Crítica | A Colina Escarlate

A Colina Escarlate

estrelas 2,5

A mera menção do nome de Guillermo del Toro já é o suficiente para atiçar a vontade de muitos cinéfilos. Marcado por seu imenso talento para lidar com criaturas e belíssimos cenários fantásticos, a notícia de que o cineasta viria a realizar um romance gótico old school sobre casas mal assombradas no século XIX certamente foi animadora. Infelizmente, o que vemos em A Colina Escarlate é uma obra chata e que se arrasta do início ao fim.

Na trama, Edith Cushing (Mia Wasikowska) é uma aspirante a escritora de histórias de fantasmas, filha de um rico editor nos Estados Unidos de 1899. Ela conhece o charmoso Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) e aceita casar-se com ele e mudar-se para sua mansão na Inglaterra, a tal Colina Escarlate do título. Lá, Edith descobre a estranha relação de Thomas com sua misteriosa irmã Lucille (Jessica Chastain), assim como a presença de criaturas sobrenaturais.

Guillermo del Toro sempre foi um apaixonado pelo sobrenatural. É literalmente uma criança empolgada que consegue levar suas histórias de terror e bonequinhos de ação para as telonas em produções impecáveis e notavelmente caras, trazendo um tratamento estético sem igual. Aqui, a Universal bancou a construção inteira da mansão dos Sharpe, que impressiona pelos detalhes e seus inúmeros aposentos, além do notável buraco no teto que ocasiona em folhas e neves caindo dentro da residência. Um trabalho memorável para o designer de produção Thomas E. Sanders, que merece lembrança no Oscar não só pela  casa que praticamente “respira” (o departamento de som é certeiro ao prover uma arrepiante corrente de ar ao local), mas pela consistente reprodução de época.

Sempre com boa imaginação para as mais surtadas criaturas sem torná-las genéricas (a cena do mercado de pulgas em Hellboy II: O Exército do Dourado é a maior prova disso), del Toro atinge uma brilhante mistura de efeitos práticos com digitais na elaboração de seus fantasmas. As formas retorcidas do ator Doug Jones (colaborador de longa data do cineasta e especialista em emprestar seu corpo para personagens do tipo) são valorizadas aqui, assim como um nítido trabalho de maquiagem que é retocado com CGI para lhes garantir a “transparência” que normalmente vemos nos tais seres espectrais.

Claro, não é surpresa alguma que estejamos falando bem do visual de um filme de Guillermo del Toro. O grande pecado de A Colina Escarlate é desperdiçar uma rica e caprichada produção em uma história absolutamente sem graça e previsível. Tudo bem, é clara e nobre a intenção do mexicano em prestar uma homenagem ao cinema de terror claro – citando Mary Shelley e até batizando sua protagonista com o nome do grande Peter Cushing -, mas a verdade é que não há absolutamente nada em seu filme que se destaque. A grande reviravolta do roteiro já é facilmente identificável no primeiro ato, e a narrativa capciosa nos faz crer que teremos algo mais surpreendente no final, que talvez os fantasmas terão um papel mais original e impactante do que meramente apontar informações para a protagonista… Mas não, nada demais.

A inconstância temática do filme também prejudica a experiência, já que este não parece encontrar seu ritmo: ora aposta em uma fraudulenta tensão para se tornar um filme de terror, outrora depende do fraco romance gótico que permeia os protagonistas. É triste ver del Toro se limitando a jump scares para provocar o mínimo de tensão, tendo em vista que tinha bons monstros para usar a seu favor. Há um certo mistério para descobrir as reais intenções dos Sharpe, mas nem isso é capaz de salvar a narrativa de seu ritmo monótono.

Nem o melodrama entre Wasikowska e Hiddleston funciona, ainda que os dois atores se saiam ocasionalmente bem. É possível prever cada virada na relação do casal, revelando como del Toro e Matthew Robbins são roteiristas presos à fórmulas e clichês batidos. Nem vale a pena comentar o médico de Charlie Hunnam, preso a mais uma variante do “amigo em Banho maria”. Só Jessica Chastain consegue fazer algo de interessante com sua Lucille, ainda que demore para a personagem manifestar totalmente um lado sombrio que já era tediosamente “sugerido” desde sua primeira aparição. E ainda que a atriz se divirta gritando e correndo, não deixa de ser uma solução absurda e caricata.

A Colina Escarlate é um deleite para os olhos e traz uma produção realmente fantástica, mas que infelizmente não esconde a história sem graça e absolutamente previsível que assombra seu roteiro capenga. Já é hora de Guillermo del Toro nos fazer enxergar além do olhar, e fornecer algo tão fantástico em suas histórias quanto no visual.

A Colina Escarlate (Crimson Peak, EUA – 2015)
Direção:
Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro e Matthew Robbins
Elenco: Mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain, Charlie Hunnam.
Duração: 119 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.