Crítica | A Cultura no Mundo Líquido Moderno, de Zygmunt Bauman

estrelas 5,0

“Enfrentar o status quo exige coragem(…) coragem, porém, é uma qualidade que os intelectuais, antes conhecidos por sua bravura ou por seu destemor simplesmente heroico, perderam nas suas empreitadas em busca de novos papéis e novos ‘nichos’ como especialistas, gurus acadêmicos e celebridades midiáticas”

Bauman é um autor da moda, principalmente no Brasil. Facilmente a liquidez da modernidade tornou-se um conceito espalhado em salas acadêmicas, discursos político-sociais e até em conversas de bar. Cunhado pelo sociólogo polonês, que vem tendo suas obras cada vez mais publicadas e lidas em terras brasileiras, a pós-modernidade, ou modernidade líquida, é avaliada em seus diversos aspectos em cada de seus títulos. Do medo ao amor, da confiança à ambivalência, Bauman se estende no debate do crescimento do consumismo e das rasas relações individuais tão presentes e acentuados a partir de metade do século XX. Na presente obra, o objeto de análise é a cultura.

O livro, lançado em 2011, vem depois das principais obras de Bauman já conhecidas há quase vinte anos e funciona como uma espécie de recorte da abordagem sólida sobre a liquidez que o sociólogo sempre fez. Antes de focar na relação entre cultura e mundo globalizado, tendo a Europa como principal norte dos acontecimentos, o pensador apresenta um complexo conceito de cultura e não esquece de laçar utopia, moda e identidade líquida no arcabouço que o próprio termo “cultura” guarda historicamente. Como uma espécie de genealogista, Bauman rapidamente identifica a cultura, em um primeiro momento, com um projeto iluminista a ser inaugurado e levantado como bandeira no século XVIII. Deste ponto, duas transições surgirão nos séculos seguintes, com a cultura adotando um caráter homeostático, segundo as palavras do autor, e, nos tempos modernos criticados, possuindo um caráter adaptável, ajustável à liberdade de escolha, o que vira um problema quando a liquidez da modernidade consiste justamente em uma substituição obsessiva de padrões, sem visar qualquer tipo de forma sólida, de princípio que valha por muito tempo. O objetivo da mudança não seria mais um fim melhor, um progresso, mas a própria mudança, como um ciclo vicioso contra qualquer tipo de paradigma.

Com linguagem acessível e uma antenada base filosófica, citando desde compatriotas como o dramaturgo Slawomir Mrozek até Milan Kundera, outro escritor da moda, Bauman não mede palavras para identificar essa cultura, eternamente acomodada em qualquer ambiente, com uma caça a si mesmo. Uma caça interminável, porém, pois com seu fim, a incerteza e a infelicidade da dúvida cairia como um peso nas costas deste homem de cultura de hoje. É nesse cenário que Bauman identifica a utopia dos tempos modernos: uma aventura sem fim ausente de medo, de obstáculo, de preconceitos, de convicções e contrapontos. Numa sociedade de caçadores, a expectativa do fim da caçada não é sedutora, mas aterrorizante, afirma o autor.

Uma utopia sem sentido, inexistencial, no sentido filosófico e com o perdão do neologismo, não é difícil de identificar. O modo perpétuo da moda é um exemplo claro que o escritor cita como motor de uma revolução permanente que tem como principal objetivo fixar essa impermanência de padrão. É paradoxal e pode até provocar risos, mas é motivo de lamento. Peço licença para tentar trazer isso para uma realidade mais palpável. Bauman diz que a lógica da moda está presente na cultura. Hoje, a cultura pop tornou-se, talvez, o principal produto de criadores de conteúdo na internet. A análise do impacto ou das obras que fundamentam esse mundo não são necessariamente o ponto principal, posto que viver parasitariamente de notícias, especulações, fofocas, indicações e coisas do gênero basta. E por que? Porque o foco tornou-se não o produto em si, mas a mudança e o descarte. Cada episódio vivenciado deve ser o início do próximo a ir para as telonas. Temporadas são esquecidas, obras não são revisitadas e o importante é prosseguir, sem parar e sem chegar ao fim. A preocupação do público reside no próximo, não no atual.

