Crítica | A Casa da Colina (1999)

Em A Filosofia do Mobiliário, Edgar Allan Poe reflete sobre a natureza grotesca das coisas, dando ênfase ao seu ponto de vista enquanto escritor, constantemente a rejeitar o belo, o apolíneo, o equilíbrio típico do classicismo, tendo em vista ressaltar o caráter opaco, duplo, obscuro e feio das coisas, quando pensamos dentro de um ponto de vista estético geral que privilegia o que socialmente foi construído para representar o conceito de “belo”.

Como apontam muitos especialistas na obra do escritor romântico, Poe sabia extrair a “beleza do mal”, ver o sublime no grotesco. Escrito em consonância com a publicação do conto A Queda da Casa de Usher, o ensaio nos faz compreender como a habitação que intitula o conto é de fundamental importância para o desenvolvimento da narrativa. Há certas passagens que Poe antropomorfiza a casa, com riqueza de detalhes que parecem um manual de design de produção, tamanho os detalhes em relação aos corredores, paredes, quadros expostos, estantes de livros, paleta de cores e texturas, dentre outros detalhes, elementos emulados por Shirley Jackson em Assombração da Casa da Colina, bem como pelos cineastas que ao longo da história do cinema, realizaram filmes dentro do segmento das casas assombradas.

Diante do exposto, a sensação ao adentrar ambientes esses ambientes é a de mergulhar profundamente na melancolia, no desespero, na angústia, dentre outros sentimentos tidos como desagradáveis por nossa sociedade. Assim, narrativas cinematográficas que dialogam com o estilo de Poe, como por exemplo, A Casa da Colina, lançado em 1999, geralmente apostam em reforçar o oposto ao que Bachelard, nas reflexões de A Poética do Espaço, traz sobre a casa como espaço de aconchego e boas memórias, acalento e proteção diante das mazelas do mundo.

Ao refletir sobre A Casa da Colina, percebemos que o filme dirigido por William Malone, cineasta que teve como guia o roteiro de Dick Beebe e Robb White, dramaturgos que tal como os realizadores de Desafio do Além e A Casa Amaldiçoada, não creditaram diretamente o livro da escritora Shirley Jackson, tampouco os contos de Edgar Allan Poe e Henry James, mas trazem para 1999, outro olhar “atualizado” para as narrativas de “casas assombradas”, num processo de empilhamento cultural que não soma nada de interessante para o subgênero desgastado há tempos.

Na verdade, com produção de Robert Zemeckis, um dos fundadores da Dark Castle, A Casa da Colina se afirmou como refilmagem de A Casa dos Maus Espíritos, de 1978, dirigido por William Castle e protagonizado por Vincent Price.  No filme, Stephen Price (Geoffrey Rush), um milionário excêntrico, empresário da área de entretenimento, vive um relacionamento pouco equilibrado com a sua esposa Evelyn (Famke Janssen). Insatisfeita com o casamento, ela decide que precisa de diversão e assim, solicita um presente de aniversário numa mansão em Los Angeles, lendária por conta de supostas experiências macabras do passado.

Conta-se que o local era um hospital psiquiátrico perturbador, comandado pelo Dr. Vannacutt (Jeffrey Combs). Watson Pritchett (Chris Kattan) alerta sobre a condição amaldiçoada da casa, mas o empresário ainda assim convida algumas pessoas sem conexão aparente para a noite de festa. Entre os convidados estão Dr. Donald Blackburn (Peter Gallagher), a executiva Sarah Wolfe (Ali Larter), Eddie Baker (Taye Diggs), um antigo jogador de basquete e Melissa Margaret (Bridgette Wilson), uma loira voluptuosa, arquétipo da “mulher objeto”, interessa em fama.

Assim, ao realizar o convite, o empresário informa que a pessoa que conseguir “sobreviver” até os últimos minutos receberá a quantia de U$1 milhão. Para adornar o seu espetáculo, Price contrata Carl Schecter (Max Perlich), técnico de efeitos visuais, profissional que cuidará dos mecanismos engendrados para a perpetuação da sensação de medo e pavor diante dos convidados. O problema é que as paredes do local estão energizadas pela maldição do passado. Os planos de diversão se tornam o inverso: a noite da busca pela sobrevivência.

O resultado é desastroso. Descobriremos que uma carnificina iniciada por conta de uma revolta dos internos espalhou um longo rastro de sangue e violência pelo local, assombrado pelos espíritos atormentados que habitam cada corredor, cômodo e janela do espaço. Os vagantes do mundo sobrenatural desejam vingança e todos os envolvidos no evento adentram numa situação que jamais imaginaram para as suas vidas. Em sua direção pirotécnica, William Malone investe em mortes violentas, sustos por meio de ferrões musicais e aspectos visuais que nos remetem ao clima de desolação e atmosfera macabra.

A direção de fotografia, assinada por Rick Bota, segue os caminhos de A Casa Amaldiçoada, ao captar os espaços de maneira eficiente, ambientes erguidos por meio de um sofisticado trabalho dos integrantes da equipe de design de produção, setor assinado por David F. Klassen. A sua equipe, em especial, os cenários de Lauri Gaffin, entregam um trabalho visualmente interessante e atmosférico para ser contemplado pelo espectador, somados à condução musical de Don Davis, um trabalho sem a mesma eficiência de Jerry Goldsmith, mas que ao ser justaposto aos demais setores que erguem visualmente a narrativa, demonstra o esforço visual para preenchimento emocional de uma história pouco atraente.

Voltemos às considerações de Edgar Allan Poe em A Filosofia do Mobiliário. Diferente de A Casa da Colina, o conto do autor envolve o leitor num espaço interior e exterior em diálogo constante com o design dos seus personagens, em equilíbrio com a atmosfera do conto. No filme, temos acesso aos recursos visuais de primeira linha, mas falta profundidade psicológica e uma boa história para o estabelecimento da catarse. Em traços comparativos, tal como A Queda da Casa de Usher, o filme de William Malone possui sombras noturnas, nuvens opressoras, rajadas furiosas de ventos e uma residência que revela “janelas se assemelham a olhos vazios”, no entanto, falta conteúdo dramático.

Em A Casa da Colina, a preocupação com a história e os personagens é deixada de lado em prol dos efeitos especiais e da sanguinolência gratuita. O filme investe num final relativamente desolador, mas não consegue construir uma trajetória magnética com o espectador ao longo de todo o seu desenvolvimento. O que resta é uma diversão escapista rápida e um subtexto bem vago sobre ambição. Sua continuação, De Volta à Casa da Colina, lançada em 2007, segue o mesmo caminho do filme anterior, emocionalmente estéril e assustadoramente comum.

A Casa da Colina — (The House of Haunted Hill) Estados Unidos, 1999.
Direção: William Malone
Roteiro: Dick Beebe
Elenco:  Chris Kattan, Famke Janssen, Geoffrey Rush, Peter Gallagher, Taye Diggs, Ali Larter, Bridgette Wilson, Max Perlich, Jeffrey Combs
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.