Crítica | A Dança dos Dragões – As Crônicas de Gelo e Fogo – v.5, de George R. R. Matin

estrelas 4,5

Há spoilers

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O livro cinco das Crônicas de Gelo e Fogo não atinge o ápice do terceiro livro, mas está longe de ter a queda de qualidade que O Festim dos Corvos, seu antecessor, infelizmente trouxe. Por um lado, guarda, certamente, momentos memoráveis, belos desenvolvimentos de personagem – como é praxe do autor – e algumas reviravoltas eufóricas em um momento da série diferente, em que a maioria dos personagens se encontram em cenários jamais vistos. Traz também, por outro lado, alguns vícios que prejudicam seu ritmo em determinados POVs, com momentos que se arrastam longamente até culminarem em eventos relevantes. George Martin sabe, todavia, pintar cenários extremamente marcantes, exigindo de seu leitor total atenção para o fluxo de personagens novos e estratégias inovadoras que levam, ainda que de forma lenta, aos grandes acontecimentos que continuam a marcar a série.

Pessoalmente, A Dança é meu livro favorito. Talvez seja por não ter recebido spoiler nenhum antes de ler, mas certamente o é por proporcionar agradáveis leituras nos capítulos de um dos meus personagens favoritos – Bran Stark. É por este ponto que gostaria de começar esta crítica, exatamente para ressaltar que se trata de um livro muito mais completo que o livro quatro, principalmente por abranger, praticamente, todos os núcleos estabelecidos em Westeros e Essos, resgatando personagens que não víamos desde A Tormenta, como o próprio Bran.

Martin usa os poucos capítulos do garoto Stark com o enigmático personagem Lorde Corvo de Sangue para dar indícios do que pode existir de novo na mitologia desse universo. Usando viagens ao passado e o sempre poderoso destino desenhado para Bran, o escritor dá às especulações vislumbres do futuro da narrativa ao voltar ao passado de Westeros, com momentos memoráveis em cada entrada de Bran na árvore coração de Winterfell. Seja ouvindo o saudoso Ned Stark rezando aos deuses antigos para que os pequenos Jon e Robb se deem bem, seja vendo o sofrimento presente de Theon Greyjoy, possibilidades começam a ser abordadas criando-se a expectativa de visitar mais e mais a riquíssima história do continente.

O próprio Theon ganha aqui uma nova vestimenta quando se descobre que o Fedor que dá nome aos seus capítulos se trata do próprio Greyjoy, torturado por Ramsay Bolton e sofrendo, provavelmente, a mudança mais drástica de todos os personagens até aqui. De uma situação horrível inicial até o fim de sua jornada, passa-se por um profundo desenvolvimento psicológico de um até então enfadonho coadjuvante. Saber seu destino causa mistos de emoções no leitor, graças às situações criadas por Martin envolvendo não só Winterfell, há muito não vista, como outros personagens fascinantes que se concentram na antiga casa dos Stark.

Estou falando, evidentemente, do casamento entre Ramsay e “Arya Stark”. A relação de Theon e Jeyne Poole, que substitui a dona da loba Nymeria, é um excelente exemplo de como o autor não se baseia no universo já sólido para suscitar sentimentos gratuitos no leitor. São, afinal, dois personagens esquecíveis, utilizados por Martin com maestria e com um grande risco para causar o nojo e o constrangimento das ações deste novo Theon. É neste casamento – todo ele memorável – que temos assassinatos misteriosos, tortas deliciosas, um curioso bardo chamado Abel e até visitas para a cripta de Winterfell. Indícios sutis e empolgantes de junções de núcleos, assim como são fortes dicas do caminho que Martin tomará quanto à lembrança do Norte, retomada como uma pequena chama que começa a crescer lentamente neste livro.

É aqui, convenhamos, que somos introduzidos ao fascinante Lorde da Casa Manderly, em uma negociação inesquecível com Davos Seaworth quanto ao local onde estão Rickon e Osha e, evidentemente, levando em conta a sede de vingança que os leais vassalos dos Stark ainda nutrem. Reconhecer isso, depois de tanto tempo do Casamento Vermelho, é um real fio de esperança, restando saber se Martin o cortará ou dará um tempero agridoce para um renascimento Stark.

É bem provável que o nortenho mais aprazível da presente obra seja Jon Snow. Vindo de capítulos complicados no livro três, o bastardo de Winterfell ganha, como comandante da Patrulha da Noite, uma jornada muito mais interessante. Há agora, na Muralha, muitos focos de atenção, envolvendo a própria presença de Stannis e sua corte. Conversas políticas e estratégias bélicas com o rei Baratheon, profecias místicas com Melissandre – que aqui ganha um providencial e interessantíssimo capítulo POV – e diálogos ríspidos e esperançosos com Mance Rayder – que ganha um destino muito mais interessante do que na série da HBO – são alguns exemplos do que se vê na conturbada vida de Jon. Com praticamente todos os capítulos aprazíveis – como não sentir um pequeno alívio ao ver o filho de Eddard cortando a cabeça do traidor de seu pai, Janos Slynt, seguindo a tradição do Norte? – e, de fato, progressivos, Jon se torna um dos personagens mais interessantes e potencialmente decisivos da história. Seu destino, no último capítulo do livro, talvez seja o grande evento da Dança e marque, por fim, o começo das últimas crônicas que Martin se propôs a nos contar.

