Crítica | A Casa de Cera

estrelas 3

Oriundo da era da reprodutibilidade técnica, o cinema é uma modalidade artística recente, caso seja comparado ao histórico da pintura, da literatura ou do teatro. Isso não impede, portanto, que a sua memória não seja tão vasta. Há tantas histórias a serem redescobertas pelo cinéfilo contemporâneo que Hollywood, a terra campeã das refilmagens, poderia estabelecer um novo ciclo.

Enquanto isso não ocorre, vamos mergulhar na análise de A Casa de Cera, slasher produzido há quase uma década, fruto da onda de releituras realizadas pelo cinema há alguns anos. Inspirado em Museu de Cera, terror clássico com Vincent Price, que por si só já era uma refilmagem de Mistério do Museu de Cera, de 1933, o filme segue uma linha narrativa semelhante ao clima de O Massacre da Serra Elétrica e Viagem Maldita: jovens incautos numa cidade deserta à mercê de psicopatas sedentos por sangue, tortura ou alguma vingança.

Com roteiro assinado por Charles Belder, o filme começa com a viagem de carro. O grupo de seis pessoas segue rumo ao campeonato universitário que está em sua rodada final. Durante a noite eles preferem acampar para descansar e seguir viagem apenas no dia seguinte. Ao acordar, percebem que o carro foi danificado.

Na tentativa de resolver a situação, alguns aceitam carona ofertada por um morador de Ambrose, a cidade mais próxima. Ao chegar são atendidos pelo xerife da cidade e atraídos pela maior atração local, A Casa de Trudy, um museu de cera em que tudo parece tão real que se torna difícil estabelecer fronteiras entre obra de arte e realidade. Será neste espaço que o terror irá se estabelecer, pois as aparências enganam e os jovens parecem ter sido atraídos para um perverso jogo de vida ou morte envolvendo sangue, tortura e realizações artísticas.

Um flashback logo no começo nos ajuda a entender parcialmente os acontecimentos do presente, numa situação que envolve o esfacelamento da família, doenças raras e crise de valores éticos, num clima que nos remete ao similar Armadilha para Turistas, de David Schmoeller, de 1979.

Vamos aos fatos: a produção é adornada por alguns clichês que não chegam a incomodar, não traz nada absolutamente novo, mas consegue se conduzir bem e possui excelente design de produção. O roteiro não chega ao ponto de estragar estas outras qualidades. A direção estreante de Jaume Collet-Serra abriu precedentes para que mais adiante o cineasta investisse pesado nos ótimos A Órfã e Águas Rasas. A montagem de Joel Negron é eficiente, principalmente quando aliada ao interessante design de som de John Ottman. Os ferrões musicais adentram na seara dos clichês do gênero, mas o filme não se prende unicamente a estes efeitos sonoros. Com trilha conduzida por nomes do rock pesado, tais como Marilyn Manson, My Chemical Romance e The Stooges.

Primeiro filme da Dark Castle, empresa responsável pelos efeitos especiais de filmes como Navio Fantasma, 13 Fantasmas, A Casa da Colina e Na Companhia do Medo, A Casa de Cera teve um apurado trabalho de pesquisa durante a sua produção. É angustiante ver o pomposo cenário derretendo ao final da história, durante o desfecho trágico. A equipe de direção de arte inspirou-se em Ashara, cidade construída pelos italianos durante a Segunda Guerra Mundial.

Com ágeis 113 minutos, A Casa de Cera foi realizado nos Estados Unidos, em coprodução com a Austrália. Paris Hilton ganhou o seu Framboesa de Ouro pela aparição, mas não pareceu incomodada com isso, haja vista que a sua participação era puro marketing. Ela representa a si mesmo, inclusive em situações semelhantes aos acontecimentos polêmicos envolvendo a sua vida pessoa na cultura da mídia daquela época. Não chega a incomodar, pois a participação é limitada e a moça morre um pouco depois da metade.

O final deixa um gostinho de continuação, mas dez anos depois, nada ainda foi cogitado. Mais um daqueles casos sobre ser desnecessário continuar algo que conseguiu amarrar as suas pontas com certa dignidade. Melhor não mexer no que está quieto, não é verdade, caro leitor?

A Casa de Cera (House of Wax) – Austrália/EUA, 2005.
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Charles Belden, Chad Hayes.
Elenco: Elisha Cuthbert, Chad Michael Murray, Brian Van Holt, Paris Hilton, Jared Padalecki, Jon Abrahams, Robert Ri’chard, Dragicia Debert, Thomas Adamson, Damon Herriman, Andy Anderson.
Duração: 113 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.