Crítica | A Comunidade (2016)

estrelas 4

“Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente – isto é, uma acomodação que traga felicidade – entre essa reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável.” – 

Sigmund Freud, O Mal-Estar da Civilização

Thomas Vinterberg é um dos nomes mais proeminentes no cinema nórdico atual. Junto com Lars von Trier, fundou um movimento de cinema nos anos 90, que recusava todos os cacoetes hollywoodianos. Para o Dogma 95, não poderia haver trilha sonora, a câmera deveria vir nas mãos, os filmes deveriam ser em cores, com iluminação natural, dentre outras regras. O radicalismo espartano determinava até que o nome do diretor não estivesse nos créditos. Festa de Família é o grande filme de Vinterberg realizado sob a égide do Dogma 95. A outra grande criação do dinamarquês é A Caça, longa instigante de 2012 e esteticamente já muito distante do movimento.

O motivo da crítica de hoje é a mais nova obra de Vinterberg – A Comunidade, que estreou em setembro deste ano nos cinemas brasileiros. O filme tem um traço autobiográfico declarado, pois trata da formação de uma comunidade na Dinamarca dos anos 70, em uma das quais o próprio diretor havia morado com os pais em sua infância. A recriação cinematográfica de uma comunidade setentista não cumpre somente um papel de revisitação histórica, mas funciona como um microcosmo da própria sociedade dinamarquesa desde a criação dos chamados Estados do Bem-Estar Social.

Analisando o nosso próprio cinema, percebemos que seus grandes temas estão intimamente ligados a nossos conflitos raciais, nossa disparidade de classes e nossas dívidas históricas. É nessa esteira que surgem filmes como Cidade de Deus, Linha de Passe ou, mais recentemente, o emocionante Que Horas Ela Volta?. Nos países nórdicos, esses conflitos não existem e o que poderia ser um motivo de grande calmaria social e de uma produção artística frustra nos surpreende ao revelar um cinema vivíssimo e repleto de tensões. Vale lembrar que Thomas Vinterberg, Lars von Trier e Susanne Bier são dinamarqueses e que um gênio do mais alto quilate como Ingmar Bergman era sueco.

Algo parece ocorrer para produzir uma arte tão boa e A Comunidade é uma oportunidade de entender isso bem. A trama retrata a vida de um casal – Erik (Ulrich Thomsen) e Anna (Trine Dyrholm) – que decide viver sob o mesmo teto com pessoas desconhecidas, compartilhando direitos e obrigações. O que parecia ser uma forma prazerosa e elevada de vida começa a revelar conflitos dolorosos e o abalo definitivo ocorre quando Erik se envolve com a bela Emma (Helene Reingaard Neumann) e a amante é aceita dentro da comunidade. O mal-estar invade o grupo e Vinterberg traz à baila o tema mais aflitivo para os países escandinavos – o duro conflito entre o bem comum e os apetites individuais.

O filme contrasta momentos em que tudo parece correr bem na comunidade com diversos outros que vão esgarçando a harmonia entre seus integrantes. Nos momentos de celebração, todos estão de mãos dadas e os abraços, a música e o álcool os aproximam em fraternidade. Por outro lado, as pequenas brigas por objetos perdidos (como um casaco que um dos personagens reivindica) já demonstram alguma fragilidade nas bases do grupo. Um elemento de desequilíbrio que o roteiro habilmente trabalha é a doença cardíaca do menino, que coloca sempre em suspenso a ocorrência de uma tragédia. A doença latente, insidiosa, metaforiza bem o mal-estar que vai se instalando lenta e inexoravelmente.

Como era de se esperar, Thomas Vinterberg faz um ótimo trabalho técnico na direção. Sua interação com a atriz Trine Dyrholm (vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim deste ano) beira a perfeição. Seu trabalho atento e meticuloso de câmeras demonstra saber exatamente o que deseja da personagem Anna, em cada expressão e cada olhar da esposa atormentada. A atriz, por sua vez, demonstra um repertório impressionante ao amalgamar tantas emoções e sentimentos. Guardadas as devidas proporções, Vinterberg e Dyrholm lembram a interação quase mágica de Ingmar Bergman com Liv Ullmann. Algo daquela intensidade brutal pode ser visto também em A Comunidade.

Destaco ainda a fotografia de Jesper Toffner, que transmite, em tons pálidos e gélidos, a melancolia silenciosa que toma conta dos personagens. O figurino de época e a ótima trilha sonora, que introduz a libertária Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John, a um importante momento da trama, dão um tom também nostálgico à obra. Apesar de se debruçar sobre um tema espinhoso, o filme não chega a fazer um retrato duro dos anos 70. Há nele uma boa dose de respeito e carinho por aquela época, o que não impede Vinterberg de problematizá-la.

Uma personagem importante no filme é Freja, filha de Erik e Anna. Após descobrir a traição do pai, com um olhar perplexo que novamente não escapa à direção, ela tem sua primeira relação sexual. A menina se satisfaz fora da comunidade e estabelece uma rota de fuga que será encontrada, em certa medida, também pela mãe Anna, que faz sexo com Erik em seus sonhos e revela isso a todos. O sexo, na obra, rompe os limites da coletividade e exprime o desejo de um indivíduo que se conecta a alguém e não a um grupo. A delicadeza com que Vinterberg registra as carícias que um personagem dirige a outro nesses e em outros momentos também aponta para essa direção.

Ao final, Erik tem uma reação surpreendente a uma importante decisão e não deixa dúvidas quanto à grande questão envolvida. Dostoievski, em Recordações da Casa dos Mortos, afirma que a maior aflição do degredado era nunca ter um momento sozinho na prisão, isto é, ele estava sempre se relacionando em grupo. A comunidade que Anna e Erik formam parece lhes trazer uma angústia semelhante à relatada pelo romancista russo. Viver em comunidade não lhes garante a felicidade pretendida e eles, cedo ou tarde, sofrem e desabam diante de todos, pois se sentem apartados de si mesmos enquanto indivíduos.

A ideia de partilha é sempre positiva para o senso comum, mas A Comunidade aprofunda a questão ao demonstrar que, nem em sociedades prósperas e igualitárias, conseguimos eliminar o mal-estar como elemento estrutural do mundo. Não é coincidência que os países escandinavos convivam com taxas de suicídio tão alarmantes. Percebemos assim a natureza do problema: a individualidade sacrifica o coletivo, mas a coletividade também sacrifica o indivíduo. Freud indaga, no trecho citado inicialmente, se há algum modelo de civilização capaz de resolver esse conflito. A Comunidade não se ocupa dessa resposta, mas entrega a pergunta de forma competente e artisticamente bela.

A Comunidade (Kollektivet) — Dinamarca/ Suécia/ Países Baixos, 2016
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Tobias Lindholm, Thomas Vinterberg
Elenco: Ulrich Thomsen, Fares Fares, Trine Dyrholm, Julie Agnete Vang, Lars Ranthe, Helene Reingaard Neumann
Duração: 111 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.