Use o modelo de mídia que quiser e o produto blockbuster que preferir. Bauman toca em um ponto crucial da movimentação de mercados e indústrias que se baseiam na área da cultura e que criam um autoconceito de arauto da liberdade de escolha e do multiculturalismo, o mesmo duramente criticado no terceiro capítulo da obra em questão. Em “Cultura: da construção da nação ao mundo globalizado”, segue-se a crítica da pobreza material do debate cultural que se esconde no brado que encerra qualquer promessa de troca de ideias: gosto não se discute. Citando Richard Rorty e trazendo à tona a culpa no cartório de uma esquerda cultural – simbolizada pela elite intelectual contemporânea representada por líderes e educadores em geral – Bauman destaca que tal atitude, corroborada nos tempos atuais em que culturas opostas estão na casa ao lado, são justamente o que prejudicam qualquer busca séria de solução de conflitos típicos do multiculturalismo que vão além de assuntos pueris. Aceitar as tradições por aceitar é como fechar qualquer diálogo e ser indiferente à diferença, usando os termos do autor. “Diversidade cultural”, “pluralismo cultural”, “tolerância liberal” na visão do sociólogo colocam em um pedestal inalcançável pela consciência moral a desigualdade humana e a diversidade cultural. O multiculturalismo ganhou o manto do politicamente correto e o viés político, pode-se dizer, ditatorial, ainda que veladamente.

Com um estilo quase circular, Bauman retoma os pontos iniciais nos capítulos finais, mas consegue trazer novos insights e se auxilia com citações precisas, como a de Peter Drucker, um dos maiores administrativistas modernos, para provar seus pontos. Em uma justa analogia, Drucker compara a sociedade de hoje com o Deus do fim da Idade Média. Indiferente ao bem e ao mal, maleável e inconfiável. Pode-se interpretar toda a obra de Bauman até aqui como uma espécie de pessimismo exagerado, como uma ode à intolerância frente às diferenças culturais, ou como um saudosismo dos tempos iluministas que acreditavam na razão e na sociedade humana como salvadores do caos que a vida humana é. Isso seria, evidentemente, uma leitura pobre, além de se configurar uma desonestidade intelectual das mais graves, uma que muitos intelectuais, segundo Charles Taylor, outro autor trazido pelo escritor polonês, não se incomodariam. Alerta Taylor: O verdadeiro respeito à igualdade (…) impõe avaliações verdadeiras, de igual valor, aplicadas aos costumes e criações dessas diferentes culturas. Assim, a demanda por igual reconhecimento é inaceitável.

Bauman se preocupa em não focar sua crítica apenas na parte intelectual da sociedade, já que a modernidade líquida também é claro produto da oferta e procura que molda as bolsas de valores e os mercados financeiros. A crítica ao sistema capitalista pode soar como lugar comum, assim como a crença nos direitos humanos como solucionadores de muitos problemas de intolerância, baseados em um esforço conjunto. Nesse sentido, é possível ver um esforço do escritor para sair deste setor politicamente correto – o mesmo que obscurece a discussão exposta nos parágrafos acima – e da armadilha do relativismo ao procurar a diferença que faz a diferença. A discussão é complexa, envolve discriminação, isonomia e inúmeros outros pontos, mas o papel do polonês é claro: provocar.

A cultura no mundo liquido moderno é um livrinho precioso que põe o dedo na ferida e abre o complicado conceito de cultura para diversas vertentes da sociedade extremamente úteis em discussões atualíssimas, que vão desde a ida dos refugiados à Europa até a discussão política das eleições americanas. Bauman constitui um forte alicerce teórico e provoca, como todo bom pensador, um diálogo múltiplo envolvendo instâncias como Estado, a elite educadora e os trabalhos culturais, mas trazendo para o cotidiano prático a problemática que conceitos, por vezes abstratos nas mãos de alguns intelectuais, causam. Tendo como intuito, nos capítulos finais, situar a luta por reconhecimento das diferenças na temática da justiça social e não da autodeterminação cultural, Bauman aborda que a indeterminação e a incompletude das obras de arte contemporâneas, inseguras quanto ao seu potencial, suscita o papel do Estado em relação à consumidores e produtores e no encontro entre ambos – uma discussão longa que não cabe aqui. O importante é notar que se tratam de sintomas possíveis de serem vistos em inúmeros lançamentos em cada aba deste site e de tantos outros. A diferença, talvez, seja a convicção em classificar uma obra como bem ou malsucedida: o critério ou passa pelas estatísticas de venda, a frequência de visitas e a inclusão do gosto na máxima “política, religião e futebol não se discute” – ou pior, igualar tudo na mediocridade pensando que se faz um bem em abraçar todo e qualquer produto – ou passa pela estudo e análise da riqueza e pobreza do conteúdo que diferencia a cultura e a hierarquiza, naturalmente, por mais que isso provoque calafrios em quem prega a diversidade da boca para fora.

Não é tanto o confronto de um gosto (refinado) contra outro (vulgar), mas do onívoro contra o unívoro, da disposição para consumir tudo contra a seletividade excessiva. A elite cultural está viva e alerta, é mais ativa e ávida do que jamais foi.

A Cultura no Mundo Líquido Moderno, Polônia – 2011
Autor: Zygmunt Bauman
Editora no Brasil: Jorge Zahar
Tradução: Carlos Alberto Medeiros
Páginas: 112

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.