Crítica | A Criatura do Cemitério

Baseado no conto de Stephen King intitulado O Último Turno, de 1978 (no original, Graveyard Shift – não confundir com o livro do mesmo autor com tradução homônima, de 2016), o filme de 1990, primeiro e único crédito de direção de Ralph S. Singleton, esforça-se para adaptar uma breve e rasa aventura de terror de 25 páginas em um longa-metragem. E, ao fazê-lo, comprova ser este um desafio provavelmente ainda maior do que abreviar um romance extenso, como costuma ser o caso quando se trata da obra de King.

A premissa da história é bastante simples: o misterioso itinerante John Hall (David Andrews) chega até uma minúscula cidade no Maine, onde rapidamente encontra emprego no principal negócio do local: uma fábrica têxtil. Sua função: operador do maquinário pesado envolvido na fiação do algodão. O problema é que a fábrica, que opera no que são praticamente as ruínas úmidas de um antigo moinho, encontra-se infestada de ratos. Além disso a má ventilação do local junto ao com o calor gerado pelas máquinas acabam forçando os trabalhadores a realizar o trabalho pesado de madrugada. A este ambiente extremamente inóspito soma-se uma série de mortes de funcionários, aparentemente ligadas a uma criatura que vive junto aos ratos no subterrâneo. Com isso temos o pano de fundo para um terror que, se não é inovador, tem pelo menos potencial para explorar os extremos horripilantes do desconforto, em especial na claustrofobia e no caráter repulsivo do cenário da fábrica.

O conto original de Stephen King segue uma estrutura bastante linear, se apoiando inicialmente no cenário da fábrica e encaminhando-se para a descoberta e confronto com a criatura subterrânea. Assim, em termos de trama, é extremamente básico. Sua tradução para o audiovisual necessitaria não apenas dar conta de “engrossar o caldo” do roteiro, mas também de garantir que a ambientação inóspita da fábrica convencesse e impressionasse suficientemente o espectador, já que presumidamente é o que há de se ganhar aqui pela adaptação (supondo que o conto não tenha sido adquirido na “bacia das almas” visando apenas ganhar uns trocados em cima do nome do autor, como provavelmente fora o caso). Em suma, pode-se dizer que o que acontece é que o filme falha tão espetacularmente no primeiro quesito que os modestos sucessos no segundo vão rapidamente por água abaixo.

A ambientação do filme simplesmente não convence. Logo de cara, tem-se a desconfortável impressão de se tratar de uma produção televisiva das mais baratas. A atuação de praticamente todo o elenco é fraquíssima e apática, puxada pelo carro-chefe do catatônico protagonista. A fotografia paupérrima já se revela logo após a cena de abertura do filme (que, mesmo que falha, consegue manter a esperança do espectador por uns bons três minutos), na sequência de título onde aleatoriamente a câmera passeia demoradamente, sem forma alguma, pela lápides de um cemitério com a primeira faixa de uma trilha sonora embaraçosamente ruim, que por toda película se mantém emoldurando cenas supostamente sérias com músicas que não estariam fora de lugar em uma paródia do gênero.

A claustrofobia da fábrica é mais falada do que sentida, o que é facilmente compreensível pela péssima caracterização e atuação de praticamente todos os personagens. Fazendo frente ao morbidamente entediado Hall, temos um dos elencos de horror B menos inspirados que se pode imaginar — o que deve significar alguma coisa. Do interesse romântico pessimamente explorado em Jane (Kelly Wolf) ao patrãozinho “gente boa” Warwick (Stephen Macht), passando pelos desinteressantes colegas de trabalho Brogan (Vic Polizos) e Danson (Andrew Divoff), os personagens parecem um bando de lunáticos, suas ações e falas explicáveis apenas pelo roteiro e nada mais. A agressividade de Warwick com seus subordinados e dos trabalhadores da fábrica com o recém-chegado não são apenas caricatos, como frequentemente mal entregues em falas desconjuntadas. Não há o menor senso de personalidade, nem mesmo arquetípica, para praticamente nenhum dos personagens. A falta de noção dos diálogos acerta o triste ponto entre o bom e o divertidamente ruim – apenas ruins o suficiente para arruinar a imersão, mas sem necessariamente divertir pela tosquice. A música dos créditos finais, um arranjo de samples de falas do filme sobre uma fraca instrumentação industrial (uma das coisas mais memoráveis da experiência toda) sugere que havia alguma ambição do filme em atingir ao menos o ponto do “ser tão ruim que é bom”, mas isso simplesmente não ocorre (as crianças de hoje bem sabem que fazer algo com a intenção de se tornar um meme automaticamente impede que seja um meme).

Durante toda uma arrastada primeira hora de película, nenhuma subtrama é construída de forma minimamente interessante. A perseguição dos colegas contra Hall ou a relação romântica completamente sem química entre ele e Jane, para citar apenas dois exemplos, aparecem escrachadamente como formas de se “encher linguiça”, não tendo praticamente repercussão alguma no desfecho do filme. Se engana quem no início pensa que o personagem principal passa um ar de mistério e solidão, um andarilho tentando se encontrar, algo como o David Banner da antiga série de TV do Hulk. Toda a aura de mistério, o olhar de foco distante, as poucas palavras não são outra coisa senão a mais pura expressão de tédio. Ao longo do filme, sabemos quatro coisas sobre ele: 1. ele leva uma vida itinerante, pulando de cidade em cidade; 2. ele é viúvo; 3. ele cursou uma faculdade, fato que desperta a ira dos outros habitantes da cidade; 4. ele sempre, sempre carrega consigo um estilingue e uma lata de Pepsi Diet. Todas essas informações são cuidadosamente tecidas de forma que, no desfecho, Hall utiliza-se do estilingue para lançar a lata vazia de Pepsi Diet contra um botão, que liga a máquina que tritura o bicho. É isso. Essa é uma das únicas cenas de protagonismo do personagem que, no restante do filme, apenas reage ao que acontece à sua volta com o uso mínimo possível de energia.

