, se livre de seus preconceitos. Octavia Spencer, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas traz um imediato peso ao filme e, de fato, ela consegue fazer para a narrativa o que o roteiro falha miseravelmente: manter o espectador minimamente cativado. Infelizmente, seus esforços não sustentam uma bagunça que perdura por cento e trinta e dois minutos de projeção.

Para começar, tudo o que vem antes da chegada de Mack à cabana soa como um amontoado de desculpas para que o personagem entre em uma crise de fé. Não digo isso pelos eventos em si, mas pela forma como são retratados e trabalhados ao longo da obra. Embora a filha mais nova tenha sido dada como morta, aparentemente só o protagonista sofre com isso, já que o texto não se preocupa em demonstrar o impacto nos outros membros da família. Não existe uma preocupação sequer com os filhos adolescentes, que estiveram no acampamento. Para piorar, as dores da infância do personagem principal são ignoradas até certo momento da projeção e funcionam como um elemento extra, que não dialoga diretamente com toda a problemática do filme.

Com a espiritualidade abalada, seria apenas natural que o protagonista passasse a questionar sobre as coisas terríveis que Deus permite que aconteçam e, de fato, Philips chega a fazer tais perguntas para Papa, mas as respostas que recebem parecem mais uma forma de desviar da pergunta do que, de fato, respondê-la. Fica claro, portanto, que as mensagens oferecidas por essa figura divina parecem mais tiradas de um livro de auto-ajuda do que de algo com um maior teor filosófico ou teológico, caracterizando toda a obra como aquela que tipicamente busca deixar seu público feliz, não almejando colocá-lo em uma jornada de auto-descobrimento ou afirmação. Dito isso, se ao invés da santíssima trindade tivéssemos um padre ou algo assim, o efeito seria o mesmo, já que nenhuma verdade fora da obviedade é oferecida.

Ao lado de Spencer, Sam Worthington, não faz mais que desempenhar seu papel, mas o roteiro oferece a ele apenas o óbvio, ao colocar o personagem em sofrimento do início ao fim, tirando qualquer profundidade de sua personalidade, que se resume à sua infância conturbada e ao incidente que tirara a vida de sua filha. No fim, toda essa sua “aventura” soa como um gigantesco sermão sendo oferecido ao protagonista e, por consequência, ao espectador. A trama, portanto, soa extremamente dilatada, rapidamente prejudicando nossa imersão, enquanto rezamos para que o filme chegue ao seu fim.

A Cabana, apesar da forma corajosa como trabalha alguns de seus personagens, não consegue ser mais que um filme de auto-ajuda, desviando dos principais questionamentos de alguém com a espiritualidade abalada, focando unicamente no óbvio ao tentar passar mensagens que todos nós já escutamos. Por ser excessivamente longo, a obra perde nossa atenção logo na sua primeira metade e o que vem a partir daí não passa de uma jornada enfadonha e repetitiva, na qual a esperança de uma nova abordagem à religiosidade jamais se concretiza.

A Cabana (The Shack) — EUA, 2017
Direção:
 Stuart Hazeldine
Roteiro: John Fusco, Andrew Lanham, Destin Daniel Cretton (baseado no livro de William P. Young)
Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Tim McGraw, Radha Mitchell, Megan Charpentier, Gage Munroe, Amélie Eve
Duração: 132 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.