Crítica | A Camareira (2018)

Quantas pessoas são invisíveis em nossa vida? Quantas pessoas existem ao nosso redor que tornam mais confortáveis nossas vidas sem que demos o devido valor? A Camareira, um pequeno filme mexicano dirigido pela estreante Lila Avilés, olha para as pessoas atrás da cortina representadas, aqui, por Eve (Gabriela Cartol), a humilde funcionária de um hotel luxuoso da capital do país.

Com uma câmera que nos mantém incomodamente próximos à protagonista, Avilés faz o espectador tornar-se íntimo da camareira e de seu dia-a-dia limpando e arrumando os quartos de seu pequeno e desejado “feudo” no 21º andar do hotel, com apartamentos VIP. Vemos seu cuidado e sua eficiência em seu trabalho, vemos como ela lida com as mais esdrúxulas situações com os clientes, como a mulher argentina que transforma Eve em uma babá ou o cliente judeu que, obedecendo estritamente o sabá, pede para ela apertar o botão para chamar o elevador ou, ainda, o hóspede que tem alguma tara pelas amenidades oferecidas, como os frasquinhos de xampu e creme e toalhas. Também vemos seus desejos, que vão do vestido vermelho deixado na seção de Achados e Perdidos até a chance de trabalhar no ponto (literalmente) alto da carreira de uma camareira desse hotel: o 42º andar, com seus quartos que mais parecem pequenas mansões.

E tudo isso o roteiro que Avilés escreeu com Juan Carlos Marquéz passa com uma primorosa economia de palavras e uma perfeita fluidez narrativa que faz a navegação pela história muito fácil e dolorosamente clara de se acompanhar, por vezes até emprestando à fita um tom documental. Digo dolorosamente, pois, ao nos colocar na pele de Eve, passamos a ser ponto focal do contraste de sua vida com a dos hóspedes. Por exemplo, a argentina que pede para ela cuidar de seu filho pequeno por alguns minutos enquanto toma banho diz, naturalmente, depois de breve conversa com Eve, que a camareira tem “sorte” por ter alguém que cuide de seu filho enquanto ela trabalha. É uma frase rápida, dita sem pensar, sem medir as consequências, mas que funciona como uma adaga perfurando o coração de Eve, mesmo que Cartol maravilhosamente não crie um dramalhão com sua atuação. Muito ao contrário, suas feições quase não mudam, mas cada mínima alteração é extremamente expressiva, algo que a fotografia com muito close-up ajuda a capturar e a amplificar seus efeitos.

Cartol realmente merece destaque aqui por transmitir seriedade, austeridade e sinceridade em cada olhar e ao desenvolver sua personagem vagarosamente ao longo dos dias e semanas em que acaba fazendo – a contra-gosto – amizade com Minitoy (Teresa Sánchez), camareira do 12ª andar, exato oposto de Eve em personalidade. É particularmente contagiante o momento que – movida a choques elétricos (a metáfora não escapa a ninguém e nem deveria) – Eve cai na gargalhada com Minitoy, um dos poucos momentos em que vemos a camareira sair de seu regime discreto ao ponto de ser invisível.

Esse momento descontraído, porém, é a exceção na vida espartana de Eve que prefere tomar banho nos banheiros para funcionários do que ir para cada logo depois de acabar o expediente, pois em casa, diz ela, é necessário pegar água com um balde e tomar banho “de caneca”. Mas não há rancor em sua voz. Há, ao contrário, resignação, algo que faz parte da vida, mas que, do lado de cá, sabemos que não deveria fazer. E o contraste com o alto luxo do hotel e as esquisitices excêntricas de seus hóspedes só tornam isso quase que didaticamente claro, para nos fazer refletir sobre a massa de pessoas que fazem o mundo girar, mas que não reconhecemos, que sequer conhecemos. E que, em muitos casos, efetivamente não queremos nem saber que existe.

A delicadeza e a simplicidade de A Camareira, carregado nas costas por um impressionante trabalho de Cartol e por uma direção precisa de Avilés, é um daqueles filmes que é feito para encantar na mesma medida que para incomodar. E ele cumpre sua função com louvor ao nos forçar a ver os seres humanos invisíveis que estão ao nosso redor.

A Camareira (La Camarista, México – 2018)
Direção: Lila Avilés
Roteiro: Lila Avilés, Juan Carlos Marquéz
Elenco: Gabriela Cartol, Teresa Sánchez
Duração: 102 min.

 

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.