Crítica | A Dama e o Vagabundo

Descontando a nostalgia, pode-se dizer que as grandes animações da Disney são capazes de cativar o espectador no mínimo de duas maneiras diferentes. O mesmo filme que encantou a criança recebe um novo significado quando revisitado pelo adulto, e a universalidade destas obras como primorosos exemplos de arte “para a família” (leia-se: para todas as faixas etárias) deve-se em parte a essa riqueza de sentidos. Talvez de forma ainda mais marcada do que em Alice no País das Maravilhas Peter Pan, a multiplicidade temática de A Dama e o Vagabundo exemplifica muito bem essa característica.

Se o título sugestivo e a icônica cena do prato de espaguete nos remetem imediatamente ao romance entre opostos que certamente está no cerne da trama, um exame mais minucioso do roteiro nos revela uma leitura possível de que o novelesco amor canino aparece aqui em serviço de uma temática maior à qual é subjacente. A Dama e o Vagabundo é, antes de tudo, um filme sobre lar e identidade. Tema abstrato até para os adultos, que dirá para as crianças. Mas muito bem executado aqui, cativando o espectador não apenas pelos cachorros falantes magistralmente bem animados mas pela belíssima narrativa visual, trilha sonora precisa e direção muito bem afinada ao roteiro.

Não é para menos, já que a obra é mais um resultado do rigorosíssimo crivo de qualidade pessoal de Walt Disney, o que explica seu ciclo de desenvolvimento de mais de 15 anos. Nascida de um esboço inicial de Joe Grant, a produção inicialmente traria o cotidiano da adorável cadelinha Lili, uma cocker spaniel paparicada pelos donos que de repente tem de lidar com os ciúmes relativos à chegada de um bebê na família. Embora tenha sido a introdução do cão de rua Vagabundo (baseado em um conto de Ward Greene) e a consecutiva subtrama romântica o que salvaram o projeto do arquivamento, a marca dessa premissa inicial se manteve bastante presente no filme – não apenas pela conservação de toda a subtrama do bebê, mas especialmente em torno do estilo de narrativa: caseiro, prosaico e “realístico”. Deixamos os sonhos e os contos de fada de lado, em favor do trivial e do cotidiano.

Animais falantes? É claro – o que seria um clássico animado Disney sem qualquer toque de magia que o fosse? Porém distanciando-se das tramas fantásticas que se tornaram marca do estúdio, a narrativa opta aqui por uma atmosfera mágica mais contemplativa e intimista. Não deve ser apenas coincidência que Walt Disney tenha alternado seu tempo entre o trabalho na produção deste filme e a criação de seu ambicioso parque temático Disneyland. Ambos têm em comum essa mistificação das cidades pequenas norte-americanas nas primeiras décadas do século XX, onde o estilo de vida ruralizado começava a contracenar com a crescente urbanização. Os subúrbios onde vivem Lili, Joca e Fiel trazem muito dessa atmosfera idílica, tanto nas ruas como no interior da casa de Jim. Se na época o filme era um olhar saudosista dos anos 1950 sobre o início do século XX e as maravilhas do mundo vitoriano prestes a se transformar sem volta, hoje podemos vê-lo como uma recriação do ideal retro-futurista por detrás da mesma visão que orientou a construção da primeira Disneyland.

A espreguiçada mais satisfatória da história do cinema.

O foco na perspectiva dos cães é astutamente utilizado para nos dar um ponto de vista ainda mais naturalista dos cenários em questão. Neste sentido é que a oposição entre a Dama e o Vagabundo acaba não entrando muito pela sugestível via da sátira social, ainda que esta apareça em alguns momentos pontuais. Isso porque os pormenores da diferença entre classes envolvidas na trama são experienciados sob essa perspectiva da espectação, dos animais que se preocupam mais com o imediato do que com o como ou porquê das coisas – e nisso o uso dos bichos antropomorfizados acaba sendo muito bem justificado. A contemplação dessas paisagens se dá tanto através dos belíssimos desenhos de backgrounds riquíssimos em detalhes quanto pela trilha sonora bucólica – a canção principal “Bella Notte” praticamente nos soletra o tema de forma mais que eficiente e dá o tom de todo o longa.

Assim, a oposição entre a Dama e o Vagabundo é antes de tudo a oposição entre dois estilos de vida diferentes, explorada em uma história de amadurecimento de Lili. A chegada do bebê acaba sendo o disparador para uma série de eventos através dos quais a paparicada Dama acaba descobrindo que existe um mundo muito maior do que o de seu quintal – para o bem, e para o mal. O filme evita quaisquer maniqueísmos e não idealiza nenhum dos dois polos como o certo por si só: nem a liberdade criativa do Vagabundo, nem o conforto individualista da Dama. Os becos escuros e amontoados urbanos são explorados sob a mesma atmosfera contemplativa designada aos subúrbios, e tanto a libertinagem do cão de rua quanto as mesquinharias da alta sociedade de onde provém a Dama são alvo de piadas.

A animação consegue assim o feito notável de apresentar um romantismo inocente e puro, lado a lado com toques inesperados de realidade o suficiente para emprestar um peso narrativo para a história. Assim é que, dando sequência à icônica cena do prato de espaguete, temos uma cuidadosa exploração da sexualidade que começa no amor romântico e termina na sequência inusitada em que Joca e Fiel se oferecem para ajudar Lili, que se encontra abatida, na forma de um matrimônio com algum dos dois – escapando assim de ser uma uma mãe solteira, algo que certamente não seria bem visto para os padrões da vizinhança em questão. A temática é explorada de forma indireta e sutil o suficiente para dar contornos leves a um assunto tão delicado quanto uma gravidez indesejada. A linguagem utilizada intera a criança o suficiente para que entenda a reação de Lili ao ouvir sobre o real caráter do Vagabundo, sem que seja necessário compreender necessariamente que ela esteja grávida – traços de uma produção cuidadosa que consegue assim adaptar temas pesados para um formato adequado para todas as idades, de forma semelhante ao que fazem Bambi, O Cão e a Raposa O Rei Leão, por exemplo.

