Crítica | A Centopeia Humana 2

estrelas 1

A Centopeia Humana não foi exatamente um sucesso de crítica, mas conseguiu angariar uma legião de fãs, em geral apreciadores de um terror mais gore. Sabendo disso, Tom Six, diretor e roteirista da obra, idealizou prontamente uma sequência, que seria ainda mais explícita, fazendo o primeiro filme parecer, em suas palavras, My Little Pony. Eis que surge A Centopeia Humana 2, que tivera de passar por dezenas de cortes para que deixasse de ser banido na Inglaterra e inúmeros outros países, alguns dos quais o longa permanece nesse limbo até hoje. Temos aqui uma sequência essencialmente diferente do original, mas que se configura como algo simplesmente revoltante, nojento e de mau-gosto em praticamente todos os níveis.

A obra conta com uma premissa bastante interessante ao adotar a metalinguagem. Martin (Laurence R. Harvey) é um segurança de estacionamento com problemas mentais fixado pelo filme A Centopeia Humana. Nessa sua obsessão, ele decide realizar os feitos do doutor dentro do longa-metragem pelo qual é apaixonado e começa a sequestrar pessoas aleatórias que dão o azar de aparecerem no local. Sua intenção, contudo, é de expandir o conceito da centopeia humana, utilizando doze seres humanos ao invés de três, como era no original. A história acompanha essa perversa criação dessa figura problemática.

A Centopeia Humana 2 conta com os mesmos problemas de seu antecessor quando se trata do elenco. Ao trabalhar com atores principalmente amadores, grande parte das sequências se transformam em verdadeiras cenas de comédia, especialmente aquelas envolvendo a mãe de Martin, cujo comportamento surreal se equipara à exageradamente dramática maneira como fala. Laurence R. Harvey, contudo, nos oferece um retrato verdadeiramente perturbador, algo que é ampliado pelos closes do diretor Tom Six, que garantem uma sensação de repulsa a quase todas as ações do protagonista. Existe a tentativa de criar um trauma passado no personagem que justifique sua fixação pelo seu projeto nefasto, mas tudo é estragado pelo trabalho dos atores com quem contracena.

A escolha de utilizar a fotografia em preto e branco, por mais que o filme tenha sido rodado em cores, é acertada, imprimindo uma sensação maior de sujeira e visceralidade ao longa-metragem. Assistir esse filme é verdadeiramente uma experiência perturbadora e potencialmente traumática para os de coração mais fraco, visto que Six não perdoa absolutamente nada ou ninguém nesses noventa e um minutos de projeção. Somos deixados com uma verdadeira sensação de ânsia e desolação ao término da projeção, mas, infelizmente, essa característica é proveniente do excesso de gore e escolhas perturbadoras do roteiro e não da construção atmosférica da obra.

Entramos, portanto, naquilo que torna A Centopeia Humana 2 em algo verdadeiramente repugnante e não digo isso no bom sentido (se é que existe um). Ao introduzir cenas de estupro, morte de recém-nascido, de grávida, sem falar, é claro, na velha mutilação, Tom Six extrapola todos os limites do aceitável, não se trata mais do divertido e nojento gore e sim de algo de mau-gosto. Evidente que estou falando da versão sem cortes, que proporciona a experiência completa almejada pelo diretor, a qual tive o desprazer de assistir. A inserção de uma mãe parindo a criança em um carro e, em seguida, amassando o bebê com o pé é colocada gratuitamente, não é justificada, em momento algum do filme e causa mais raiva e repulsa do que qualquer outra coisa.

Six, portanto, joga fora toda sua construção, que fora, em geral, bem-sucedida até meados do longa a favor de um torture-porn de mau-gosto, exagerando muito mais do que qualquer um esperaria, dizimando o clima de desconforto gerado no espectador, substituindo-o por uma violência sem sentido, que, no fim, não condiz com o que fomos preparados até ali. Para trabalhar com o gore é preciso definir bem a estética da obra e o que vemos aqui são constantes tentativas do diretor em nos revoltar, algo que ele consegue fazer, mas sem, em momento algum, nos recompensar com algum senso de satisfação ao terminarmos a obra, que, em suma, não acrescenta em absolutamente nada.

Uma pena que o visceral e o angustiante tenham sido substituídos por sequências que extrapolam o bom senso, transformando um filme com potencial em algo que simplesmente podemos pegar e jogar no lixo. A Centopeia Humana 2 desperdiça todas as chances de nos entregar uma obra metalinguística altamente perturbadora, nos trazendo um encadeamento de ações que não é nojento, apenas revoltante.

A Centopeia Humana 2 (The Human Centipede II (Full Sequence)) — EUA, 2011
Direção:
Tom Six
Roteiro: Tom Six
Elenco: Ashlynn Yennie, Maddi Black, Laurence R. Harvey, Kandace Caine, Dominic Borrelli, Lucas Hansen, Lee Nicholas Harris
Duração: 91 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.