Crítica | A Condessa de Hong Kong

estrelas 2,5

É por muito respeito ao artista monumental que foi Charles Chaplin que suportamos a sem-gracice de A Condessa de Hong Kong até o final. São duas horas de uma tortura honconguesa encenada por dois grandes atores em uma de suas piores atuações da carreira, especialmente no caso de Marlon Brando, cujo ego estratosférico e as colossais divergências de opinião com o “arcaísmo” de Chaplin na direção fizeram dele uma samambaia andante por cenários bonitos e gags chatas ao longo de todo o filme. É quase impossível identificar aqui os elementos não só literários mas de condução de enredo típicos de Chaplin, o que faz deste filme não só o seu pior longa-metragem como também a grande vergonha de sua carreira madura, um péssimo modo de terminar uma carreira cuja importância para a história do cinema é incalculável.

O filme se passa principalmente em um navio que vai de Hong Kong para os Estados Unidos, e coloca em cena a Condessa Natascha (Sophia Loren), destituída de seus bens após a Revolução de 1917; e o empresário e diplomata Ogden Mears (Marlon Brando), que se envolve com a [ex]Condessa e se vê obrigado a escondê-la ilegalmente em sua cabine até a chegada a um território americano. Natascha pretende chegar à Terra do Tio Sam e começar uma nova vida. Ogden anda às voltas com sua situação matrimonial e também deseja começar de novo. Inicialmente ele resiste a Natascha mas, passada a primeira hora do filme, está caído de amores por ela e o texto corre atrás do próprio rabo nesta diminuta proposta dramática.

Antes mesmo de o espectador se incomodar com a linha romântica da obra, salta aos olhos a dissonante constituição do enredo fílmico, que, na verdade, havia sido escrito em 1938, para ser estrelado por Paulette Goddard. Vemos aí nuances marcantes da era silenciosa, presença de gags anacrônicas e simplicidade narrativa destoante do modelo de concepção do filme, sensação ainda mais delineada pela dupla de protagonistas da obra.

O anacronismo de A Condessa de Hong Kong é, paradoxalmente, parte de seu charme – na verdade, a única coisa que verdadeiramente sobrevive de Chaplin na fita – e muito de seu insucesso. Há um grande incômodo em vermos a cara chapada de Brando e a postura blasé de Loren (e veja que são inquestionavelmente bons atores, portanto, o verdeiro problema é mesmo a direção), ou vê-los tropeçando um no outro, correndo de uma maneira desnecessariamente caricata por entre os cômodos da cabine ou, num plano textual, o rumo mais adocicado que o roteiro assume após a paixão aflorar-se na vida dos pombinhos improváveis.

Mas neste meio tempo há alguns acertos que, sendo considerados, farão com que o público ria genuinamente da relação entre a Condessa e seu marido de aluguel, interpretado por Patrick Cargill, que assume uma hilária e sutil posição libidinosa, cobrando a “consumação” de seu casamento; ou das garotas que dançam com Ogden no baile durante a viagem, ambas com assuntos filosóficos e tétricos que nos fazem rir bastante; ou ainda a não necessariamente engraçada mas muito boa construção do mistério em relação à identidade da Condessa para Martha Mears (interpretada por Tippi Hedren, recém-saída de Os Pássaros e Marnie, Confissões de uma Ladra). Mas todos esses esquetes são ilhas de momentos interessantes no oceano de um roteiro que se perde bastante, mesmo tendo o seu charme sutil, como já foi dito.

Em termos estéticos e de direção, Chaplin e sua equipe acertam sem ressalvas apenas depois que a Condessa pula do navio, já no Havaí. A partir desse ponto do filme a estrutura geral é muito melhor trabalhada e até composições de cenários, como o belíssimo lobby do Hotel (que me lembrou um cenário de Vincent Minnelli), se destacam com bastante louvor. A fotografia – um ponto de qualidade constante na fita, ao lado da ótima trilha sonora, apesar de ser usada com absurdo excesso – ganha ares melodramáticos (no melhor sentido estético da palavra) e dá um bom alento para os minutos finais, que nos convencem um pouco de que estamos assistindo a um filme de Chaplin.

A Condessa de Hong Kong, primeiro e último filme em cores do grande gênio britânico da comédia – e também o seu canto do cisne – é, infelizmente, o seu pior longa, apesar dos bons momentos isolados que possui. Me dói bastante admitir, mas eis aqui uma obra do cineasta que passaríamos muito bem sem vê-la e que certamente não faz diferença alguma, nem para a história do cinema nem para a carreira do diretor.

A Condessa de Hong Kong (A Countess from Hong Kong) – Reino Unido, 1967
Direção:
Charles Chaplin
Roteiro: Charles Chaplin
Elenco: Marlon Brando, Sophia Loren, Sydney Chaplin, Tippi Hedren, Patrick Cargill, Michael Medwin, Oliver Johnston, John Paul, Angela Scoular, Margaret Rutherford, Peter Bartlett
Duração: 120 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.