Crítica | A Cura

estrelas 4,5

  • Recomendo fortemente que veja o filme antes de ler a crítica.

Gore Verbinski é um diretor de altos e baixos. Ele já nos trouxe os ótimos O ChamadoRango, o bom Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra e alguns de qualidade duvidosa como as duas sequências estrelando Jack Sparrow e O Cavaleiro SolitárioDito isso, o anúncio de A Cura ainda conseguiu nos trazer esperanças, com o diretor voltando para o gênero que se saíra tão bem no passado. Ao mesmo tempo, estamos em uma época complicada para o cinema de terror, com poucas obras conseguindo, de fato, chamar nossa atenção, ao ponto que podemos contar nos dedos as realmente boas lançadas nos últimos anos.

Mas o que torna A Cura algo diferente do restante das produções atuais do gênero é justamente aquilo que fez de O Chamado tão especial. Verbinski abandona a linguagem clássica desse tipo de obra e nos entrega planos ora contemplativos, ora que colocam nossas expectativas e percepção em xeque. Com seu grandes planos abertos, marcados pela profundidade de campo, é criada uma atmosfera de solitude e solidão, em momentos somos tomados por uma paz, enquanto que em outros nos pegamos desconfortáveis na cadeira do cinema, aflitos com a situação do protagonista, Lockhart (Dane DeHaan).

Esse é um empresário de Wall Street que viaja para os Alpes Suíços a fim de trazer de volta o CEO de sua empresa, que, aparentemente, ficara louco e se internara em uma clínica que promete trazer a cura para o que aflige a humanidade moderna. Ao chegar lá ele se depara com um castelo misterioso, uma instituição comandada pelo dr. Volmer (Jason Isaacs). Desde cedo Lockhart começa a enxergar algumas irregularidades no local, coisas suspeitas e começa a duvidar de sua própria sanidade.

O que Verbinski faz aqui é uma amálgama que evidentemente busca homenagear os clássicos filmes de terror góticos, além de outras obras cinematográficas. A premissa do longa-metragem é nitidamente tirado de Drácula, com Lockhart tomando o lugar de Jonathan Harker – ambos viajam para o leste da Europa para um castelo a fim de fechar algum negócio, são recebidos por figuras misteriosas e antes que se darem conta, se veem presos no local. Os paralelos com o livro de Bram Stoker não param por aí, mesmo a jornada de trem até lá soa como o que vimos no clássico filme de Coppola, isso, sem falar, é claro, nas próprias ações de Volmer.

O longa, então, passa a adotar elementos de outras obras, que vão desde Laranja Mecânica, passando por Um Estranho no Ninho até A Ilha do Medo, construindo uma narrativa angustiante que abandona a contemplação presente nos trechos iniciais a favor de uma espiral de tensão que bebe de fontes surrealistas como EraserheadViagens Alucinantes. Assim como o protagonista nos vemos perdidos dentro desses estranhos acontecimentos e isso de forma alguma é um elemento negativo da obra, que consegue nos prender, forçando-nos a pensar.

Dessa forma, fica fácil enxergar que A Cura não é um terror de sustos, o filme explora o suspense psicológico de maneira inquietante, lentamente nos oferecendo informações que alteram a realidade daquilo que vemos em tela. Passamos a questionar tudo e todos e aquela solidão mencionada no início do texto se forma por completo, ao ponto que nos vemos tão sozinhos quanto o próprio protagonista. A reflexão sobre o externo passa para o interno, foco da obra já denotada desde o início através de uma única fala que nos diz que o ser humano é o único animal capaz de auto-reflexão.

Verbinski ainda brinca com essa questão ao longo de todo o longa-metragem, utilizando a água, tão importante dentro da construção narrativa, como espelho. São criados planos cuidadosamente simétricos perfeitamente representando o que há dentro e o que há fora de cada pessoa. Dessa maneira, o diretor insere em nossa mente a velha máxima de que nem tudo é o que parece.

Há um aspecto considerável da obra, porém, que pode prejudicar a sua fluidez. O terço final acaba caindo em uma infindável repetitividade, nos oferecendo inúmeros falsos finais que fragmentam a estrutura narrativa. Confesso que, ao sair da sala do cinema, não sabia exatamente o quanto isso afetava a projeção como um todo, mas agora posso afirmar que o longa definitivamente não é estragado por esse fator, tamanha é a proporção dos acertos até então.

Dentre esses acertos precisamos, evidentemente, destacar a trilha de Benjamin Wallfisch, que desde cedo imprime um ar de mistério à história. Mais que isso, ele foge do clássico silêncio dos filmes de terror e aproveita do teor contemplativo do que vemos em tela, sabendo acompanhar as inúmeras referências inseridas em tela. Há um ar de melancolia em suas notas, que assume um toque de ancestralidade quando os instrumentos de corda e sopro tomam conta do espaço sonoro, evidenciando ao máximo o elemento gótico da obra.

Com isso em mente não há como não identificar as inúmeras fontes das quais Gore Verbinski bebe para realizar esse seu longa-metragem: Drácula, Frankenstein, O Fantasma da Ópera, dentre dezenas de outras, que se misturam e formam uma amálgama tão desconcertantemente orgânica que consegue nos cativar de imediato. Melhorando a linguagem que utilizara em O Chamado, o diretor consegue trazer seu melhor filme até então, uma obra com identidade própria, que pode não agradar a todos, mas que com certeza representa mais um ponto alto em sua carreira.

A Cura (A Cure for Wellness) — EUA/ Alemanha, 2016
Direção:
Gore Verbinski
Roteiro: Justin Haythe
Elenco: Dane DeHaan, Jason Isaacs, Mia Goth, Ivo Nandi, Adrian Schiller, Celia Imrie, Harry Groener
Duração: 146 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.