Crítica | A Carruagem Fantasma (1921)

O ano de lançamento de A Carruagem Fantasma foi marcado por grande efervescência no campo do cinema. O manifesto futurista do italiano Riccioto Canudo, que teorizava sobre o cinema como a sétima arte, ganhava cada vez mais espaço no meio intelectual, assim como as vanguardas artísticas europeias, movimentos que tiveram as suas ressonâncias ao redor do planeta, inclusive no Brasil, culminando na Semana de Arte Moderna, e por sua vez, no movimento modernista que sacudiu a década de 1920. Os efeitos especiais, influenciados graças aos ditames dos manifestos de ordem cubista, dadaísta, expressionista, impressionista e surrealista, traziam novos “movimentos” para todas as artes, inclusive para o cinema, manifestação ainda bem incipiente, haja vista que a primeira exibição oficial tinha ocorrido na França, há apenas 26 anos.

O cinema evoluía aos poucos enquanto linguagem e na esteira desta mutação começava a surgir os primeiros periódicos, editorados por intelectuais preocupados em refletir sobre a influência desta modalidade artística na vida cotidiana. Charles Chaplin surgia com O Garoto e Fritz Lang com Pode o Amor Mais que a Morte. Na Suécia, Victor Sjöström apresentava ao público um filme complexo sobre temas universais como a redenção e a generosidade, sendo abordado em processos metalinguísticos, propositalmente ou não, em outras produções de “pedigree” como O Iluminado, de Stanley Kubrick, Além da Eternidade, de Steven Spielberg, e influenciando, também, a obra de Ingmar Bergman, cineasta que considerava a produção “o filme de todos os filmes”.

Baseado na obra de Selma Lagerlöf, ganhadora do Nobel de Literatura em 1909, A Carruagem Fantasma tem o seu enredo situado na véspera de ano novo. Três homens alcoolizados evocam uma lenda que afirma a seguinte problemática: se a última pessoa a morrer no ano for uma pecadora, ela irá se tornar o guia da carruagem da morte no processo de recolhimento das almas dos mortos ao longo do tempo.

Com esse argumento, qual a sustentação narrativa da obra? Com foco no personagem David Holm (Victor Sjöström), o filme busca nos apresentar um homem que se rendeu aos valores baixos da vida. É uma pessoa grosseira, rude, agressiva, sem amor para distribuir aos próximos. A sua esposa o abandonou, vitimada por uma mortal pneumonia causada pelo próprio marido. Uma enfermeira do Exército da Salvação cumpre o papel de guia para a redenção do homem que parece não ter “jeito”, mas percebe que as suas investidas são de um esforço hercúleo, mas inútil.

Tendo em mira este argumento, percebemos que somente o amor e a reparação dos “pecados” vai salvar a vida de David Holm, ceifada no período em questão. O que fazer? Arrepender-se? Mas não é tarde. Será assistindo ao filme, caro leitor, que você saberá, mas adianto-lhe que os seus 104 minutos serão de validade total.

O ponto nevrálgico de A Carruagem Fantasma não é o seu texto, mas a forma como o argumento já desgastado desde os romances de Alexandre Dumas, José de Alencar, Honoré de Balzac, Charles Dickens, Jane Austen etc. é tratado. O diretor sueco, responsável por assinar em média 55 filmes ao longo da carreira, já havia fincado as suas raízes na arte da representação desde 1896, em trabalhos teatrais, tendo entregue o seu primeiro filme ao público em 1912. Foram nove anos de treinamento até chegar ao delírio visual desta obra que também flerta com elementos do gótico e do fantástico.

É possível perceber, claramente, a presença de George Melies no processo criativo de A Carruagem Fantasma. Parte da qualidade da obra se deve ao trabalho em parceria com o diretor de fotografia Julius Jeansons, responsável pelo clima sombrio adornado por superposições meticulosas em um universo situado entre o “céu” e a “terra”. A trilha sonora, executada externamente, também é um dos tópicos de sucesso do universo “mudo” deste filme.

