Crítica | “A Charlie Brown Christmas” – Vince Guaraldi Trio

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estrelas 5,0

Os populares “álbuns de natal” são costumeiros alvos de discussão e piadas no cenário musical, constantemente vistos como verdadeiros “caça-níqueis”. E isso se extende pelos mais diversos artistas: Elvis, Johnny Cash, Lynyrd Skynird, NSYNC, Justin Bieber e até mesmo John Travolta (sim, acredite) já apelaram para discos natalinos. No entanto, basta olhar fora desse radar excessivamente mercadológico para termos o prazer de encontrar pérolas belíssimas como a trilha da banda Vince Guaraldi Trio para a animação/especial O Natal de Charlie Brown, feito pela CBS em 1965 e baseado na obra mundialmente famosa, Peanuts, de Charles M. Schulz.

Notável por sua configuração versátil de piano-bateria-baixo acústicos, o trio liderado pelo pianista e compositor Vince Guaraldi foi responsável por criar trilhas para diversas animações adaptadas de Peanuts, capturando perfeitamente a alma ingênua e melancólica da obra de Schulz. A Charlie Brown Christmas é um destaque a parte em meio a estes achados, figurando entre os álbuns de Natal mais populares na Terra do Tio Sam, conseguindo até hoje se encontrar em meio aos 10 mais vendidos do gênero por lá.

Formado tanto por canções natalinas populares (What Child Is This, Christmas Song) quanto por composições originais (Linus And Lucy, Skating, Christmas Time Is Here) temos aqui um trabalho que divide muito bem as duas abordagens. As portas do álbum são abertas com Tannenbaum, famosa canção de Natal nos EUA, embora de origem alemã. Esta dita o tom que será seguido, um jazz acústico, simples e aconchegante, assim como muito bem compassado. Há um charme único que já pode ser percebido aqui e continua a perpassar todo o disco, uma notória baixa produção na gravação, algo que sabiamente não foi removido da remasterização já que passa longe de ser um incômodo, mas, sim, colabora para uma aura singela e contemplativa.

Vince Guaraldi, claro, é o grande astro aqui com suas fascinantes execuções ao piano, mas é interessante também ver a maneira como Jerry Granelli (bateria) e Fred Marshall (baixo) acompanham todas as faixas de maneira discreta e muito bem pontuada (destaque ao baixo de Christmas Time Is Here (instrumental), muito bem escondido, mas que traz um ar completamente diferente a canção, hipnotizando o ouvinte com seu charme). Através de um clima por vezes divertido e por vezes tocante, encontramos canções memoráveis, esbarrando com faixas inesquecíveis como a ótima Linus And Lucy, com seu piano dançante muito bem alinhado ao groove do baixo.  Christmas Is Coming, outro belo destaque, chama atenção por sua bateria simplificada que dita o rítmo desta que aparenta ser a faixa mais enérgica e sofisticada do disco.

E que todos os devidos méritos sejam dados: a presença do coral infantil da Igreja St. Paul’s Episcopal Church, localizada em San Rafael, Califórnia, adiciona uma série de elementos determinantes para o deslumbramento com o álbum, além de representar muito bem a trupe de Charlie Brown e seus amigos. As diversas formas que os arranjos de vozes são inseridos merecem verdadeiros enaltecimentos aqui, seja na sutileza tímida e sussurrada da fantástica My Little Drums, a leveza inocente de Hark, The Herald Angels Sing, ou a belíssima e sincera delicadeza de Christmas Time Is Here.

Esqueça todo o sentimentalismo barato de centenas de obras natalinas feitas pra tirar dinheiro em cima deste feriado, a experiência que Vince Guaraldi Trio proporciona aqui é sincera e digna de ser dita como o verdadeiro espírito de Natal. Sutil e simples, música feita com o coração, além de um brilhante e clássico exemplar de jazz.

Aumenta!: My Little Drum
Diminui!:

A Charlie Brown Christmas 
Artista: Vince Guaraldi Trio
País: Estados Unidos
Lançamento: Dezembro de 1965
Gravadora: Fantasy
Estilo: Jazz, Trilha Sonora,

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.