Crítica | A Camareira

estrelas 3,5

A Camareira é um enganosamente simples filme alemão de Ingo Haeb, diretor de Neandertal. Simples, pois ele é espartano em termos de produção, com poucos atores e menos locações ainda (basicamente um quarto de hotel e o apartamento da protagonista). Enganoso, pois sua premissa parece caminhar pelo lado de uma “leve” loucura, mas traz questões bem mais profundas, talvez perfeitamente encapsuladas em sua frase de encerramento: “a melhor parte da limpeza, é que fica sujo outra vez”.

Lynn (Vicky Krieps) é a camareira do título que vive de limpar quartos de um hotel. E usei “vive” não por acaso, pois ela literalmente vive seus dias fazendo isso com enorme capricho e dedicação, como os minutos iniciais da fita deixam evidentes. Ela limpa não só os quartos em uso, como os que também estão desocupados. Diariamente. Sem descanso. E ela gosta disso.

Mas a dedicação de Lynn vai além, muito além de limpar quartos. Ela se esconde embaixo das camas para observar os hábitos dos hóspedes. Com isso, Haeb joga a câmera incomodamente no chão, para ficarmos exatamente no mesmo nível da protagonista, vendo apenas o que ela pode ver, ou seja, pés, canelas e eventualmente alguns objetos que caem. Ela vive a vida dos outros com esse seu estranho hábito e também aprende aspectos da vida. Afinal, em conversa despretensiosa, ela revela que achava, por exemplo, que os casais, quando acordavam pela manhã, se beijassem (é ou não é a imagem que os filmes nos legam?), mas que, na verdade, um pede ao outro para escovar os dentes, por causa, claro, do mau hálito. São pequenas pérolas de sabedoria como essa que tornam a experiência do filme divertida e dão significado à bizarrice inicial de ver a moça metodicamente esconder-se debaixo de camas.

Nesse processo, Lynn, que já se tratara em sanatório – em uma espécie de tentativa desnecessária de Haeb, que escreveu o roteiro, de explicar a necessidade dela de viver a vida dos outros –  se envolve com uma prostituta e tenta ter um semblante de um relacionamento normal, nem que o “normal” para ela inclua o pagamento pelos serviços prestados. Lynn sonha com a vida que não pode ou não quer (de verdade) ter, ainda que faça esforços talvez genuínos para mudar. Esse relacionamento toma a segunda metade da projeção e serve para mostrar Lynn saindo da proverbial caverna da mente em que vive em busca de algo que todos procuram. Se ela acha o que quer, fica para a interpretação do espectador.

O que realmente interessa, aqui, é a jornada simplória, mas eficiente de Lynn em seu dia-a-dia surreal que, estranhamente, é cativante, com uma atuação convincente de Vicky Krieps sob os holofotes (ela é costumeira coadjuvante em algumas grande produções com Hanna e Anônimo). E, quando a narrativa periga de tornar-se repetitiva, Ingo Haeb sabe simplesmente acabar, sem necessariamente um fechamento que queremos ou esperamos, mas certamente um muito mais próximo dessa realidade vicariante.

A Camareira é uma pequena e discreta surpresa que agradará quem conseguir ir além da bizarra premissa e mergulhar no mundo solitário de Lynn.

A Camareira (Das Zimmermädchen Lynn, Alemanha – 2014)
Direção: Ingo Haeb
Roteiro: Ingo Haeb
Elenco: Vicky Krieps,  Lena Lauzem, Steffen Münster, Christian Aumer, Christine Schorn
Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.