Crítica | A Chegada (2016)

estrelas 5,0

Obs: Leia aqui nossa crítica com spoilers. 

É fantástico como o gênero da ficção científica encontrou uma renascença no cinema americano. Tudo começa em 2009, com Neil Blomkamp impressionando pela abordagem a temas sociais em Distrito 9 e James Cameron novamente elevando a tecnologia do cinema com Avatar. Os anos seguintes mantiveram a tocha acesa ao oferecer sci-fis de inegável qualidade, com Alfonso Cuarón jogando o espectador nos horrores do espaço sideral em Gravidade, Christopher Nolan partindo na emocionante viagem extra-dimensional de Interestelar e Ridley Scott oferecendo um senso de humor inesperado e irreverente com Perdido em Marte, no ano passado.

Agora, o implacável Denis Villeneuve continua sua navegação por diferentes gêneros cinematográficos após abordar intolerância religiosa em Incêndios, serial killers em Os Suspeitos, a dualidade da mente humana em O Homem Duplicado e cartéis mexicanos em Sicario: Terra de Ninguém. Nada mais apropriado para o homem que ressuscitará Blade Runner nos cinemas do que se aventurar numa ficção científica. E o que vemos em A Chegada é algo verdadeiramente especial e que se destaca como um dos melhores filmes de 2016.

Partindo do conto Story of Your Life, de Ted Chieng, o roteiro de Eric Heisserer começa quando a Terra é misteriosamente invadida por naves extraterrestres que pairam sobre 12 cantos diferentes do planeta. Sem revelar suas intenções ou demonstrar qualquer sinal de paz ou hostilidade, os objetos passa a ser estudados pelos seres humanos, com o foco caindo sobre a linguista Louise Banks (Amy Adams) que é designada pelo Coronel Weber (Forest Whitaker) a trabalhar com o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) para tentar comunicar-se com os seres das naves e tentar descobrir qual o propósito de sua chegada no planeta.

Ao contrário de filmes de mesma proposta como Guerra dos Mundos ou o famigerado Independence Day, A Chegada prefere se concentrar muito mais no fator humano de sua história, então quem procura explosões, batalhas intergalácticas ou qualquer outro elemento blockbuster certamente vai encontrar apenas tédio e lentidão aqui, definitivamente não sendo um filme que agradará a todos. É uma narrativa que toma o tempo necessário e se vê muito interessada nas coisas pequenas, mantendo seu foco sobre a importância da comunicação e sempre trazendo à tona esse elemento ao longo da trama, desde as dezenas de telas de computadores que trazem pessoas de diferentes países trocando informações – algo tão bem estabelecido pela mise em scène, que sentimos uma leve tristeza quando todas elas se desligam em certo ponto – até a referência histórica de que primeiros encontros entre dois povos geralmente culminam no massacre do menos desenvolvido.

Esse medo e tensão é algo que a direção de Denis Villeneuve captura maravilhosamente bem durante o primeiro ato, sendo capaz de criar uma atmosfera assustadora e curiosa, tal como M. Night Shyamalan fez ao retratar de forma silenciosa a invasão de alienígenas em Sinais. Desde os planos bem abertos que vão isolando a personagem de Adams, sua câmera sempre em movimento e o silêncio que o design de som propõem antes que a trilha sonora fantástica de Jóhann Jóhannsson exploda em cena são todos fatores que contribuem para manter o espectador colado na cadeira durante esse primeiro ato. A primeira vez em que os personagens adentram a nave e temos o vislumbre dos seres alienígenas são momentos de puro suspense e maestria, que confirmam o talento do cineasta franco-canadense em construir sequências do tipo; pense na cena da fronteira em Sicario ou praticamente Os Suspeitos inteiro.

Já quando embarcamos no segundo ato, A Chegada torna-se um envolvente filme de descobertas e mistério, deixando um pouco de suspense de lado para concentrar-se no espírito humano e a fome de curiosidade. É quando o roteiro de Heisserer apresenta conceitos e ideias muito interessantes, ao mesmo tempo em que desenvolve bem a personagem de Adams e sua relação com Renner, mas nunca deixando a tensão e a pressão de governos internacionais lentamente crescer em subtramas e personagens de apoio – principalmente na figura do esquentado agente da CIA vivido por Michael Stuhlbarg e no medo global de uma guerra ser iniciada. São pequenos núcleos que acabam bem inseridos e com um papel importante ali, sendo bem organizados também pela montagem sempre equilibrada de Joe Walker.

As cenas em que os protagonistas interagem com os alienígenas são o ápice do espetáculo. Há uma clara inspiração em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, principalmente pela presença de um periquito que auxilia na medição de oxigênio na câmara interna da nave, um elemento esperto que o design de som aproveita bem para criar um clima estranho e digno do filme de Steven Spielberg. É também algo refrescante de se testemunhar em um período do cinema americano tão dominado por destruição sem sentido e efeitos visuais genéricos, onde o fascínio de Amy Adams diante de seus estudos – e as possibilidades que Heisserer vai nos sugerindo – é mais empolgante do que isso. O design de produção de Patrice Vermette também agrada pela simplicidade da câmara alienígena e o design esférico das naves, todos detalhes bem valorizados pela bela fotografia de Bradford Young em um equilíbrio impactante de luz e sombra durante as sessões de comunicação alienígena.

Então chegamos à reviravolta que dividirá a todos. É algo do tipo ame ou odeie, uma mudança no paradigma da história que nos faz questionar e reavaliar tudo o que havíamos visto até então, e percebemos como Villeneuve inteligentemente nos forçou a interpretar algo de outra maneira, graças também à montagem capciosa. Porém, por mais absurdo que o conceito possa parecer, é preciso abraçar o fato de que a ficção científica sempre trouxe ideias e abordagens fantásticas, e, no caso do texto de Heisserer, elas funcionam de forma diegética desde o primeiríssimo frame de projeção, em um detalhe que certamente será mais valorizado após uma segunda sessão do longa. Porém, resta dizer que a reviravolta em questão é ousada e absolutamente funcionou dentro daquele contexto, enriquecendo ainda mais o filme e sua proposta de discutir o tempo e a comunicação.

A Chegada talvez seja o filme mais completo de Denis Villeneuve como cineasta, que domina com maestria uma história de ficção científica complexa e desafiadora, sendo capaz de transmitir uma poderosa e atemporal mensagem sobre a raça humana. E definitivamente precisamos de obras assim agora.

A Chegada (Arrival, EUA – 2016)
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Tzi Ma, Jadyn Malone
Duração: 116 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.