Crítica | A Delicadeza do Amor

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estrelas 4

Não é em todos os casos que se faz necessário viver uma situação para escrever sobre ela. Em alguns contextos, a teoria dispensa a prática. Um roteirista pode nunca ter visitado a Etiópia, mas lhe é possível escrever um drama sobre o país. Júlio Verne jamais visitou a Lua, nunca foi ao centro da Terra ou deu a volta ao mundo em 80 dias, mas escreveu sobre todas essas coisas. Porém, quando qualquer escritor vive ou viveu aquilo sobre o que escreve, as mais ínfimas delicadezas e a textura de seu relato são robustos e perceptíveis à distância. A obra possui uma cor diferente. E é este conceito de vivência que se destaca em A Delicadeza do Amor, filme de estreia dos irmãos Foenkinos no cinema.

A película traz um tom “estrangeiro” que só um cidadão francês dos anos 2010, vivendo em um país onde a imigração é um grande problema, poderia expor no cinema. Esse tipo de comédia me agrada muitíssimo e posso citar obras como A Riviera Não é Aqui (2008) e As Mulheres do Sexto Andar (2010), que me chamaram a atenção, independente de sua qualidade técnica, justamente por trabalhar essa situação tão forte na França contemporânea. Em A Delicadeza do Amor, o país referencial é a Suécia, com direito ao cartaz de Gritos e Sussurros (um mimo feito Ingmar Bergman, no filme) no escritório de um dos personagens. Mas o foco central aqui não é a imigração. O homem sueco aparece para trazer, ironicamente, um pouco de calor para a vida de uma francesa amargurada. Nesse caso, aquele que vem de fora trará a salvação para um problema interno.

Escrito por David Foenkinos, o roteiro de A Delicadeza do Amor nos conta a história de Nathalie (Audrey Tautou), que perde o esposo em um acidente e então passa a dedicar-se unicamente ao trabalho, procurando se esquecer o passado. Essa primeira parte, apesar da beleza visual, parece-nos um pouco insossa. Ela não se sustenta com a força necessária para o drama. Por ser apenas um prólogo, um meio para chegar ao estado melancólico de Nathalie até o seu encontro com Markus, o sueco, o roteiro trabalha quase en passant os acontecimentos. O filme não chega a perder muita coisa com isso, mas percebemos a diferença entre essa primeira e a segunda parte da fita.

A entrada de Markus não só redefine os caminhos narrativos usados pelos diretores como também traz novo fôlego. É a partir desse ponto que o roteiro recebe uma cadência agradável, com pontuais alterações entre a comédia, o drama e o romance, mais um esbanjar de delicadeza. Os movimentos suspensos, os encontros e a amizade são ingredientes que tornam o longa tão delicioso de se ver, que a ingenuidade e os clichês amorosos da trama principal sequer incomodam ou diminuem o potencial da obra. A direção cuidadosa dos irmãos Foenkinos consegue nos levar em estado de graça até a última cena, quando abandonam todo o lirismo para fincar um desfecho poético, digno de admiração. Infelizmente o filme não aprofunda nenhuma de suas questões e, por isso mesmo, pode ser facilmente esquecido pela relevância ou riqueza de seu conteúdo. Todavia, é uma película que dificilmente alguém se recusaria a rever.

A cargo de Virginie Bruant, a montagem consegue transmitir uma dinamicidade e linha temporal agradáveis. Desde o início, percebemos os cortes dos tempos mortos e uma instigante técnica de trabalhar a passagem do tempo, algo muito importante para se analisar, pois isso perpassa os sentimentos das personagens. Embora não apague os momentos vividos no passado, o tempo tem o poder de retirar deles a sua imponência e ação negativas. Esse lirismo tipicamente literário é muito forte em A Delicadeza do Amor. Percebemos o quanto o tempo modificou a vida da protagonista e como alterou os sentimentos e a organização de tudo ao seu redor. A montagem e a fotografia conseguiram fixar essas nuances com muita competência, especialmente a primeira, que nos propiciou um aproveitamento pleno do tempo interno e externo do filme.

A trilha sonora é responsável por finalizar dramaticamente todos os ambientes criados pelos diretores. A melhor observação que podemos fazer a respeito é como foram espalhados contrates musicais, fotográficos e artísticos no filme. Os melhores momentos são os dos restaurantes ou das cenas de alimentação em outros espaços. O espectador consegue até formular uma ficha de comparação psicológica dos ambientes e seus frequentadores, função que só é possível pelo contraste. Graças aos setores técnicos, esse exercício de diálogo com o público existe da maneira mais sutil e agradável possível.

Audrey Tautou é sempre de uma beleza admirável e aqui, realiza um ótimo trabalho. Sua docilidade na construção da personagem principal, seus momentos de sofrimento e a mudança para a possibilidade de uma nova vida foram tão bem mostrados pela atriz que o filme tem metade de sua sutileza graças a ela. Todo o elenco de apoio está maravilhoso, e até os tipos mais excêntricos de personagens cabem perfeitamente na trama e são muito bem condizidos pelos diretores. O filme cumpre sua proposta e consegue neutralizar os erros pela boa levado de todo o resto.

Não há quem não tenha sido tocado depois da emblemática cena e frase final: “… foi no coração de todas essas Nathalies que eu resolvi me esconder.”. Apenas um sentimento pode impulsionar alguém a dizer uma coisa dessas. E é com essa delicadeza de expressão que vemos o brotar de um sorriso em meio a um jardim de amor que chegava à sua metafórica primavera.

A Delicadeza do Amor (La délicatesse) — França, 2011
Direção: David Foenkinos, Stéphane Foenkinos
Roteiro: David Foenkinos (baseado em sua obra)
Elenco: Audrey Tautou, François Damiens, Bruno Todeschini, Mélanie Bernier, Joséphine de Meaux, Pio Marmaï, Monique Chaumette, Marc Citti, Alexandre Pavloff, Vittoria Scognamiglio, Olivier Cruveiller, Ariane Ascaride, Christophe Malavoy, Audrey Fleurot
Duração: 108

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.