Crítica | A Cidade dos Amaldiçoados

estrelas 3

As crianças nem sempre são confiáveis, pelo menos se observarmos filmes como A Tara Maldita, Caso 39, O Chamado, Colheita Maldita, O Anjo Malvado e este A Cidade dos Amaldiçoados, eficiente refilmagem do clássico pouco conhecido dos anos 1960, A Aldeia dos Amaldiçoados. Sob a direção de John Carpenter, esta versão anos 1990 pode não ser um primor, mas vista com certo distanciamento, rende boas reflexões.

O filme nos faz pensar o que Giorgio Agamben, um dos pensadores italianos atuais na seara da Estética e da Política aponta sobre pensar o “contemporâneo”. Em algumas ocasiões é preciso que o indivíduo se distancie do seu “tempo” para entender algumas alegorias, pois imerso em seu contexto histórico, a observação pode se tornar comprometida. Estas ideias, expostas no elucidativo O que é o contemporâneo e outros ensaios, lançado em 2007, podem ser o subsídio para entender a recepção desta refilmagem.

O desempenho financeiro não foi dos melhores e a crítica parecia unificada para urdir um tecido de opiniões desfavoráveis. Visto hoje, talvez, a opinião de muitos possa mudar. A obra é uma ótima crítica ao contexto social dos anos 1990, tão bem alocada quanto à alegoria comunista dos anos 1960. Há detalhes incômodos, tais como a necessidade de explicitar determinadas situações e a câmera muito didática, mas isto precisa ser refletido: é uma questão cultural. John Carpenter não fez o seu melhor trabalho, tampouco buscou inovar nos efeitos especiais, mas o filme não fica devendo ao seu clássico.

No filme uma pequena vila estadunidense é vítima de um fenômeno que deixa os seus habitantes desmaiados por em média seis horas. Depois do incidente, várias mulheres aparecem grávidas, até mesmo as casadas e com seus maridos viajantes. A agente governamental Susan Verner (Kirstie Alley) propõe que mesmo diante dos problemas conjugais, dos olhares dos moradores e de outros dilemas, elas continuem a gravidez, tendo assistência médica e bolsa em dinheiro para custear o “pré-natal não planejado”.

Algo insólito, por sua vez, acontece. Além do bizarro fenômeno “engravidar” uma legião de senhoras e senhoritas da cidade, elas dão á luz aos novos cidadãos no mesmo momento. Uma delas morre no parto e é selecionada para estudo.

De aspectos físicos semelhantes, estas crianças apresentam posturas comportamentais igualmente assustadoras: são frias, nada emotivas e sádicas com as pessoas que decidem mexer em seu espaço, numa alegoria interessante para choques de classes sociais que não se misturam, bem como a ideia nazista de supremacia racial.

Os platinados também forma pares, mas diante do rapto do cadáver da criança morta no parto, um deles, David, fica desfalcado. Certo dia a população se volta contra estas crianças e juntamente com o governo, decide aderir ao aniquilamento geral. Cabe ressaltar que os interesses governamentais são tão agressivos quanto a metáfora de supremacia racial das crianças. Será a partir deste ponto que os conflitos se atenuarão, pois os choques de interesses produzirão uma guerra na cidade.

A Cidade dos Amaldiçoados foi o último filme de Christopher Reeve antes do acidente que o deixou paralítico pelo resto da vida. Com participação especial de Mark Hamill, o Luke Skywalker da saga Star Wars, o filme segura bem as pontas em seus 99 minutos de duração. É dinâmico, envolvente e enigmático. O desenvolvimento estético não é a melhor incursão cinematográfica do cineasta, mas o tom minimalista da trilha, aparentemente sampleado de outros filmes da sua carreira, consegue estabelecer um clima favorável, nada surpreendente, vale ressaltar.

Se observado detidamente será possível observar que a obra trata de questões transversalmente de questões como os conflitos sociais, os nichos cada vez mais individualistas e irritadiços, o comportamento humano de uma maneira geral e a famigerada ganância estadunidense por poder e glória. Em suma, o filme nos mostra que a aniquilação da espécie humana não depende exatamente de explosões, heróis exalando testosterona ou ufanismo esclarecido. Um filme para ser revisitado, o que acha?

A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned) – EUA/1995.
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Wyndham
Elenco: Christopher Reeve, Kirstie Alley, Linda Kozlowski, Michael Paré, Mark Hamill, Meredith Salenger, Peter Jason, Constance Forslund.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.