Crítica | A Caminho de Kandahar

estrelas 4

A representação da mulher na sociedade oriental é um tema bastante polêmico, tecido narrativo para longas discussões e críticas acerca dos ditames de uma sociedade calcada em pensamentos fundamentalistas. A Caminho de Kandahar, produção iraniana lançada em 2001, nos apresenta alguns conflitos que a mídia nos fez memorizar graças às constantes coberturas jornalísticas dos conflitos geopolíticos da região. Denso e alegórico, o filme mescla um interessante esquema dual entre narrativa documental e aspectos do cinema “ficcional”.

No filme Nafas (Niloufar Pazira) representa a si mesma, uma jovem que fugiu de seu país em meio a uma guerra civil dos Talibãs. Com moradia situada no Canadá, a moça atua como jornalista. Certo dia recebe uma carta da sua irmã prometendo se suicidar após o surgimento do próximo eclipse solar. Numa tentativa agonizante de salvar a sua irmã, Nafas decide atravessar o Afeganistão, lidando com todo tipo de contratempo e desafio, seja de ordem física ou psicológica.

Durante o processo de travessia, a personagem é captada através de imagens bastante alegóricas, às vezes irônicas, como o trecho dos homens acometidos por minas locais, driblando as barreiras para conseguir membros que substituam as suas deficiências oriundas da realidade da guerra. A dolorosa vida mulçumana é apresentada ao espectador através dos enquadramentos e movimentos de câmera, aliados às cores das burcas das mulheres que atravessam o deserto bege e árido.

Baseado numa história verídica, o filme nos revela de forma ficcional a trajetória de Nilaufar Pazira, uma mulher nascida na Índia, filha de pais afegãos. Em 1991, no auge dos seus 18 anos, ela resolveu se radicar no Canadá. Sete anos depois, em 1998, recebeu uma carta de uma amiga de infância informando que iria cometer suicídio do mesmo jeito que apresentado no filme, haja vista o seu descontentamento com as imposições do regime fundamentalista islâmico.

Pazira chegou a viajar para tentar resgatar a amiga, mas não conseguiu entrar em território afegão. Ao perceber o potencial dramático da narrativa, o cineasta investiu na criação de um roteiro e convenceu a moça à realização do filme, dando apenas alguns retoques para transformar o relato em argumento, para logo depois, roteiro. Por falar em criação literária, o texto do filme não é dos melhores. A narração carece de melhor construção. Talvez algumas aulas de figuras de linguagens resolvessem a questão.

Tendo em vista o cuidadoso trabalho de captação de imagens, percebemos que estas falam por si. Não há a necessidade de diálogos ou som-off: o cineasta interfere no direcionamento da narrativa, mas em alguns momentos deixa a câmera ligada e capta as coisas com o olhar de quem documenta.

Um filme político, adornado por algumas falhas que se não chegam a estragar o produto final, ao menos são perceptíveis. Talvez por ter sido filmado clandestinamente, o filme apresente trechos confusos, que podem deixar o espectador menos atento perdido no fio narrativo. Carregado de denúncias, o filme é um daqueles exemplares didáticos que carregam uma “mensagem”: mesmo diante de alguns problemas perdoáveis, A Caminho de Kandahar não segue a linha do “Oriente como invenção do Ocidente”, tal como a perspectiva teórica de Edward Said. Mesmo com as suas falhas, é o oriental falando de si, do outro, mas numa segmentação que deixa de fora os famigerados estereótipos e lugares-comuns geralmente atribuídos aos filmes estadunidenses que focam na “realidade” dos povos que habitam o conflituoso Oriente Médio.

A Caminho de Kandahar (Safar e Ghandehar) – Irã, 2001.
Direção:  Mohsen  Makhmalbaf.
Roteiro: Mohsen  Makhmalbaf
Elenco: Hassan Tantai, Hoyatala Hamiki, Ike Ogut, Nelofer Pazira, Monika Hankievik, Sadou Teymouri, Safdar Shodjai, Zahra Shafah.
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.