Crítica | A Casa do Lago (2006)

estrelas 5,0

O amor vence qualquer barreira, mesmo que o obstáculo seja o tempo. Cartas de amor sempre foram elegantes e elementos sofisticados em narrativas dramáticas e românticas. Inconsistências cronológicas não são necessariamente elementos de ficções científicas. Você, caro leitor, deve estar se perguntando o que estas três afirmações tem a ver, correto? Fique calmo, eu explico. Ao relacioná-las, você estará diante de uma das maiores experiências no território da estética da recepção cinematográfica contemporânea: A Casa do Lago, uma obra-prima diferente, “estranha” e mágica, provavelmente uma interação ímpar em sua relação com a sétima arte, mesmo que seja para odiá-la.

No filme, Kate Forster (Sandra Bullock) é uma médica solitária que reduziu o seu ciclo de contatos ao eixo mãe, ex-namorado e uma colega de trabalho. Ela mora sozinha em uma casa à beira de um lago, acompanhada sempre dos seus livros. Ao mudar-se para Chicago, tendo em vista o emprego em um hospital, a moça deixa uma carta para o próximo morador, solicitando que a sua correspondência seja entregue para o novo endereço.

O novo dono da casa, Alex Wyler (Keanu Reeves), lê a carta e entra em contato com a ex-moradora. Entre uma correspondência e outra, ambos descobrem que possuem algumas afinidades, desenvolvem uma paixão, entretanto, como todo bom obstáculo numa história de amor, eles percebem que estão em anos diferentes. Ela está em 2004, ele em 2006.

Inicialmente o espectador pode achar a trama absurda demais para o pacote que ela supostamente apresenta: o drama romântico. O filme não deixa de ser, mas a diferença é que no panorama de obras do tipo, a produção consegue ir muito além. A chave para compreendê-lo é aceitar a sua jogada narrativa. Em nenhum momento o roteiro tenta nos enganar. Cobrar verossimilhança é um abuso, afinal, pode-se brincar com o tempo da narrativa sem necessariamente ilustrar o filme com máquinas do tempo e desafios oriundos do campo da Física.

O roteiro de David Auburn, responsável pelo drama A Prova, faz alguns ficarem buscando falhas no tecido narrativo, num divertido jogo de linguagem, quando na verdade o mais interessante é compreender as alegorias presentes na trama. O filme ganha força ao tratar, alegoricamente, da idealização do amor romântico, com a impossibilidade de concretizar tal sentimento sendo o centro dos problemas propostos pela narrativa. O tempo, entretanto, é o maior desafio a ser driblado. O obstáculo é vencê-lo, afinal, diferente dos romances hollywoodianos de cada dia, não é a família, a classe social ou o segmento ideológico que os separam. Ao fabricar um tempo fragmentado, Auburn fornece material para Alejandro Agresti fascinar na construção das imagens.

Assim, entramos na seara visual. No que tange aos aspectos da linguagem cinematográfica, a palavra que define A Casa do Lago é elegância. Alejandro Agresti, conhecido pelo delicado Valentin, foi agraciado por uma equipe bastante talentosa. O design de produção assinado por Nathan Crowley é eficiente, principalmente na construção da simbólica casa à beira do lago, criada especialmente para o filme. A cenografia capta bastante da arquitetura de Chicago, com enquadramentos que focam nas mais belas construções do local.

A trilha sonora, assinada por Rachel Portman, acompanha a narrativa sem necessariamente forçar o espectador ao choro fácil. Ao lado da Direção de Fotografia de Alan Kivilo, a música cresce vertiginosamente. Todos estes elementos, por sua vez, só ganham a devida grandeza se consideramos o trabalho de montagem, vigorosamente elaborado por Leonardo Campos. Não há fades aleatórios, nem jogos de linguagem que entregam os truques narrativos. Ao contrário, a montagem paralela, a alternada e a rítmica se relacionam bem, numa equação com ótimo resultado.

Em tempos de internet, redes sociais e aplicativos, dez anos depois, o filme apresenta-se como um ótimo enredo para discussão da liquidez de determinados relacionamentos. A distância geográfica é o menor dos problemas quando a virtualidade separa duas pessoas que estão bem próximas. Apesar de soar clichê ou moral demais, basta observar a afirmação nas mesas de bar, nas salas de cinema, nos encontros entre amigos e casais em praças e outros locais públicos, bem como nos estudantes numa sala de aula. Os celulares os separam, mesmo que os corpos físicos estejam próximos, aquecidos em sua troca de calor, mas com pensamentos distantes.

Olhado por este lado, A Casa do Lago é revestido de enorme potência narrativa, alegórico e muito contextual. Para dar certo, os envolvidos na produção chegaram à equação Sandra Bullock + Keanu Reeves para protagonizar o filme. Os atores já haviam demonstrado ótima química no frenético Velocidade Máxima, em 1994. No filme, a dupla repete a interação, mesmo que desta vez, os personagens sejam “belos, recatados, do lar”, o que por sua vez, os deixam tímidos, introspectivos e enigmáticos. Eles pouco saem, curtem a vida ou se entregam aos prazeres mundanos. Estão, quase sempre, lendo, dormindo, trabalhando ou refletindo. Os prazeres deles, talvez, sejam diferentes das ofertas constantes de nossa constante cultura da mídia, espaço discursivo que tende a moldar nossos comportamentos.

Escrever sobre o filme após tê-lo assistido no cinema há 10 anos nos permite observar que o campo da crítica de cinema às vezes abusa do bom senso. Os textos publicados em 2006, em sua maioria, analisam a produção tendo como foco guiar o consumo do público leitor. Poucos se dedicaram ao estudo mais apurado ou sequer observaram as alegorias que estão na superfície. Uma vergonha que consegue ficar pior quando os analisadores se dedicam a criticar o filme pela sua falta de verossimilhança. Sendo assim, um manual de roteiro caberia bem para estes indivíduos.

Ao longo dos seus 105 minutos, o segredo para adentrar neste universo “fantástico” deste drama com requintes de literatura fantástica é compreender o conceito de verossimilhança interna e externa, saber o mínimo de figuras de linguagem (a metáfora já serve) e conjugar devidamente os verbos que são a força motriz da narrativa: desejar, atravessar e amar. Com esse combo, a sua interação com A Casa do Lago será um sucesso, acredite.

A Casa do Lago (The Lake House) – EUA, 2006.
Direção:  Alejandro Agresti.
Roteiro: David Auburn, baseado no argumento de Ji-Na Yeo e Eun-Jeong Kim.
Elenco: Sandra Bullock, Keanu Reeves, Dylan Walsh, Ebon Moss-Bachrach, Lynn Collins, Christopher Plummer, Shorhreh Aghdshloo.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.