Infelizmente, se Jon ganha destaque e fornece uma luz que há muito tempo não trazia, Daenerys, a outra ausente dos conflitos e intrigas de Westeros, continua uma personagem com POVs, por muitas vezes, cansativos. A política de Essos, além de tediosa, traz nomes esquecíveis, dilemas existenciais já gastos e enormes momentos arrastados. A força de Dany vem pelo seu entorno, seja pela própria “égua descorada” que gera um novo acontecimento em sua cidade, seja por Quentyn Martell, Tyrion Lannister e Aegon Targaryen. Ainda que o evento que está na capa da edição brasileira seja realmente bonito e forte de ser lido, vale mais a pena comentar sobre os três nomes citados.

Comecemos pelo primeiro: filho do já conhecido Doran Martell, Quentyn é um exemplo típico dos Martell no que diz respeito ao tempo de duração de um deles no livro em que é apresentado – a referência é sobre Oberyn, evidentemente. O filho do príncipe de Dorne, porém, desvia completamente do comportamento do seu libertino tio, o que gera belíssimas questões psicológicas em seus próprios capítulos. Ainda que sua jornada acabe tragicômica, é uma boa adição à mitologia, criando expectativas válidas quanto ao parado núcleo de Dany.

Outro que aqui continua ganhando destaque, ainda que passe por problemas de ritmo narrativo, principalmente no final de sua jornada, é Tyrion Lannister. Após matar seu pai e sua amante e não parar de se perguntar “para onde as putas vão?”, o anão favorito de todos os leitores passa por um caminho realmente aventuresco, conhecendo Merreca, a anã do casamento de Joffrey, Jon Connington, figura histórica de Westeros e, evidentemente, Aegon Targaryen, para a surpresa de todos. O novo pretendente ao reino ainda é uma incógnita: será uma enrolação de Martin ou um personagem de fato relevante para a briga pelo Trono de Ferro? Confio na segunda resposta, mas ainda é cedo. O fato é que Tyrion, que depois encontra Jorah Mormont, continua sendo uma das figuras mais agradáveis de se ler, espirituoso agora em cenários inimagináveis, talvez mais perigosos dos que ocorriam em Porto Real com sua irmã.

É de Cersei um dos momentos mais brilhantes do livro. A caminhada da penitência é espetacular. Ainda que bem retratada na televisão, ler a descrição de Martin é impagável. É nela que há detalhes primorosos, como a visão da rainha, no meio dos xingamentos e dos cuspes, da figura de Ned Stark, como um trágico fantasma pós momentos de paranoia. Pontas de vingança nortenha permeiam o livro por completo, ainda que a raiva dos fanáticos religiosos também cresça, trazendo, surpreendentemente por consequência, uma leve torcida para a própria Cersei e Robert Strong – fazendo sua misteriosa estreia aqui – contra o Alto Pardal.

Há, certamente, outras figuras que complementam o livro, como Arya e seu treinamento de assassina, muito mais sério e empolgante do que o mostrado pela HBO, e também Victarion Greyjoy e Moqorro, sacerdote de R’hllor que cumpre com a cota de misticismo e profecias religiosas. Barristan Selmy é outro que continua firme aqui como coadjuvante do núcleo Targaryen, prometendo boas participações no livro seis, conforme já demonstrado por capítulos soltos de Martin. O epílogo também é um dos mais interessantes, com a morte de personagens valiosos e até então estáveis, revelando Lorde Varys como um dos possíveis protagonistas que Porto Real possuirá nessa reta final.

Ainda que não tenha um começo nem um fim específico, como há nos três primeiros livros, Martin traz um sopro de ar bem-vindo aqui, utilizando velhos e queridos personagens em contextos curiosos, de Westeros a Essos. O livro é, de fato, uma dança proposta por seu autor, exigindo foco ao estabelecer alicerces para uma segunda parte da série, tendo em vista que o livro quatro foi, de fato, um interlúdio. Mesmo com problemas, trata-se de belo exemplo do gênero, respeitando o estabelecido até aqui e renovando com criatividade e fantasia em doses equilibradas. E, finalmente, o inverno chegou!

A Dança dos Dragões – As Crônicas de Gelo e Fogo – v. 5 (A Dance Of Dragons – A Song of Ice and Fire – vol. 5, EUA – 2011)
Autor:
George R.R. Martin
Editora: Leya
Páginas: 872

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.