Nesse sentido também é que eu digo que o filme, além de ser um romance e explorar as temáticas conhecidas do primeiro amor ou do romance entre tipos opostos, acaba sendo uma trama a respeito do lar. Menos do que as suas personalidades, o que opõe os protagonistas são suas respectivas moradas, as quais nenhum dos dois escolheu mas que carregam como identidade. É interessante nesse sentido o jogo que o enredo faz com os nomes dos personagens. Assim como os donos de Lili são conhecidos como Jim Querido e Querida, pelo ponto de vista da cadela que os ouve conversar sempre em casa com seus apelidos de casal, os protagonistas também recebem diversos nomes de acordo com a situação. Assim como Lili é uma Dama no sentido em ser uma mascote mimada e prover de uma casa na alta sociedade, temos a sequência em que o Vagabundo apresenta as diferentes casas que visita ao longo da semana – onde em cada uma delas recebe um nome diferente, como ocorre de fato com cães de rua.

Dizendo muito com pouco: cena rápida que mal possui animação, mas impressiona.

Lili se apavora com a perspectiva de perder sua casa, medo que é alimentado pelo Vagabundo, que provavelmente passou por uma situação semelhante e agora desdenha das necessidades de controle e mesquinharia advindos do que chama de uma vida na coleira. “Uma tampa para cada lata, uma cerca em volta de cada árvore”, conforme descreve o libertino cão de rua. O extremo da hipocrisia da coleira se dá com o canil. Enquanto que é comum termos a famosa carrocinha aparecendo nas animações com animais como um perigo a ser evitado a todo custo, o filme aqui toma um passo além e mostra o que ocorre após a captura. Numa sequência bem realizada, a animação utiliza-se de um jogo de sombras para mostrar a ida de um dos cãezinhos para a “porta sem volta” do abate. O extremo do inabitável, o canil representa a ausência total de lar – da qual Lili acaba salva pela coleira. A identidade é prerrogativa para o lar, mas como ter um lar se não se tem identidade? É claro que o filme não propõe nenhuma resposta a essa questão (se é que sequer as pergunta dessa forma) mas atesta ao favor de sua narrativa que sejamos levados a pensar sobre isso, quando nos propomos a ver uma animação sobre cãezinhos adoráveis dividindo espaguete.

A animação também se destaca pelo uso otimizado de seu tempo de duração, mais uma vez trazendo o estilo sucinto e sem excessos que marcou essa retomada de fôlego do estúdio nos anos 1950. Com pouco mais de uma hora de duração, a edição é cuidadosa ao ponto em que temos a impressão que não há um frame sequer que não esteja ali por um motivo. Mesmo as sequências musicais são breves, encaixando-se na narrativa de maneira fluída. Um dos únicos pontos em que temos a impressão de um corte mais abrupto é justamente na sequência final, com Joca e Fiel correndo ao resgate de Vagabundo após ele ser capturado pela carrocinha. Tendo já estabelecido muito bem os horrores que o aguardam no canil, a cena constrói tensão com música e visuais sombrios que culminam no atropelamento de Fiel.

Absolutamente chocante para mim quando criança, a cena aparentemente fora cogitada inicialmente como a morte do personagem, que no entanto acabou sendo riscada em favor de um final mais feliz, onde o farejador sem faro aparece apenas com uma patinha quebrada. Tivessem seguido com a ideia inicial, Fiel provavelmente entraria junto à mãe de Bambi e ao Mufasa para a galeria das grandes tristezas infantis advindas do castelo do camundongo. Com a cena de Joca chorando pelo companheiro dando lugar a um epílogo onde vemos os filhotes da Dama já nascidos e saudáveis e um Vagabundo já adotado pelo casal Querido, a sequência final causa alguma estranheza.

Ainda que aliviante, a chegada de Fiel e Joca numa boa acaba soando estranha mesmo para o espectador infantil, uma vez que a cena anterior não tem necessariamente um sentido de desfecho, por mais heróica que a intenção dos amigos da Dama fosse. Quando criança, pensava ser um final anti-climático (conhecido como “chato” nessa época da vida). Hoje, me parece uma boa conclusão para um filme que não tenta construir antagonistas ou vilões propriamente ditos, mas focar no cotidiano e nas diferenças e desenvolvimento de seus carismáticos personagens caninos.

A Dama e o Vagabundo não viaja por mundos fantásticos como seus vizinhos de lançamento Peter Pan A Bela Adormecida, trocando a aventura pelo caseiro, o épico pelo trivial. O que não significa, no entanto, que o filme não tenha magia – ela surge justamente ali, na apreciação da vida cotidiana e dos temas inesperados que podem aparecer a partir da perspectiva canina de seus adoráveis protagonistas. Compensando a simplicidade do enredo com um elenco carismático animado ao nível da perfeição, o filme é certo de encantar o público de diversas idades. Vale a revisitação, para quem se lembra apenas do espaguete. Mas quem não lembraria, afinal de contas?

A Dama e o Vagabundo (Lady and The Tramp, EUA – 1955)
Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson, Hamilton Luske
Roteiro: Ward Greene, Joe Grant, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Ralph Wright, Don DaGradi
Elenco (vozes originais): Peggy Lee, Larry Roberts, Bill Baucom, Verna Felton, George Givot, Stan Freberg, Lee Millar, Barbara Luddy, Bill Thompson, Dal McKennon
Duração: 76 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.