Crítica | A Civilização do Espetáculo, de Mario Vargas Llosa

estrelas 5,0

(…) fizemos da cultura um daqueles castelos de areia, vistosos, mas frágeis, que se desmancha com a primeira ventania.

Mario Vargas Llosa dispensa apresentações. Para além do prêmio Nobel em 2010 e de clássicos contemporâneos como Conversas no Catedral, o escritor peruano também é vastamente conhecido pela sua posição política, considerada, em geral, como conservadora – um palavrão em certos círculos intelectuais de hoje. De sua voz ácida e elegante, todavia, resolvemos ressaltar uma pequena obra que reúne ensaios críticos sobre o tema da cultura, sem quaisquer pretensões conceituais como a que vemos em Bauman, mas tão nevrálgica quanto a obra do sociólogo polonês, principalmente no que diz respeito ao enfrentamento de exemplos práticos do status quo da cultura atualmente.

A Civilização do Espetáculo é uma crítica bem direcionada ao que a cultura se tornou e a quem a deixou assim. Dispersa em seis pequenos ensaios, intercalados por exemplos reais do alvo detonado em cada linha, Llosa demonstra toda a sua erudição em meio às provocações que não se furta em fazer. Na introdução intitulada “Metamorfose de uma palavra” já ressalta que nunca houve tantos escritos sobre cultura como em nosso tempo, já tomando a devida precaução de analisar distintos panoramas sobre cultura dados por nomes respeitados. Abro uma pequena janela para trazer alguns destes embates preliminares.

O crítico literário George Steiner, por exemplo, traz ao jogo a queda de vitalidade da cultura livresca, ressaltando ainda a irresponsabilidade daquela cultura tipicamente iluminista que, enquanto pouco fazia pelas classes oprimidas, muito menos fez ao carregar no seu tédio burguês as sementes da pós-cultura vanguardista, aquela que tem horror à transcendência e ao progresso racional e que, ao valorizar imagem e música, aumenta o abismo entre indivíduo e cultura livresca tradicional. O indivíduo também é objeto da análise do filósofo francês Gilles Lipovetsky – muito em moda atualmente – quando este retoma a ideia de cultura de massas, semelhantemente à Escola de Frankfurt, para afirmar que tal enaltecimento da cultura global, representada primordialmente pela tela em detrimento da palavra, acaba por desenvolver um individualismo extremo e egoísta, opinião fortemente combatida por Llosa que afirma, convicto, que tal cultura imbeciliza o homem gerando o efeito contrário: tornamo-nos gregários e condicionados, como os cães de Pavlov, ao som da campainha da publicidade. Outro ponto discutido entre Lipovestky e Llosa diz respeito à democratização da cultura, algo bem visto pelo francês e abominável para o peruano, que denuncia, ao estilo benjaminiano, a abertura da chamada “alta cultura” à banalização: ter obras de arte reproduzidas tecnicamente com fartura só serve para tirar o tradicional valor delas. Visitas aos museus do mundo, em geral, passaram a representar mero esnobismo, fazendo parte da obrigação do perfeito turista pós-moderno.

Mas tais discordâncias pontuais se tornam sistemáticas quando os nomes de Guy Debord e Frederic Martel entram em cena. O primeiro, guru da juventude francesa de 68, demarca seu marxismo na Sociedade do Espetáculo, onde chama de espetáculo o que o autor de O Capital chamara de alienação no século XIX: a neutralização do perigo proletário por meio, agora, da indústria cultural – exemplos de ópios do povo, nessa concepção. Pela similitude de títulos, Llosa se apressa em distinguir o viés que quis dar aos seus ensaios, viés este bastante crítico ao diagnóstico de Martel, que vê com bons olhos a passagem da cultura clássica, ansiosa pela transcendência, para a cultura “pop” atual, que tem na diversão o seu objetivo principal, para além da cultura-mundo de Lipovestky. Llosa, em contraponto, assina embaixo o dito por T.S. Eliot no seu famoso Notas para uma definição de cultura: e não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura. É com esse tom que Llosa vê, com o um frágil fio de esperança, o nosso tempo.

Fechando a janela inicial aberta para um assentamento do problema que levou o autor a escrever a presente obra, faz-se necessário delimitar o que Llosa chama de civilização espetáculo. Como todo escritor maduro, o peruano pinta uma imagem clara: milhões de paparazzi esperando um corretor da bolsa se jogar da janela durante a crise econômica em 2008. Para além da frivolidade obtida pela confusão entre o preço e o valor, tal atitude representa sintomas daquilo que a cultura virou, ou seja, puro espetáculo, entretenimento, prioridade da diversão. Como se chegou a isso? Llosa indica alguns caminhos interessantes, como a frouxidão provocada pelo bem-estar do pós-guerra – algo que implica na fuga das angústias e perturbações que romances clássicos e pesados geralmente trazem – ;a democratização da cultura, que faz a crítica perder sua relevância, posto que qualquer um pode se tornar crítico; o aumento da publicidade, decorrente necessariamente dos dois primeiros fatores e que gera, por sua vez, modas efêmeras quase instantâneas, literaturas, cinemas e músicas lights e uma correspondência com o efeito dopante de uma droga: trazer complacência e autossatisfação, sem responsabilidade, reflexão e introspecção; e. por fim, o eclipse da figura do intelectual, dada a quase completa ausência de valor que o pensamento possui neste tipo de sociedade pautada por pose e escândalo – algo bem visto no recente O Abutre, de Dan Gilroy.

