Crítica | A Chave Mestra

estrelas 5,0

Um dos fatores mais violentos na diáspora dos negros é o choque entre as práticas religiosas dos africanos escravizados que chegaram ao continente americano e encontraram colonizadores que tratavam as suas devoções como algo demoníaco, tendo sempre o cristianismo como o elemento básico da balança comparativa. Logo, a relação entre eu (os colonizadores) e os outros (colonizados) foi estabelecida na relação binária “práticas cristãs limpas” x “exotismos diabólicos”.

Estudiosos pós-coloniais como Franz Fanon, Stuart Hall e Homi Bhabha são alguns dos representantes dessa linha de estudos por um viés acadêmico. Por outro lado, a indústria do cinema utiliza-se desse binarismo para a produção de narrativas que reforçam estereótipos ou os colocam em reflexão, basta se lembrar do primeiro Brinquedo Assassino e a representação destes rituais. Ora o negro é um personagem chicoteado e coitado, ora parte em busca de vingança, tendo às vezes as suas práticas utilizadas de maneira errônea por pessoas leigas no assunto.

São várias as faces e em A Chave Mestra, o tema é relacionado com a prática do hodu, uma das vertentes do vodu, prática religiosa que no cinema e na televisão, já ganhou contornos exagerados e equivocados, emparelhados com as artimanhas dos famigerados estereótipos. Ambientado em um universo semelhante ao bizarro Coração Satânico, suspense eletrizante dirigido por Alan Parker, em 1987, o filme nos apresenta Caroline (Kate Hudson), uma enfermeira que acabou de arranjar um emprego numa antiga fazenda em Nova Orleans, região sul dos Estados Unidos.

Ao chegar ao local, ela acaba se envolvendo em uma trama misteriosa envolvendo a casa e os seus antigos habitantes, “criados” que realizam rituais de feitiçaria e foram castigados publicamente por seus patrões. Caroline recebe a incumbência de cuidar do fragilizado Ben (John Hurt), um homem que sofreu derrame, além de ter de utilizar todo o seu arsenal de paciência e delicadeza para lidar com a rude Violet (Gena Rowlands), esposa de Ben.

No primeiro dia de trabalho, Caroline recebe uma chave capaz de abrir quase todas portas da casa, exceto a do sótão, um local considerado proibido pela dona da casa. O local é depósito para espelhos que foram tirados de todos os cômodos, bem como de objetos que mudarão para sempre o seu destino. Com o tempo, acontecimentos estranhos se mesclam com a curiosidade e Caroline é levada a abrir as portas erradas, trazendo para si um macabro mundo de feitiçaria e conjuros.

Ehren Krueger roteirizou esse filme num espaço de tempo muito próximo ao da continuação O Chamado 2. Assistindo ao macabro suspense com Kate Hudson, percebemos os motivos que o levaram a produzir uma continuação tão descuidada para Samara Morgan. Os personagens em A Chave Mestra são bem construídos, os acontecimentos não pedem explicações com tantas reviravoltas sem verossimilhança e o final é, como pouco já vimos em filmes de terror, surpreendente. Não há a famigerada busca por uma continuação e é isso que faz o filme ser uma narrativa bem sucedida.

A atriz Kate Hudson consegue triplicar a força de Caroline, uma moça que cuida de idosos como uma espécie de compensação por ter sido desatenta enquanto o seu pai ainda vivia. Inicialmente cética, ela começa a conhecer a história local e acreditar nos acontecimentos, o que denota ser algo fatal. Corajosa e inteligente, Caroline não precisa explorar a sua beleza para a identificação com o espectador, além de evitar ser uma das discípulas das gritalhonas dos filmes de terror dos anos 1970-80.

A direção de Ian Softley não é um primor, mas o filme conta com uma competente equipe técnica, o que nos leva ao popular “a união faz a força”. A direção de arte nos lembra o ótimo Os Outros, com direito à inclusão de pântanos na história, o que cria uma ambientação macabra. A câmera passeia pela casa e através de movimentos bem dosados, nos apresenta toda a iconografia suficiente para entendermos os conflitos dos personagens, bem como sugere coisas no contexto extra campo que só veremos em cenas mais próximas do ato final.

Há certa dependência da engenharia de som, mas isso não se configura como um problema. Diferente dos sustos fáceis, esse filme está mais interessado em desenvolver uma boa argumentação sobre os temas fé, coragem, malignidade e contato com o desconhecido. Os coadjuvantes são eficientes, assim como a montagem que evita a tenebrosa “estética do tesourinha”, com cenas cortadas numa velocidade maior que a da luz.

A chave também é um item bem explorado no filme. De acordo com o Dicionário de Símbolos, de J. E. Cilort, as chaves que derivam da cruz ansante (forma de t com laço no topo) designam o arquétipo da vida eterna e abre espaço para a imortalidade, um símbolo muito comum no Egito Antigo. Direção de arte, figurino, designer de produção e roteiristas bem entrosados na construção da significação dos símbolos nesta narrativa de terror de “luxo”.

O conjuro sacrificial do filme nos mostra o interesse pela troca de corpos, numa busca pela imortalidade, num desejo de vida eterna que não poupa as vidas que os cerceiam. Os espelhos escondidos refletem bem a condição dos personagens que não querem se ver em sua condição, mas projetam-se no “outro”. A saída da zona urbana e o entrosamento com o ambiente rural é um dos caminhos utilizados pelo filme para esconder melhor as façanhas dos “invasores de corpos”. O filme não chega a “profanar” os rituais oriundos da prática de vodu e hodu, preocupando-se apenas em mostrar a questão e usar o material como elemento para engrenagem da ação.

A Chave Mestra se mostra um filme de dicotomias. O bem e o mal, o crer ou não crer, o real ou a ilusão, reafirmando o que Santo Agostinho, no campo da filosofia, abordou em seu clássico Confissões: os nossos “demônios” existem e uma prova disso é a oposição ancestral entre o bem e o mal. Essa dicotomia, presente nas mais diversas produções, dos mais variados gêneros da história do cinema, continua sendo base de quase todas as narrativas já contadas na história da humanidade.

A Chave Mestra (The Skeleton Key, Estados Unidos – 2005)
Direção: Ian Softley.
Roteiro: Ehren Krueger.
Elenco: Kate Hudson, Gena Rowlands, John Hurt, Peter Sarsgaard, Joy Bryant, Forrest Landis, Jamie Lee Redmon, Maxime Barnett, Jeryl Prescott.
Duração: 104 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.