Crítica | A Centopeia Humana

estrelas 2

Centopeia Humana certamente é um dos filmes de terror recentes que mais ganharam espaço na cultura pop. Seu perturbador e original conceito rapidamente ganhou a atenção do público, a tal ponto que é difícil encontrar algum cinéfilo que jamais tenha ouvido falar do longa-metragem. Escrito e dirigido por Tom Six, a obra foi negativamente recebida pela crítica, mas que, por algum mistério, conseguiu ser premiada em festivais ao redor do mundo – possivelmente pelo choque de ver algo tão ousado em tela. Desde seu lançamento, o filme recebeu mais duas sequências e algumas paródias, como o sensacional episódio de South Park, HumancentiPad, cujo título já descreve bem a versão parodiada de Steve Jobs cria no capítulo. Naturalmente que, diante de tanta repercussão, o longa entraria em nossa coluna, Sábado de Sangue.

Na trama, Lindsay (Ashley C. Williams) e Jenny (Ashlynn Yennie) são duas turistas americanas em uma roadtrip pela Europa. Em uma noite, a caminho de uma festa, seu carro acaba tendo o pneu furado e, sem qualquer outra escolha, decidem procurar por ajuda, já que estão sem sinal no celular. Não demora muito para encontrarem uma casa em uma clareira de um bosque ou floresta e ambas pedem para o morador, Dr. Heiter (Dieter Laser) para fazerem uma ligação. Pouco sabiam que o doutor tinha outros planos em mente, envolvendo um plano funesto de unir a boca de uma ao ânus da outra, que, por sua vez, seria ligada a um turista japonês.

Antes de apropriadamente cair em cima do filme, permitam-me esclarecer algo: A Centopéia Humana não chega a ser inteiramente ruim. Ele é sim nojento, conta com sua dose de gore (ainda que bem pequena, não explícita), mas consegue criar um forte suspense no espectador, que ora se vê revoltado com as situações exibidas na projeção, ora angustiado pela impotência da protagonista e suas duas outras recém adicionadas partes. Tom Six cria um paralelo óbvio e imediato com os experimentos realizados por Josef Mengele, no Terceiro Reich, algo que o realizador não esconde, chegando a nomear seu cientista maluco de Joseph Heiter e fazê-lo um especialista em gêmeos siameses – Mengele era obcecado por gêmeos e, se desejam conhecer um pouco mais sobre esse monstro, recomendo que assistam O Médico Alemão, um ótimo filme argentino lançado em 2013.

Six, porém, jamais adentra com maior profundidade na mente de seu sinistro doutor, não explicando o porquê de sua transição de renomado cirurgião para um dr. Frankenstein. Heiter é trabalhado de forma extremamente unidimensional, a tal ponto que chega a ser ridículo, visto que até as risadas maléficas ele emprega ao longo da projeção. A tarefa árdua de assistir tenebrosas atuações, contudo, não se limita ao vilão, visto que o restante do elenco é tão ruim que ficamos na dúvida se torcemos por eles ou não. Evidente que a estupidez garantida a cada personagem pelo roteiro não ajuda, algo que já podemos testemunhar de início quando as duas jovens decidem pedir ajuda e, ao invés de seguirem pela estrada, saem andando pelo meio da floresta!

A centopeia humana de fato, que dá título ao filme, felizmente não demora a aparecer. Evidente que existe aquela típica construção atmosférica de filmes de terror, mas nisso o longo se sai muito bem e emprega algumas elipses bem inseridas a fim de movimentar a trama – por outro lado, o trabalho da edição poderia ser mais discreto, não empregando irritantes fade-to-black que completamente quebram nossa imersão. A visão dessa criação do cientista maluco é realmente perturbadora, gerando uma repulsa imediata no espectador. É claro que a intenção do diretor era gerar exatamente isso e, convenhamos, todos sabemos o que vamos ver nesse filme, portanto não há desculpas para parar de ver no meio do caminho xingando Zeus e o mundo.

Nesse quesito, o realismo que abandona a forma como os personagens agem, ressurge de maneira assustadora, a tal ponto que chegamos a acreditar que eles estão de fato presos. Naturalmente, que a constante presença do sangue fortalece essa percepção, deixando o desconforto no espectador de que, a qualquer momento, eles podem acabar sendo rasgados. Outra escolha acertada foi ocultar a união precisa do ânus com a boca através das ataduras e panos, o que, mesclado com a direção de Six, que opta por planos curtos (em sua maioria), com câmera em lento movimento. Ajudando a construir essa tenebrosa visão está pouca quantidade de diálogos, visto que quem fica na posição dianteira sequer fala inglês (se possível, recomendo que assistam sem legendas, para uma experiência mais imersiva).

Infelizmente, nossa incredulidade acaba tomando conta de nós em momentos que pedem muito de nossa suspensão de descrença e somos pegos por risadas involuntárias que quebram totalmente o clima ansiado pelo diretor. Em determinado momento paramos de ver o filme como algo sério e encaramos como uma comédia de terror, cuja violência não afasta o ridículo de inúmeras sequências, especialmente nos trechos finais do longa-metragem.

No fim, A Centopeia Humana se encerra como exatamente isso: um cinema de horror que tira de nós, em igual medida, risadas e angústia a tal ponto que não conseguimos assistir o filme com seriedade, o dispensando como uma obra de péssima construção de personagens e situações extremamente forçadas. Tom Six contava com o potencial de criar algo extremamente perturbador, que poderia atingir nossos estômagos em cheio, mas esse ponto, que ele ameaça atingir, é quebrado por inúmeros deslizes em sua narrativa, nos entregando um típico longa-metragem que assistimos junto dos amigos para rir.

A Centopeia Humana (The Human Centipede) — Países Baixos, 2009
Direção:
Tom Six
Roteiro: Tom Six
Elenco: Dieter Laser, Ashley C. Williams, Ashlynn Yennie, Akihiro Kitamura, Andreas Leupold, Peter Blankenstein
Duração: 92 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.