Crítica | A Conexão Francesa (2014)

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estrelas 4

Abordando a guerra contra o tráfico de drogas na cidade de Marselha, França, na década de 1970, A Conexão Francesa (2014) traz mais uma versão de uma história real que até hoje não foi totalmente esclarecida e que já teve uma importante representação no cinema, com o filme Operação França (William Friedkin, 1971). Primeiro longa relevante da carreira de Cédric Jimenez, A Conexão Francesa se interessa mais pelo ambiente das negociações criminosas do que pelos personagens ou pela organização jurídico-policial, resultando em um pequeno desequilíbrio que pesa negativamente, mesmo que não a faça o filme perder o seu valor.

Os marcos iniciais para a película são históricos. Primeiro, a “declaração de guerra” do Prefeito de Marselha contra os chefões do tráfico, depois, o seu correspondente [insanamente] mais comprometido com esse combate, o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. A conexão, que saía da costa da França, atravessava o Atlântico e despejava heroína nas ruas do Tio Sam, prova o quão grande e o quão poderoso pode ser o crime organizado. E que ele pode ter representante em todas as esferas da sociedade, tanto do lado dos bandidos quanto do lado dos que supostamente deveriam combatê-los.

A corrupção institucionalizada é um dos temas centrais de A Conexão Francesa e uma de suas melhores camadas. Claro que para levar isso adiante, o roteiro precisou lançar mão de uma narrativa múltipla, às vezes diminuindo o tempo de abordagem para os personagens, mas mesmo assim, seu resultado final acaba sendo positivo. A cena final do filme é quase um simulacro cínico e desprezível do status de corrupção em esferas públicas que tão bem conhecemos hoje. No filme, essa corrupção é diluída e cercada por bastante ação, uma parte dela muito bem dirigida e outra parte desnecessária, às vezes tomando o espaço de cenas com os protagonistas, momentos que nos dariam muito mais informações sobre eles ou nos aproximaria ainda mais da história, já que todo o foco do texto é emotivo e tem a família e o dilema do “mocinho perseguindo bandido”, um drama que sempre gera engajamento do outro lado da tela.

Jean Dujardin vive com grande competência o juiz Pierre Michel, que assume o caso e tem a função de encontrar os tentáculos da conexão e cortá-los, uma tarefa difícil do começo ao fim. Uma das melhores coisas aqui é que não existe o clichê da exposição de um “inimigo interno” desde cedo, de modo que todos lutam contra o crime juntos e parecem estar em gajado na causa. Claro que essa visão fica um pouco genérica do meio para o final da obra, mas inicialmente funciona bem e consegue reservar para depois algumas surpresas desagradáveis para os envolvidos.

Em alguns momentos, nos lembramos de filmes na linha de Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro ou séries como Narcos, que mostram o tráfico não só em seu meio de produção e venda, mas também no mundo que ele é capaz de criar, chegando ao ponto de fazer o Estado e algumas de suas forças trabalharem para manter, esconder ou inocentar essas atividades.

Fora Dujardin, o destaque do elenco vai para Gilles Lellouche, que interpreta Gaetan ‘Tany’ Zampa. Ponderado e vivendo um tipo de “homem de negócios mortal”, o ator não se coloca como o vilão marcado por explosões e tiques estranhos. Sua presença no filme é o oposto da de Dujardin, embora esta seja o tipo de dualidade de personagens em dois extremos, o que acaba tornando os dois bastante parecidos, só que com interesses e motivações em lados opostos.

A Conexão Francesa é um baita filme. Com excelente trilha sonora e desenho de produção que captura bem a atmosfera e cotidiano de ambientes urbanos dos anos 70, a obra diverte pela história bem contada — apesar dos pequenos impasses que citei no início do texto –, mas também faz pensar sobre o seu tema principal, o tráfico de drogas, seu chamado “problema de Estado” e o que ele pode fazer a uma cidade ou nação. Isto, para nós, não é novidade. Basta assistirmos ou lermos sobre a violência urbana nas cidades brasileiras e as garras do não-trato (ou melhor, do trato errado) desse problema são óbvias. O resultado, assim como a grande ironia no fim de A Conexão Francesa, é uma máscara que mantém a estrutura da mesma forma, trocando algumas amenidades à guisa de “políticas de combate”.

A Conexão Francesa (La French) — França, Bélgica, 2014
Direção: Cédric Jimenez
Roteiro: Audrey Diwan, Cédric Jimenez
Elenco: Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Céline Sallette, Mélanie Doutey, Benoît Magimel, Guillaume Gouix, Bruno Todeschini, Féodor Atkine, Moussa Maaskri
Duração: 135 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.