Crítica | A Comédia dos Erros

estrelas 4,5

A Comédia dos Erros é a peça mais curta de Shakespeare e também a primeira comédia que ele escreveu. Baseada num texto clássico intitulado Os Menecmos (Os Gêmeos), do dramaturgo romano Tito Mácio Plauto, a peça se passa na cidade de Éfeso e tem como mote as confusões geradas pelos desencontros insuspeitados de dois pares de gêmeos, os Antífolos e os Drômios de Éfeso e Siracusa, mestres e escravos, respectivamente.

Acompanhamos o desenrolar de um dia bastante atribulado na vida desses gêmeos separados por uma tragédia no mar e a peça é daquelas em que, a cada cena, temos o nosso interesse redobrado pelo que acontece, tamanha a engenhosidade com que o autor trabalha os vários pontos da ação, trazendo não apenas o riso mas diversas reflexões sobre a condição da mulher, a posição dos escravos, a força da igreja sobre as pessoas.

James Cellan Jones dirigiu uma adaptação da peça para a TV em 1983, para a série The Complete Dramatic Works of William Shakespeare, da BBC. Sua leitura é digna de ser aplaudida de pé, porque não só resgata toda a essência do texto shakespeariano como dá um colorido todo especial à comédia, tendo ainda para ajudar-lhe dois excelentes atores nos papéis principais: Michael Kitchen (Antífolo de Éfeso e Siracusa) e Roger Daltrey (Drômio de Éfeso e Siracusa).

O fato de usar apenas dois atores para representar dois papeis “diferentes” mostra um empenho grande do diretor em arquitetar toda uma mise-en-scène para nos dar a impressão de que existem mesmo dois gêmeos, e ele se sai perfeitamente bem nisso. Não só com a disposição dos atores em cena, mesmo quando estão os quatro no mesmo ambiente; mas através de um bem realizado trabalho de montagem e atuação dos protagonistas, através dos quais conseguimos uma versão tal e qual imaginamos quando lemos a peça.

Ao realizar o jogo de farsa-e-tragédia empregado por Shakespeare, Cellan Jones acaba criando um espetáculo divertidíssimo à parte, dando ele próprio a sua contribuição dramática na construção da obra. Na cena de abertura, quando vemos Egeu contar ao Duque de Éfeso a sua situação e ter sua pena de morte suspendida por algumas horas, percebemos que ao redor do set – na praça central da cidade de Éfeso – um grupo de Saltimbancos faz a representação do destino do velho e a dualidade entre o relato e o que vemos os Saltimbancos fazerem é tamanha, que chegamos a ter um alumbramento estético, principalmente porque o relato + a ação dos atores para a tragédia narrada são, ironicamente, muito bonitos. Ajudados por uma sutil música de tendência fúnebre, a ação confunde os sentimentos do público, mixando comédia e tragédia, exatamente a intenção de Shakespeare ao introduzir esse início nada cômico em sua peça.

Também o desenho de produção tem um papel importantíssimo no filme. Já da abertura dos créditos para a primeira cena, vemos uma engenhosa ligação entre o mapa da Península do Peloponeso e adjacências com o cenário de abertura. A câmera mergulha sobre uma praça cujo chão é exatamente o mesmo mapa que vimos nos créditos, mapa este que alguns minutos depois, os Saltimbancos irá utilizar para representar geograficamente a tragédia que separou a família de Egeu, colocando um de seus Antífolos e seus respectivos escravos Drômios em cidades diferentes.

É dessa praça e dessa trupe que teremos mais duas ligações dramáticas, a primeira, através do ator vestido de vermelho que representa o velho Egeu; e depois, o ponto negativo deste uso, a feiticeira da cidade. Diferente dos Saltimbancos, a feiticeira não tem um sentido real para existir, funcionando bem quando apresentada logo no início do filme, mas perdendo a simpatia de sua persona nas outras vezes em que o diretor a traz de volta, em sua cabana, com as cartas na mesa e acariciando uma bola de cristal. Este é, na verdade, um dos raros pontos negativos do filme, completados por algumas falhas cênicas menores aqui e ali.

Entre um extremo e outro dos sentimentos humanos, vemos a comédia chegar ao fim com a continuação da história prometida pela abadessa aos cidadãos de Éfeso, algo que acontece fora da tela, numa ligação diegética que funcionou bem na adaptação, embora esteja um pouco solta na peça.

James Cellan Jones conseguiu um primoroso resultado final em A Comédia dos Erros, com um clima festivo que não trai os conflitos vistos ao longo das cenas, mas que também não deixa no ar as lamentações dos que foram prejudicados de alguma forma. Até a mulher de Antífolo de Éfeso parece não se importar em ter sido traída… Não digo que este seja um “falso final feliz” shakespeariano, mas os conflitos foram tantos, que não parece que tudo está completamente livre de uma nova crise. Mas até que se diga o contrário, tudo vai bem. É finda a comédia dos erros.

A Comédia dos Erros (The Comedy of Errors) – UK, EUA, 1983
Direção: James Cellan Jones
Roteiro: William Shakespeare
Elenco: Cyril Cusack, Charles Gray, Nicolas Chagrin, Nick Burnell, Daniel Rovai, Michael Kitchen, Roger Daltrey, Noel Johnson, Suzanne Bertish
Duração: 109 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.