Crítica | A Chegada

estrelas 5

Podemos dizer que a nossa civilização é fruto de um longo processo migratório do coração da África para o restante do planeta. As causas para a movimentação dos hominídeos foram muitas, e todos os grupos precisaram se adaptar às novas condições climáticas, geográficas e organizacionais de suas “novas casas”.

O mesmo processo se repete desde então. Guerras, fome, pestes, busca por riqueza, trabalho, fuga de si mesmo ou de alguém… muitos são os motivos que impulsionam as pessoas a migrarem de um lugar para outro e, independente deles, todo migrante enfrenta dificuldades no processo de mudança ou na adaptação em seu novo lugar de residência. Nós, humanos, conseguimos nos adaptar muito bem às mais diversas e adversas situações e procuramos ao máximo fazer de nossa “nova vida” uma boa vida.

Talvez o que mais nos chama a atenção em A Chegada (2006), graphic novel sem palavras do australiano Shaun Tan, é justamente essa universalidade do tema “imigração” trabalhada em sua maior intensidade.

Temos como foco central da história um homem que vai de um país para outro em busca de melhores condições de vida. Embora não haja um único balão ou quadro escrito no livro (as indicações de escrita são em um alfabeto de símbolos inventados pelo próprio Tan, embora possamos ver um ou outro ideograma, letras do alfabeto cirílico e devanágari, mas nada que constitua um significado), sabemos que o protagonista mudou de país por impasses climáticos que o artista nos apresentará no desenvolvimento da história, mas logo estarão presentes também informações adicionais sobre sua velha e nova casa, com característica urbana, densidade demográfica e charmosa presença dos psicopompos, os animais-guia-de-vida que acompanham os humanos nesse universo.

Em quatro anos de pesquisa para criar algo baseado em fatos históricos, mesmo que imbuídos de fantasia, Shaun Tan faz aqui amplo uso de diversas fontes para a construção de um roteiro inteligível apenas por imagens líricas, oníricas e surrealistas, mas também prioriza a relação da história fictícia com o nosso mundo. Embora não possamos identificar nenhuma cidade conhecida no livro, o conjunto de símbolos que o autor nos fornece permite que estreitemos relações temporais e espaciais com dezenas movimentos migratórios que conhecemos ao redor do mundo, visto que este processo não nos é estranho e tem inúmeros pontos de origem.

Gravuras de Gustave Doré; quadros como Going South, de Tom Roberts; fotografia de um jornaleiro anunciando o naufrágio do Titanic em 1912; postais de Nova York na passagem do século XIX para o XX; fotografias da Europa pós-guerra; o filme Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica e a gravura Over London by Rail, de Gustave Doré, são referências visuais assumidas pelo autor ao final do livro. Sua composição de quadros nos traz esses elementos culturais revestidos de um novo significado e o resultado nos leva para um mundo completamente diferente, um lugar que poderia muito bem ser o cenário de um sonho muito esquisito e, de certa forma, perturbador.

Das coisas que Tan investiga em seu roteiro, podemos destacar a forte presença da memória dos imigrantes, a ajuda recebida dos cidadãos locais e o reencontro com os familiares que ficaram para trás. A estética de “livro antigo” e “fotografia envelhecida” usada para a composição das páginas, a diagramação quase cinematográfica, chegando até 30 quadros por página e a escrupulosa textura e coloração interna e externa da obra são cuidadosamente pensadas para transmitir ao leitor a ideia de ligação com o passado, de uma história familiar perdida no tempo, mas que poderia acontecer agora mesmo.

A livre troca de impressões entre o passado e o presente é uma intenção tanto conotativa quando denotativa em A Chegada, e isso prova não só a excelência do trabalho artístico do autor como também o seu domínio da linguagem narrativa visual *.

A profundidade em diversas áreas do pensamento humano como a sociologia, a antropologia, as artes e a filosofia encontradas em A Chegada podem alcançar cada leitor de maneira e intensidade muito diferentes. Já li comentários arrasadores em relação à graphic novel acusando-a de estesia, enganação barata disfarçada de reflexão, ausência de sentido em seu próprio objetivo e por aí vai… Todavia, mais do que em qualquer outro tipo de quadrinhos, é necessário que o leitor se disponha a sair dos universos de super-heróis e partir para um universo mais humano, que embora imerso em aparência fantástica, mostra uma fatia bastante dolorida das diásporas em nossa História. Essa relação entre lirismo, memória familiar e trajetórias de vida são mescladas nesse álbum e convidam à reflexão sobre o homem e as constantes refigurações dadas à sua própria vida.
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* Algo que também podemos encontrar com excelência nas obras do suíço Thomas Ott, dentre as quais destaco O Número 73304-23-4153-6-96-8

A Chegada (The Arrival) – Austrália, 2006
No Brasil: 2011
Roteiro e Arte: Shaun Tan
128 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.