Crítica | A Dama Oculta (1938)

estrelas 4

Hitchcock já era um nome conhecido e popular na Inglaterra, quando foi lançado este A Dama Oculta, após uma sequência de três filmes do diretor não muito bem sucedidos. A volta por cima com o sucesso deste filme em particular foi tão grande, especialmente na Inglaterra – onde foi a maior bilheteria do ano em 1938 – que selou definitivamente a ida do diretor para os Estados Unidos, sendo o penúltimo filme da sua chamada fase britânica.

A esta época, Hitchcock já tinha como uma de suas marcas registradas – fato já notório do grande público – suas rápidas aparições em seu próprios filmes. Neste, Hitchcock pode ser visto bem ao final do filme, na estação de trem, com uma capa preta, fumando um cigarro. Quando começou a rodar nos Estados Unidos, onde também já era um nome popular e sinônimo de filmes de suspense para o grande público, foi recomendado que suas aparições, ansiosamente esperadas pelo público, fossem colocadas bem ao início do filme, para evitar que querendo identificar quando o diretor iria fazer sua rápida aparição, a atenção das platéias se desviasse do enredo da história.

A história de A Dama Oculta – mais um caso de tradução truncada no Brasil, visto que o título original é literalmente “A Dama Desaparece” – envolve uma moça – Iris (Margaret Lockwood), que após uma viagem de trem pela Europa conhece uma gentil senhora, Miss Froy, mas não consegue mais encontrá-la após um descanso em sua gabine. O mistério se instala quando, indagando os outros passageiros do trem, todos negam haver notado a presença desta senhora de quem Iris fala, mesmo aqueles que ela lembra de também haverem conversado com ela. Em sua busca obstinada, de início solitária, Iris encontra apoio no musicólogo Gilbert (interpretado por Michael Redgrave), a quem convence da existência e desaparecimento de Miss Froy.

Neste ponto do filme, se você o estiver assistindo pela primeira vez agora, não deixará de perceber algumas similaridades com o recente Plano de Vôo, estrelado por Jodie Foster, cujos produtores, no entanto, admitiram ter se inspirado não em A Dama Oculta, mas em um episódio televisivo do programa Alfred Hitchcock Presents – Into Thin Air. Há inclusive uma cena em que Iris reconhece no vidro a marca dos dedos de Miss Froy quando ela escreveu seu nome para Iris quando havia muito barulho no trem para que ela o compreendesse. Quem viu Plano de Vôo irá lembrar de uma cena semelhante, e assim como naquele filme, este pequeno detalhe serve para Iris não se deixar levar pela teoria levantada pelo Dr. Hartz de que ela estaria sofrendo de alucinações em conseqüência de um ferimento na cabeça que sofreu no hotel, antes de embarcar no trem. Há uma evidência concreta agora da presença de Miss Froy, o que faz Iris ficar determinada em descobrir o que aconteceu naquele trem.

Contar o final e seus detalhes seria um crime imperdoável, maior que o cometido pela soma de todos os vilões presentes nos filmes do mestre do suspense. Se você duvida que pode se divertir e se envolver com um filme produzido em 1938, deve experimentar assisti-lo. A Dama Oculta é com justiça considerado ainda hoje um dos melhores filmes que Hitchcock produziu na Inglaterra. O reconhecimento se traduziu no prêmio de melhor diretor do ano pelo New York Film Critics (sim, o prêmio já existia naquela época). E, pasmem, este foi o único prêmio como diretor que Hitchcock recebeu em toda sua carreira. Portanto, não culpem tanto assim a Academia por nunca haver concedido o prêmio ao mestre inglês, apesar de suas 5 indicações.

A Dama Oculta foi refilmado em 1979, com direção de Anthony Page, e com Elliot Gould e Cybil Sheppard nos papeis principais. A recepção crítica não pode evitar de compará-lo ao clássico de Hitchcock, no que o filme saiu perdendo. Mais uma refilmagem desnecessária, que é melhor esquecer. O original, com seus típicos elementos do gênero suspense, que praticamente nasceu pelas mãos de Hitchcock, é incomparavelmente superior.

A Dama Oculta (The Lady Vanishes) – UK, 1938
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Frank Launder, baseado na obra de Ethel Lina White
Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, Dame May Whitty
Duração: 97 minutos

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.