Crítica | A Cura (1997)

Observe a proposta: em A Cura, o detetive Tabake (Koju Yakusho) investiga uma onda de crimes cometidos por pessoas diferentes, mas com modo operacional dentro de um mesmo esquema. As vítimas aparecem sempre com um X cortado na garganta. Quem estaria por detrás dos crimes? É o que Tabake terá que descobrir. Ele é um homem que além de ter que lidar com as tarefas policiais, ainda precisa cuidar da esposa com amnésia. Observou? Parece mais um filme de investigação policial com toques sobrenaturais, concorda?

Pois bem. Sob a direção de Kiyoshi Kurosawa, também responsável pelo roteiro, A Cura não se prende no tom exclusivamente policialesco. A investigação é apenas uma via para nos guiar aos temas que pretende refletir em sua concepção filosófica fílmica, erguidos por uma narrativa visualmente crua e incomum, repleta de alegorias e metáforas. Com um eficiente plot twist em seu desfecho, a produção segue o passo e nos faz mergulhar numa atmosfera angustiante, semelhante ao conceito de arte abstrata, sem interesse em explicar/conceituar cada fotograma de filme.

As coisas são expostas, uma após a outra, sem concatenação tradicional, nos fazendo experimentar um estilo narrativo que saia das estruturas canonizadas. Como entretenimento pode não ter tanto impacto, principalmente se você for consumidor exclusivo da dieta hollywoodiana, mas é uma narrativa que não te deixa indiferente. Ao adentrar no sobrenatural, em especial, nas questões ligadas ao esquema de possessão, esquema Pazuzu, Leviatã, Lilith ou qualquer outro membro das legiões demoníacas ocidentais.

Desta vez, estamos diante da “hipnose” de um jovem chamado Maniya (Masato Hogiwara), veículo para um ser de natureza extremamente complexa que alegoricamente falando, libera a mente das pessoas que passam por seu “ritual”, liberando-as do maniqueísmo acerca do que é certo ou errado. É como se nos assassinatos, uma terceira pessoa estivesse envolvida. A ideia geral dialoga muito, em meu ponto de vista, com as concepções freudianas sobre a mente humana, pois o filme reforça que a nossa mente possui uma base para instintos reprimidos socialmente.

Seria o “mal-estar da civilização”? Conforme a narrativa avança, percebemos que gravita em torno dos conflitos narrativos a ideia de que basta apenas um “empurrão” no momento certo para que as pessoas exerçam as artimanhas que a mente reprime e tenta se esquivar. Parece coisa da gramática gerativa, isto é, o input está lá aguardando apenas ser manipulado para exercer as suas funções comunicativas.

A Cura lembra a trajetória de Denzel Washington em Possuídos, de 1998. Desde os primeiros passos do protagonista numa cena na praia, logo na abertura, o som, setor gerenciado por Gary Ashiya, nos emite a ideia de que há algo errado na trajetória “daquela” criatura que vai precisar lidar com questões insólitas durante uma investigação que tinha tudo para seguir os padrões narrativos hollywoodianos, mas investe noutro tipo de perspectiva, puramente filosófica, preenchendo a história de complexidade, algo que pode não ser de fácil digestão para qualquer público.

A direção de fotografia de Tokesho Kikumura faz bastante uso de filtros, com reforço no cinza como cor central da narrativa. Os tons são opacos, a câmera constantemente nos apresenta quadros abertos, somados ao conjunto de situações aparentemente desconexas, justapostos pela edição de Kan Suzuki. Eficiente também é o design de produção de Tomoyuki Maruo, certeiro na concepção visual dos espaços captados pelo olhar da direção.

De volta aos meandros da condução sonora, Gary Ashiya faz bem o seu trabalho se juntar com o diretor para saber a hora certa de empregar os sons artificiais para fins narrativos, bem como a apreciação de arroubos silenciosos diante da contemplação das questões do roteiro de Kurosawa, responsável por nos bifurcar por uma tortuosa via de incertezas, afinal, nada é o que parece ser e a obviedade é uma palavra que passa longe da caracterização deste filme.

Tudo isso não significa, entretanto, que seja um filme impecável. A ausência de um ritmo mais balanceado, mesmo para uma produção etiquetada como “filme para sala de arte”, nos promove um leve desânimo entre um longo ato e outro, mas nada que não possa ser parte da tarefa de um cinéfilo compenetrado e ciente de que há ficção e entretenimento além das colinas hollywoodianas. É a possessão sobrenatural que vai além do ciclo cristão de entidades perturbadoras.

A Cura — (Cure) Japão, 1997.
Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa
Elenco: Kôki Yakusho, Masato Hagwara, Tsuyoshi Ujiki, Anna Nakagawa, Yusijirô Hotaru, Denden, Masahiro Toda, Misayo Haruki, Shun Nakayama
Duração: 111 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.