Crítica | A Culpa é do Fidel

estrelas 3,5

“A coragem de ser o outro que se é, a de nascer do próprio parto, e de largar no chão o corpo antigo.”

Clarice Lispector em A Legião Estrangeira

A dificuldade de ser filho de grandes diretores da história do cinema é sempre um desafio a ser transposto por jovens cineastas. O domínio masculino ainda existente na direção dos filmes representa um desafio adicional quando se trata de uma mulher por trás das câmeras. Julie Gavras, filha do grego Constantin Costa-Gavras, assumiu corajosamente a tarefa em seu longa-metragem de estreia – A Culpa é do Fidel, de 2006. Assim como Sofia Coppola, filha do eterno Francis Ford Coppola, Julie demonstra talento em sua estreia como diretora de longas-metragens. O tema que escolhe para seu filme tem muito a ver com seu pai e com suas memórias de infância e a obra toda parece, se não um acerto de contas com o passado, ao menos um encontro bastante pessoal com ele.

A personagem Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey em uma das interpretações infantis mais impressionantes a que já assisti) apresenta uma enorme carga autobiográfica. Tal como sua protagonista, Julie Gavras foi filha de um artista de esquerda extremamente engajado (a filmografia de Costa-Gavras reflete bastante isso). Anna, uma menina de nove anos, desfruta de uma vida confortável, brincando em seu imenso jardim e estudando em um colégio católico e conservador. A morte de seu tio Quino, ativista comunista na Espanha, mudará sua vida radicalmente. Seu pai torna-se um esquerdista convicto e segue rumo ao Chile de Salvador Allende. Sua mãe, editora da Marie Claire, abandona a revista e torna-se feminista. Anna é arrastada à revelia por esse turbilhão de mudanças e o filme dá um enfoque interessante no olhar da criança diante do mundo adulto, que vê com estranhamento e incompreensão.

A pequena atriz Nina Kervel-Bey rouba a cena e praticamente carrega o filme nas costas. Se no início da projeção, Anna está muito segura em sua zona de conforto, cortando simetricamente uma laranja enquanto as demais crianças parecem bastante atrapalhadas para fazer o mesmo, logo ela será exposta a uma bipolaridade que a confunde e a transtorna. A mesma metáfora, em sentido contrário, será usada para expor essa mudança, quando os amigos comunistas do pai explicam que alguns querem ficar com a laranja inteira para si, enquanto eles desejam reparti-la em pedaços iguais. A menina passa a viver entre o engajamento à esquerda do pai e da mãe e a postura reacionária dos avós e da empregada, que fugira do regime cubano de Fidel Castro. A câmera quase sempre baixa da francesa Julie Gavras situa todo o processo na perspectiva de Anna.

O que há de mais interessante em A Culpa é do Fidel é o tratamento que o filme dá a um momento histórico conturbado, de profundo acirramento político e eivado de estereótipos de ambos os lados. O filme, a meu ver, não se posiciona nem à direita e nem à esquerda, mas revela, com pitadas de humor muito bem inseridas, como foi a experiência de uma criança nesse momento tão efervescente. O maior mérito do filme de Julie Gavras é mudar as lentes para enxergar de outro modo o mesmo período. Se um lado acusa as “múmias” (os burgueses, na gíria da esquerda chilena) de desejarem egoisticamente ficar com a laranja inteira, às custas da penúria do restante do mundo, o outro não é menos estereotípico ao chamar comunistas de “vermelhos barbudos”, que “desejam tomar nossas terras e nosso dinheiro”. E no meio de tudo isso, surge o pensamento infantil, que revela muito bem a tolice de ambas as posições: “Mas o Papai Noel é vermelho e barbudo!”.

Um ponto central na obra é a posição de Anna frente ao mundo que a cerca. Todos os adultos a tratam como um estranho. Todas as explicações lhe são evitadas ou dadas parcialmente, negando à menina um papel de sujeito diante das mudanças familiares que ocorrem à sua volta. A cena em que seus pais a levam para uma passeata revela não só a irresponsabilidade evidente dos adultos, mas também um completo estado de alheamento às possibilidades e às necessidades de uma garotinha de nove anos de idade. A diretora faz enquadramentos bem fechados nas roupas, mãos e braços dos adultos ao redor da menina, sugerindo o quão sufocante e desconfortável era a sensação da menina ali.

Anna permanece à deriva, tal como as crianças dos contos de A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, personagens sempre à margem de um mundo que não as reconhece. Mas a protagonista de A Culpa é do Fidel reivindica sua posição. Ao final do filme, Anna confronta sua professora dando sua interpretação da história de uma cabra devorada por um lobo ao desobedecer a seu dono. Para a menina, a cabra preferiu uma liberdade arriscada a viver presa. A professora pergunta a Anna se ela acha que a cabra preferiu morrer e afirma que isso seria pecado.  “Animais não são católicos, professora”, responde a menina. Anna, ao contrário dos adultos, não deseja ser isto ou aquilo. Não deseja pertencer a um grupo nem a outro. Anna é exatamente aquilo que o filme revela em sua cena final.

Embora o filme cumpra bem o que pretende, nem tudo funciona tão bem assim. No elenco adulto, há uma série de personagens pouco desenvolvidos, que não conquistam e ficam completamente à sombra da personagem Anna. Mesmo os pais da menina parecem reduzidos e simplificados demais. Vejo uma construção pouco humanizada dos personagens adultos, que mais parecem bandeiras políticas pré-definidas que seres humanos com algum grau de complexidade. Outro problema, a meu ver, é a inserção de temas como feminismo e aborto sem lhes dar nenhum desenvolvimento, ficando um tanto desconexos e sem função no roteiro. Julie Gavras usa esses temas quase como adereços na caracterização de seus personagens, sendo muito rasa para falar de questões tão complicadas, que talvez nem devessem estar no filme. Apesar disso, o balanço geral é bastante interessante e positivo.

A Culpa é do Fidel, mesmo lançado há mais de uma década, é um filme ainda mais atual em nossos dias, em que cresce uma polarização que cria mais adjetivos que argumentos. As “múmias” e os “barbudos vermelhos” hoje assumem outras denominações. Mas permanece a enorme de dificuldade de enxergar o outro em sua humanidade e de notar a necessidade de quem está do nosso lado, morando em nossa casa, como parte do mundo pelo qual se luta.

A Culpa é do Fidel (La Faute à Fidel!) – França / Itália, 2006
Direção: Julie Gavras
Roteiro: Arnaud Cathrine, Domitilla Calamai, Julie Gavras
Elenco: Benjamin Feuillet, Julie Depardieu, Marie Kremer, Martine Chevallier, Nina Kervel-Bey, Olivier Perrier, Stefano Accorsi
Duração: 99 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.