Crítica | A Dama de Ferro

Uma “febre britânica” parece dominar a ala das biografias no cinema atual. Iniciada em 2010 com O Discurso do Rei, a tendência passou por Madonna em W.E. (2011), por Roland Emmerich em Anônimo (2011), e chegou a Phyllida Lloyd, diretora que estreou no cinema com o musical Mamma Mia! (2008), e mais recentemente assinou o filme que deu a 17ª indicação ao Oscar à atriz Meryl Streep, que brilha como Margaret Thatcher em A Dama de Ferro (2011).

O filme foi mal recebido no Reino Unido, principalmente pela escolha de uma atriz estadunidense no papel principal; e a crítica não se entusiasmou muito com o projeto, talvez porque tenha concebido o filme como uma obra política mal intencionada. Todavia, A Dama de Ferro é um amálgama estranho entre o biográfico e o político, primando mais pelo primeiro ponto, e tentando, sem nenhum sucesso, amenizar a carga negativa que acompanha o segundo. Se a Thatcher de A Dama de Ferro foi concebida como uma senhora louca, frágil e perturbada pelas suas memórias, sua trajetória política dissipa toda e qualquer piedade que o espectador possa nutrir sobre ela.

O roteiro de Abi Morgan (roteirista de sólida carreira na televisão) é incompetente nesse sentido, o de tentar fazer um filme menos político e mais biográfico, mas não conseguir aplacar o tipo de estadista que realmente foi a biografada. Por outro lado, essa incapacidade pode ser vista como uma benção pelos espectadores mais politizados, uma vez que fagulhas da verdadeira Dama de Ferro chispam na tela através de manifestações reprimidas durante os seus 11 anos de governo (1979 – 1990), discursos odiosos, postura política irredutível, desprezo à população pobre, operários e grevistas… Se a intenção era defender, diminuir a culpa, apagar ou “adocicar” a estruturação do neoliberalismo thatcherista, tudo não passou de intenção, porque o filme “mostra algo a mais do que deveria”, mesmo sem querer. Um pouco menos polêmicas que as discussões em torno de A Queda! – As Últimas Horas de Hitler (2004), mas mesmo assim, muito fortes, as hordas de desafeto ao filme usam de argumentos pouco políticos e muito pessoais para acusá-lo.

Jogo de Damas

Para um bom observador, não há como não rir do insucesso do roteiro em retratar uma “Thatcher boa” e não há como não aplaudir de pé a estupenda interpretação de Meryl Streep, numa das melhores composições psicológicas e físicas – ajudada pela maravilhosa equipe de maquiagem – de uma personagem histórica. O sotaque, a alteração no tom de voz, os maneirismos e crescente degradação física e doentia da Dama de Ferro são transmitidos com tanta veracidade e força pela Dama do Oscar, que é perfeitamente compreensível o favoritismo da atriz na premiação, seja pela Academia, seja pelo público. O trabalho de Meryl Streep supera, e muito, o trabalho de sua concorrente em potencial, a também ótima Viola Davis. O páreo é duro, e curiosamente, ambas as atrizes representam mulheres que fizeram a diferença em seu mundo, personalidades fortes, lutadoras, mas em realidades históricas e pessoais opostas.

No campo da representação biográfica, o filme tem melhor figura, e a história é mais crível, mais fácil de entreter o público. O problema é que o roteiro caminha alternando o passado e o presente da Dama de Ferro, o que torna o produto cansativo em seu resultado final. No caminho oposto, a produção técnica é muito competente, e demonstra através de uma fotografia verde bolorenta o presente da estadista, em contraste com a saturada fotografia dos flashbacks, incluindo a preferência do azul para os figurinos. O filme não chega a ser óbvio demais em seus intentos dramáticos – não tanto quanto O Discurso do Rei – embora seja, na soma de todas as partes, bem inferior.

Num momento em que o Reino Unido perde status econômico para um país como o Brasil, e se vê ilhado, vivendo do Jubileu da Rainha, do treinamento militar do Príncipe William nas Malvinas – o que provocou a ira da presidente da Argentina, que considerou a medida como militarização do Atlântico Sul, atitude passível de ser reclamada à ONU –, um filme sobre a venerada e forte líder do país chega a ser um sintoma de seu tempo. A Dama de Ferro é uma quase cinebiografia que agrada, mas nem tanto; é um filme de teor político duvidoso, quase um tiro no pé; é um confuso retrato de uma época muito clara para todos nós. Nenhuma produção artística é fruto avulso de seu tempo histórico. A Dama de Ferro é um grito cultural por atenção política, por discussão sobre temas velhos sob ângulos novos. Essa ressurreição só pode culminar em um produto que deve ser visto, mas com cautela, porque seus efeitos colaterais podem atingir aquele ponto que não digere bem ideologia, e o resultado disso não é nada bom. A História está aí para provar.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.