Crítica | A Casa do Medo – Incidente em Ghostland

“Você vai me deixar morrer sozinha?”

Uma família muda-se para uma cidade de interior e enfrenta ameaças injustificáveis. A premissa é batida, mas Ghostland possui um requinte em seu começo, à parte de uma construção estético-cenográfico, em relação a casa, demasiadamente óbvia. A invasão, porém, não precisa de muitas premeditações, ocorrendo rapidamente. O ataque indiscriminado, da mãe aos maníacos, é sensível aos olhos de um público igualmente desnorteado. O sentimento de impotência, em decorrência da histeria das garotas, sem atacar os antagonistas, mesmo quando em desvantagem, é muito poderoso, porém, enquanto, de um lado, a intenção estressa enormemente o espectador, ansiando por uma participação delas no confronto, por outro, evidencia a garra da mãe, o que, paralelamente, também constrói um relacionamento maternal mais efetivo, de maior sensibilidade. As facadas – ou o que quer que tenha-a cortado diversas vezes – penetram Pauline (Mylène Farmer), e a obra mostra, intencionalmente, as respectivas ações, dos socos aos cortes, aproximando levemente a câmera, justamente para enaltecer a presença da personagem nessas cenas, em fúria contra os invasores. O surgimento dos criminosos – em inspiração clara a O Massacre da Serra Elétrica -, assim como o retorno de uma mãe inicialmente desacordada, é abrupto e carrega dramaticamente o primeiro segmento do longa-metragem. A crueldade é completamente isenta de racionalidade, de fato, mas assim como o amor da mãe também é.

Incidente em Ghostland, após o seu começo repleto de tensão – contrariando uma ótica de calmaria antes da tempestade -, assume uma reviravolta narrativa interessantíssima, levando o espectador, consideravelmente atordoado, para o futuro da protagonista, Beth – interpretada, em sua versão adulta, por Crystal Reed -, onde a personagem tornou-se uma escritora extremamente bem-sucedida de terror, casada, mas, ainda assim, sofrendo com o seu passado assustador, que presenciamos há pouco. Como são os passos seguintes de uma pessoa que sobrevive a uma narrativa de horror tão tensa quanto essa vivida pela mulher, em menos de 15 minutos de filme? Pascal Laugier, diretor do filme, trabalha a estrutura de uma obra típica de terror de maneira mais subversiva, sem se importar, superficialmente, em como a ordem das coisas, dos eventos, acontece, embora os vícios cinematográficos sejam os mesmos – por exemplo, a trilha sonora que some, de repente, para nos preparar para algum jumpscare. As facilidades em seu roteiro também são notáveis – esperem respostas -, como a inexplicável manutenção da mãe e a outra filha na mesma casa onde o incidente aconteceu. Os traumas são sentidos, porque o cineasta não quer causas sem efeitos, mas algumas decisões sãos demasiadamente fajutas para uma credibilidade maior de toda a situação. A casa também continua óbvia demais. A premissa, portanto, nos levará a compreender melhor o passado e relacioná-lo certeiramente com o presente.

Os “equívocos”, contudo, possuem justificativas, dada a natureza cheia de reviravoltas da trama, desconstruindo completamente o entendimento primeiro pela primeira metade da obra. O segundo plot twist transforma completamente a ótica do espectador sobre o filme, tanto em seus prós quanto em seus contras. As coisas começam a ficar paulatinamente mais estranhas – as tais facilidades -, indagando o público, que se percebe em um cenário conflituante entre presente e passado. Anastasia Phillips, a versão adulta de Vera, impressiona em todo o seu absurdo, das claras consequências de traumas passados às potentes referências a narrativa mais simplificada da obra, que redefine o que aconteceu e o que acontecerá. Muitas das qualidades da obra, portanto, desaparecem, dando margem a um interessante, porém mais ocasional enredo, comum até. A destruição do imaginativo onírico, tendendo muito mais a um pesadelo dos mais horripilantes, desestrutura negativamente a obra. Em contrapartida, os desvios iniciais, como a fugacidade do confronto, são compreendidos distintamente, tornando-se parte do discurso mais certeiro do filme. A força motora é menos engajante, mas ainda há méritos no trabalho do cineasta, encontrando espaço, por exemplo, para trabalhar muito bem as bonecas na criação estética da casa, já possuída, agora, pelos malditos invasores.

Os invasores, por sua vez – a bruxa e o ogro -, são repetições genéricas dos clássicos antagonistas dos filmes da década de 80, enormemente estranhos, completamente injustificáveis e aparentemente imortais. A fórmula é a mesma, mas a intenção do longa-metragem é colocá-los em segundo plano, enquanto as protagonistas, principalmente Beth, assumem o papel de movimentar a trama, especialmente após as descobertas grandiosas, onde a personagem e sua intérprete tornam-se exatamente o que os invasores são, criaturas indiscriminadas. A fúria é retomada. O trabalho de maquiagem, além disso, é muito bom e Emilia Jones, a personagem mais jovem, é bastante competente no papel. A solução para levá-la a esse estado agressivo, contudo, é, novamente, fraca e óbvia, assegurando as consequências para o espectador, em previsibilidade, como a repetição da fuga de cativeiro, mais estafante que nauseante, mas potencialmente perturbadora. O francês cineasta, vindo de um distante Mártires, obra de dez anos atrás, envolveu-se em polêmicas durante a realização do longa-metragem, em razão de um acidente que desfigurou parcialmente, mas para sempre, o rosto da jovem atriz Taylor Hickson, intérprete da jovem Vera. A Casa do Medo – Incidente em Ghostland – título brasileiro auto-paródico e desnecessário – não é uma obra que marcará o espectador da mesma forma como, infelizmente, marcou a atriz, mas é envolvente o suficiente para não ser uma produção em vão.

A Casa do Medo – Incidente em Ghostland (Ghostland) – EUA, 2018
Direção: Pascal Laugier
Roteiro: Pascal Laugier
Elenco: Crystal Reed, Mylène Farmer, Anastasia Phillips, Emilia Jones, Taylor Hickson, Rob Archer, Adam Hurtig, Alicia Johnston, Erik Athavale, Kevin Power, Mariam Bernstein, Ernesto Griffith, Denis Cozzi, Sharon Bajer, Tony Braga
Duração: 91 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.