Na Civilização do espetáculo, o cômico é rei.

Exemplos não faltam da banalização nociva que a cultura se tornou. Da merda de elefante enlatada e vendida como uma obra-prima à crítica ao cinema contemporâneo (Woody Allen, que está para David Lean ou Orson Welles como Andy Warhol está para Gauguin ou para Van Gogh), o escritor tenta mensurar as consequências que a inversão de valores traz, não só para a cultura mas para a sociedade como um todo. Aquele positivismo clássico, que tem brilho nos olhos quando prima por progresso, especialização, quantidade e conhecimento, de nada vale, na percepção do autor, quando trazida às letras e às artes. A cultura, na definição de Eliot, antecede e sustenta o conhecimento. Llosa usa tal parâmetro como medidor da decadência causada pela confusão contemporânea, simbolizada por estantes de livrarias dedicadas às teorias culturais, de classe, gênero, raça sujeitos sexuais – uma baboseira ilimitada para o autor – e tímidos setores para literatura, filosofia, arte e cinema.

Um dos responsáveis principais por este tipo de contaminação seria Michel Foucault. O terceiro ensaio, “É proibido proibir” é quase dedicado exclusivamente ao escritor de Microfísica do Poder e seus amenos e sofísticos ensaios. Llosa ataca, novamente, a noção propagada na França dos anos 1960, de que toda figura de autoridade é suspeita e desprezível. O respeito ao mais inteligente pensador de sua geração esbarra na vocação iconoclasta do mesmo, que logo virava simples artifício intelectual. O hermetismo pretensioso também serviu para o endeusamento da figura do crítico e decadência do artista, que contou com a contribuição do desconstrutivismo de Jacques Derrida, instrumento para a transformação da exposição de obras tradicionais em engodos. Trata-se, em sua essência, de uma ferrenha crítica conservadora que Llosa repete, focando sua luz no efeito cultural e, principalmente, pedagógico que tais correntes de pensamento podem trazer, posto que a educação é o principal problema cultural dos tempos atuais, na visão do escritor.

Pedi a meus alunos que ‘olhassem o abismo’ (as obras de Elliot, Yeats, Joyce e Proust), e eles, obedientes, o fizeram, tomaram notas e depois comentaram: muito interessante, não?

Como se faltasse polêmica, a acidez do autor atinge pontos políticos cada vez mais debatidos em tempos de imigração intensa na Europa e papos multiculturalistas. Llosa é a favor das imigrações, mas afirma com base e convicção que é contra o uso de véus islâmicos em escolas públicas. Para além desta discussão – que é muito boa, mas não me parece caber integralmente aqui – o escritor se mostra um crítico versátil. Do problema do islamismo fundamentalista militante prossegue para a debilidade do erotismo que o mesmo centro irradiador de problemas – a cultura atual – provoca. O erotismo visto como desanimalização do amor físico onde Thanatos e Eros vem à tona, é defendido pelo autor que vê a vida sexual dessacralizada, como tantos outros aspectos já vistos. Exemplo disso é a própria literatura erótica, transformada em mera pornografia da mesma forma que o sexo virou pura ginástica, ambos pelo descuido das formas e dos detalhes.

O devaneio ligeiro intrínseco ao entretenimento também é visto em seus aspectos políticos e jornalísticos. Críticas sobram para Julian Assange – a Oprah Winfrey da informação – e para a imprensa sensacionalista citada no início da obra, mas aqui Llosa deixa de lado o pessimismo com que permeou suas reflexões ao culpar a apatia e o cinismo em relação à vida pública e às instituições: o mundo tem jeito e Llosa, como um amante da tradição – longe da pecha simplista de “reaça” – volta sua crítica mais uma vez à frivolidade que a inversão de valores causou no comportamento contemporâneo. A tradição, neste sentido, envolve diferentes fatores que dependem de cada setor analisado, mas é um todo que inclui definições conservadoras por excelência. A privacidade, por exemplo, é vista como produto raro sob essa visão que enxerga o mundo atual – da cultura à política – como uma ode à libertinagem e ao choque pelo choque.

Llosa, assim, se mostra um crítico de vasta amplidão e evita cair no ceticismo que pauta boa parte do temperamento conservador. Se isso é uma qualidade ou um defeito, cabe ao leitor analisar minuciosamente. Sua posição é, certamente, uma fora de moda – e que isso não afaste leitores ideologicamente afeitos ao outro lado da moeda. Afinal, o escritor passeia com fluidez por tantas áreas que é impossível sair desta obra sem uma sensação de hesitação, seja ela por duvidar do autor, seja por duvidar do mundo ao redor. Neste sentido, sua reflexão final, um pouco mais melancólica, é em si mesma uma hesitação prazerosa de um amante dos livros em face aos ebooks e à tecnologia: A tela banaliza os conteúdos (…) e tende a transformar em espetáculo tudo o que passa. Valorizando o manuseio do livro, o tato em si, Llosa fecha com uma reflexão simbólica sobre a cultura livresca em si, sobre o que é ler, sobre o que ler e sobre como se lê hoje em dia, tempos difíceis para dinossauros, como ele mesmo se define em seu último ensaio.

Quanto mais inteligente nosso computador, mais burros seremos.

A Civilização do Espetáculo (Peru, 2012)
Autor: Mario Vargas Llosa
Editora no Brasil: Objetiva
208 páginas

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.