Crítica | A Conquista do Planeta dos Macacos (Marvel Comics – 1976)

estrelas 4

É realmente incrível o que o carinho com o material fonte pode criar. Hoje em dia, a Marvel Comics é pródiga em lançar paupérrimas adaptações de seus próprios filmes, mas, se olharmos para algumas décadas no passado, mais precisamente para os anos 70 e começo dos anos 80, pérolas serão encontradas, com versões em quadrinhos de filmes como 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Indiana Jones, Star Wars e, claro, Planeta dos Macacos. É como remexer em um baú de raridades e sair surpreso pela riqueza do que encontramos lá no fundo.

A franquia Planeta dos Macacos, cujas duas primeiras adaptações para quadrinhos foram, surpreendentemente, como mangá, no Japão, ganhou sua primeira versão ocidental pela saudosa Gold Key Comics e, em seguida, pela Marvel, a primeira editora a  criar histórias originais baseadas nesse rico universo tais como Terror no Planeta dos Macacos e O Reino na Ilha dos Macacos em uma publicação em preto-e-branco em formato de revista comum, contendo, além dos quadrinhos, reportagens e entrevistas relacionadas com a propriedade da Fox. Ao longo de suas 29 edições, que saíram entre 1974 e 1977, todos os cinco filmes clássicos da série foram adaptados em quadrinhos, cada um com seis detalhadas partes. Todas escritas por Doug Moench, que fez um trabalho quase irretocável, chegando ao ápice com Fuga do Planeta dos Macacos, as histórias tiveram o mérito de acrescentar ao material fonte, muitas vezes sendo melhores do que os respectivos filmes.

E esse é o caso com a adaptação de A Conquista do Planeta dos Macacos, penúltimo filme da série.

Castigado por um roteiro que nos obriga a aceitar situações completamente ilógicas, notadamente a praga que dizimou os cachorros e gatos da Terra, fazendo com que os humanos passassem a adotar símios como animais de estimação, a história se passa apenas 20 anos depois dos eventos de Fuga e estabelece que, nesse curtíssimo espaço de tempo, os símios conseguiram desenvolver-se exponencialmente ao ponto de serem facilmente liderados por Caesar, filho de Zira e Cornelius que fora albergado por Armando, o dono de circo que ajudou seus pais. Dado como morto, ele viveu esse tempo todo no circo fingindo ser um chimpanzé normal e sem qualquer conhecimento da situação de escravidão completa a que seus pares foram sujeitos nas cidades grandes.

Nesse cenário, a HQ abre com Armando e Caesar juntos pela primeira vez em uma metrópole, com o símio descobrindo a dura verdade sobre os membros de sua raça que andam acorrentados, fazem trabalhos forçados e são espancados por seus donos. A correlação com a escravidão dos negros que assolou países como os EUA e Brasil é mais do que evidente, algo que é amplificado pelo destaque dado ao Sr. MacDonald, assistente do governador que é um afro-americano e o único que, além de Armando, claro, parece se compadecer da situação inumana dos animais.

Não demora e uma tragédia ocorre, deixando Caesar sozinho no mundo e revoltado com os homens ao ponto de começar a organizar sua revolução. A adaptação, obviamente livre do parco orçamento da produção cinematográfica, cria um cenário muito mais crível e lógico a partir do momento em que o leitor aceita a questão da praga e da evolução dos símios, o que é inevitável, infelizmente. Moench sabe onde focar e expande a narrativa envolvendo o primata e futuro líder dos símios, vagarosamente estabelecendo sua dominância e inteligência. Quando a ação final eclode, existe uma fluidez nos acontecimentos, por mais caóticos que eles sejam, permitindo uma leitura agradável e instigante. Moench mais uma vez consegue aprimorar a obra original, desvencilhando-se de maneirismos de roteiros simplistas que glosam muita coisa.

Apesar de a arte não ter ficado ao encargo de Rico Rival, que realizou provavelmente sua obra-prima na adaptação de Fuga do Planeta dos Macacos, o trabalho de Alfredo Alcala, que já havia trabalhado com Moench no “macacoverso” da Marvel, não fica muito atrás. Seus lápis bem marcados são estupendos nas expressões faciais símias e humanas, além de muito eficientes na ação e no detalhamento dos quadros e das páginas. Há um vigor raro de se ver, como se o artista estivesse desenhando cada página como se fosse a última de sua vida, o que dá gosto apenas de observar a arte esquecendo dos textos por vários momentos.

A Conquista do Planeta dos Macacos é mais um exemplar de um tempo que aparentemente não volta mais, em que adaptações cinematográficas em quadrinhos eram abordadas com seriedade e com um investimento grande em qualidade. Como seria magnífico se a Marvel – ou alguma outra editora – investisse nesse nicho mais uma vez!

A Conquista do Planeta dos Macacos (Conquest of the Planet of the Apes, EUA – 1976)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Alfredo Alcala
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro a junho de 1976 (preto e branco, em Planet of the Apes #17 a #21)
Editora no Brasil: Editora Bloch
Data de publicação no Brasil: 1977 (Planeta dos Macacos #13 a #15)
Páginas: 150

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.