Por sua vez, Warwick parece representar o chefe dos pesadelos mais terríveis de qualquer assalariado. Dizemos “parece” porque a inconsistência de sua apresentação é tamanha que o espectador chega às suas cenas finais (onde ele passa a perseguir nossos “heróis” nos túneis, tomado por um repentino e inexplicável instinto assassino) sem ter a mínima ideia a respeito de suas motivações. Abusivo e grosseiro a ponto de beirar a psicopatia explícita, o personagem é um dos que ganha contornos mais divertidos, em grande parte devido à interpretação de Stephen Macht, cuja absoluta inconsistência de tom e o uso de um sotaque aparentemente criado especialmente para o papel mantém o espectador sempre atento. Porém não se pode nem ao menos dizer que o personagem seja bem aproveitado, uma vez que as subtramas que o envolvem simplesmente não desfrutam em nada. Algumas cenas e linhas de diálogo parecem indicar para a ideia de que ele sabe da existência ou possui alguma ligação com o monstro do subterrâneo, fato que acaba desmentido pelo desfecho da história, onde o personagem recebe uma morte padrão, após um rápido e inexplicado surto de agressividade que infelizmente não empolga.

Falando em empolgação, não podemos encerrar sem citar o verdadeiro herói da trama, o fantástico personagem d’O Exterminador (Brad Dourif). O tresloucado caçador de ratos e ratazanas é uma ilha de personalidade em meio aos manequins sem sal que povoam o filme. Inexistente no conto original de King, sua obstinação em destruir a praga dos ratos é melhor simbolizada na cena onde ele explica longamente o(s) motivo(s) de seu ódio às criaturas, o qual remonta a uma insidiosa traição ocorrida no Vietnã. Esse Exterminador do qual nem sabemos o nome é tão maluco que até mesmo seu adorável cachorro compartilha de seu ódio profundo pelos roedores. Infelizmente nada disso remonta a nenhum tipo de payoff, com o personagem sofrendo uma morte sem sentido em um acidente no cemitério (a única vez em que o tal cemitério, titular na versão nacional e em destaque na cena de abertura, possui alguma significância) antes do desfecho final do filme. Dentre todos os personagens que se poderia ter expectativa de se ver descer às catacumbas, o único minimamente promissor é desperdiçado sem que nem ao menos fique claro se houve alguma ligação do acidente com a criatura. O filme simplesmente passa por cima dessa questão e segue, sem sua verdadeira estrela, rumo ao pálido combate final.

Após descerem uma sucessão aparentemente infinita de porões, John, Kelly, Warwick e os outros funcionários da fábrica finalmente se vêem às voltas com o Rei dos Ratos. Misto de ratazana, morcego e algum tipo terrível de tumor, a criatura impressiona visualmente e funciona bem mecanicamente, dando ao menos algum toque cinematográfico para o ar televisivo da produção. Porém é certo que a sequência não empolga. A total falta de consistência dos personagens faz com que cheguemos neste ponto com a sensação de que poderíamos ter começado aqui logo de cara. Mesmo com alguma inventividade sendo colocada em prática, as cenas de perseguição e as mortes subsequentes são realizadas da forma mais previsível possível. A escolha de iluminação é distrativa, com tons de azul que novamente remetem a coisa toda ao pior estilo de telefilme, ajudando a arruinar qualquer possibilidade de imersão ou construção de tensão.

Seja como adaptação ou como obra por si mesma, trata-se de uma produção notavelmente pouco inspirada. O fato de que o personagem mais interessante de toda produção, o Exterminador, simplesmente não existe no conto original nos dá pistas de que seria possível, afinal de contas, trabalhar sobre a trama rasa inclusive sob a tonalidade trash que o filme parece inclinado a explicitamente abraçar. Já a morte sem sentido do personagem sinaliza, por outro lado, que essa possibilidade simplesmente está além da presente produção, simbolizando como que uma jogada de toalha por parte dos produtores em irem a frente com qualquer possibilidade mais inventiva de adaptação. A morte da criatura, triturada no maquinário da fábrica após o uso perspicaz, por parte de Hall, de seu combo estilingue & Pepsi Diet, faz a coisa toda parecer algum tipo de camapanha publicitária infernal, com nada menos que 89 minutos de duração. Quem se lembra do sabor dos refrigerantes dietéticos por volta de 1990 pode imaginar que existe aí alguma ligação. Ou então, pode ser que a coisa toda foi paga pela concorrente. Em todo caso, A Criatura do Cemitério fica aquém de quaisquer expectativas possíveis.

A Criatura do Cemitério (Graveyard Shift) — EUA, 1990
Direção:
 Ralph S. Singleton
Roteiro: John Esposito (baseado no conto O Último Turno, de Stephen King)
Elenco: David Andrews, Kelly Wolf, Stephen Macht, Andrew Divoff, Vic Polizos, Brad Dourif, Robert Alan Beuth
Duração: 89 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.