Crítica | A Derrota da Sociedade da Justiça

a-derrota-da-sociedade-da-justica-plano-critico

estrelas 3

A Sociedade da Justiça da América foi criada na revista All-Star Comis #3, em 1940, e lá permaneceu até a edição #57, intitulada O Mistério dos Detetives Desaparecidos (fevereiro-março de 1951). E então, sem nenhum aviso, sumiram do mapa. Sabemos que o estabelecimento da SJA no Universo DC pré-Crise é que o grupo pertencia à Terra 2. Na Era de Prata tivemos, na Terra-1, o equivalente desses heróis, a Liga da Justiça da América, também criada por Gardner Fox, mas com um outro time de artistas. Em algumas histórias de “encontro de mundos”, a SJA apareceu uma porção de vezes na revista da LJA, e também em outras aventuras isoladas, mas sem nenhuma série regular. Em 1984, foi criada a revista Infinity, Inc., com um grupo formado pelos filhos dos membros da Sociedade da Justiça. A primeira minissérie solo do grupo clássico veio apenas em 1991, com oito edições, todas escritas por Len Strazewski e ilustradas por diferentes artistas.

SPOILERS!

Entre o desaparecimento da Sociedade da Justiça das bancas, sem nenhuma explicação, em 1951, e sua primeira série solo em 1991, ficou um buraco que só foi preenchido por Paul Levitz em dezembro de 1979, nas páginas da Adventure Comics #466. Com uma história de título marcante, A Derrota da Sociedade da Justiça, o autor conta de maneira rápida o que aconteceu para que os queridos heróis da Terra 2 saíssem de cena como num passe de mágica. E, de todas as tramas possivelmente esperadas, ele escolheu a mais válida sob o ponto de vista humano e canônico — porque depois não precisaria mover mundos e personagens para justificar essa exposição.

Sentindo-se ameaçados e muito decepcionados com o governo dos Estados Unidos, a formação que vemos da Sociedade da Justiça em 1951 (Mulher-Maravilha, Átomo, Doutor Meia-Noite, Canário Negro, Gavião Negro, Flash e Lanterna Verde) resolve se aposentar após uma sequência de eventos que os levou a prestar depoimentos para o Comitê de Atividades Antiamericanas (House Un-American Activities Committee — HUAC), na época da “caça às bruxas comunistas” do Senador Joseph McCarthy. Infelizmente, a Terra 2 também teve a sua porção macarthista…

depoimento-huac-plano-critico-sociedade-da-ustica

O depoimento da SJA no HUAC: aposentados por vontade própria antes de serem oficialmente perseguidos pelo governo.

O roteiro serve de “despedida” e de “justificativa” ao mesmo tempo. Levitz consegue com louvor — e isso é uma coisa boa e ruim ao mesmo tempo — emular o estilo de escrita da Era de Ouro, ou seja, com histórias mais simples, objetivas e elementos de ingenuidade que se perderia a passos largos ao longo da Era de Prata. Interessante é vermos a crítica do autor à investigação do Congresso Americano diante dos heróis, que sempre lutaram para manter o país livre de ameaças e agora precisavam ouvir suspeitas e distorções dos Senadores, políticos que tentam combater um inimigo que não oferece ameaça real enquanto o crime organizado devora a nação e eles deixam que isso aconteça. Essa realidade sociopolítica é irônica e ao mesmo tempo bastante reconhecível, inclusive em nossos dias.

Eu disse antes que essa aproximação da escrita de Levitz em relação ao estilo da Era de Ouro era algo bom (porque mostra a versatilidade do autor, que não comete anacronismos históricos), mas também algo, ruim, dado o caráter mais “bobo” da maioria das histórias daquele período — ao menos as no grande mercado. O peso desse tipo de abordagem acontece na primeira parte da história, quando um grupo de mafiosos contratam um misterioso homem para colocar fim à Sociedade da Justiça. A forma como ele atrai e domina os heróis é bem difícil de engolir, mas tanto o motor narrativo dado pela Caçadora e pela Poderosa, quanto os rumos políticos da parte final, salvam o dia por trazerem dimensões reflexivas (no ramo político) inesperadas. As duas heroínas que apresentam o flashback são, na verdade, o ponto de vista do leitor, e esse tipo de diálogo/representação sempre dá bons frutos nos quadrinhos.

A Derrota da Sociedade da Justiça pode até parecer uma aventura anticlimática para alguns leitores, e se pararmos para pensar, de fato é. Mas esse tom não é desconectado da mensagem pretendida pelo roteirista. Estamos falando da saída de cena do primeiro grupo de super-heróis das HQs e uma vez que isso não foi feito na época em que a coisa aconteceu, a melhor maneira de trazer este fim era relembrar o passado a partir de um momento de crise, no presente. Quase sempre, o caminho utilizado por todos nós para grandes reflexões. Aqui, a arte imita a vida.

Adventure Comics Vol.1 #466: A Derrota da Sociedade da Justiça (The Defeat Of The Justice Society!) — EUA, dezembro de 1979
Roteiro: Paul Levitz
Arte: Joe Staton
Cores: Adrienne Roy
Letras: Ben Oda
25 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.