O que torna A Carruagem Fantasma ainda mais interessante é a forma como os envolvidos no projeto convencem o público com os parcos efeitos especiais. Não precisa nem dizer que para pensar filmes de determinados períodos, o espectador precisa respeitar uma espécie de pacto de recepção, adentrando na obra com toda a boa vontade que lhe for possível, digo, munido da capacidade de exercer a alteridade, deslocando-se para o período histórico em questão sem questionamentos bobos e infrutíferos como filme “velho”, “mentiroso”, etc. A produção está sendo analisada aqui de acordo com os seus recursos disponíveis na época de lançamento. Se visto por esse viés, a obra torna-se um espetáculo visual deslumbrante e competente, tamanha a capacidade de demonstrar os vultos, os fantasmas e as alucinações sem os famigerados “ferrões” sonoros que mais atrapalham do que ajudam na condução de determinadas narrativas.

A ousada tática de dividir o filme em capítulos e mudar a ordem cronológica dos acontecimentos é outro tópico que torna a produção sofisticada para a sua época. Sabemos que isso já havia sido realizado em outra obra-prima, o suntuoso O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith. Em A Carruagem Fantasma, o recurso é utilizado, com direito aos flashbacks e flashfowards que pedem atenção redobrada do espectador mais acostumado com o começo-meio-fim típico das narrativas de determinado eixo da produção hollywoodiana.

Para quem conhece o universo literário de Charles Dickens, torna-se bastante eloquente a comparação com Um Conto de Natal, uma história moralista sobre um homem que abomina o Natal e na tal data comemorativa, recebe a visita do antigo sócio, morto há sete anos, mas fadado a ter o seu espírito vagando por não conseguir descansar em paz, tudo isso, por conta da falta de generosidade enquanto vivo.

Á guisa de curiosidade, fica uma das cenas que mais me surpreendeu: sabe o ataque maníaco de Jack Nicholson destruindo uma porta e atacando a sua esposa em O Iluminado? Pois então. A imagem que estampa 10 a cada 10 livros sobre a linguagem do cinema ou coletâneas retrospectivas não é exatamente tão “original”. Há uma passagem similar neste filme de 1921. Coincidência? Provavelmente não. Como aponta T. S. Elliot, no campo da literatura, mas totalmente utilitário na seara da produção cinematográfica, “ninguém escreve sozinho, pois ao escrever, aciona todo o seu acervo”. Spielberg, Kubrick e Bergman são alguns deles, pois ao “escreverem” com as suas respectivas câmeras, acionaram Victor Sjöström e o eternizaram para as gerações mais recentes, mesmo que estas desconheçam esta obra que precisa e merece ser vista por todos: cinéfilos, espectadores “comuns”, curiosos, críticos, em suma, qualquer pessoa desejosa da linguagem e da história do cinema.

A Carruagem Fantasma surgiu numa época em que a Suécia era, como nas palavras de alguns historiadores do cinema, um dos faróis do cinema mundial. Alguns consideram que a trama está datada, mas não é o que vemos em filmes infames da contemporaneidade, como o tenebroso Deus Não Está Morto: se você não se comportar em vida, provavelmente terá de pagar no além-túmulo, e o preço, na ótica moralista destas obras, é vagar eternamente, ou durante bastante tempo, em busca do perdão pela falta de bom comportamento na vida terrena. Assustador, caro leitor… e afinal, Você Acredita?

A Carruagem Fantasma (Körkarlen) – Suécia. 1921.
Direção: Victor Sjöström.
Roteiro: Victor Sjöström, baseado na novela de Selma Lagerlöf.
Elenco: Victor Sjöström, Hilda Borgström, Tore Svennberg,  Astrid Holm, Concordia Selander, Lisa Lundholm, Nils Aréhn, Tor Weijden, Simon Lindstrand, John Ekman, Einar Axelsson, Nils Elffors.
Duração: 104 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.