Crítica | A Diferença Invisível

É bem provável que a visão seja o sentido que mais dê confiança ao ser humano. “Eu só acredito vendo” e “ver para crer são apenas duas expressões populares que exemplificam como a visão pode ser um martelo em cima do prego da dúvida. Se duas pessoas olhando para um mesmo objeto conseguem ter percepções diferentes até mesmo sobre uma cor ou tonalidade, porque então, com o perdão do trocadilho, confiamos cegamente em tudo que nossos olhos veem? A obra A diferença invisível não responde esta pergunta, mas nos mostra o quanto uma pessoa pode sofrer em uma sociedade que majoritariamente julga pelas aparências. Principalmente se essa pessoa for autista.

O TEA (Transtorno do Espectro Autista) é muito difícil de ser diagnosticado dada a subjetividade de seus sintomas. Existem múltiplas etiologias, diversas síndromes em diferentes graus de intensidade e com diferentes consequências para o indivíduo. Essa complexidade é atenuada quando até mesmo portadores dessa condição a desconhecem e acabam tentando se adaptar ao seu círculo social ignorando suas diferenças. O esforço disso é hercúleo e pode provocar frustração, depressão, solidão, dificuldades extremas de socialização, de se relacionar com outras pessoas, dentre tantas outras situações que poderiam ser minimizadas se a sociedade tivesse um pouco mais de informação sobre o tema.

Foi com esse objetivo que Julie Dachez, autora e protagonista desta história, escreveu o roteiro de A diferença invisível. Magistralmente ilustrada por Mademoiselle Caroline, a obra mostra um pouco do cotidiano de Julie quando ainda nem sabia o que era autismo, passando pelo complicado processo de diagnóstico da Síndrome de Ásperger e por fim mostrando sua readaptação depois de conhecer um pouco mais de suas diferenças como uma aspie (como são conhecidos os portadores da síndrome.)

Um roteiro escrito por uma autista obviamente dá credibilidade a um texto que pretende mostrar o que passa e o que sente uma pessoa com esta condição. Mas Mademoiselle Caroline não só faz a parte artística se encaixar no roteiro como também eleva sua qualidade para um outro patamar. Os traços e principalmente as cores nos fazem praticamente sentir o que Julie está sentindo nos ambientes que frequenta. A primeira crise de ansiedade da protagonista em seu local de trabalho, por exemplo, nos provoca uma espécie empatia sensitiva. Sapatos batendo no chão, telefones tocando, gargalhadas, mastigação, cliques. Sons, ruídos, vozes, sussurros, iluminação. Coisas mínimas, ignoradas pela maioria de nós, vão se amontoando na mente de Julie, provocando uma agonia e uma sensação crescente de claustrofobia não só na personagem como também no leitor, a ponto de soltarmos um “ufa!” quando Julie finalmente sai correndo para o banheiro para tentar se recompor.

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Outro problema que os aspies enfrentam é a falta de traquejo social. Não é trivial entender ironias, pressupostos, implícitos, piadas de duplo sentido e outras formas de expressão não literais. Isso também é muito bem retratado na obra, que mostra Julie enfrentando momentos embaraçosos e constrangedores repetidamente, que servem de gatilho inclusive para que ela resolva procurar ajuda e entender melhor o seu problema.

A saga para buscar ajuda é genial. Poderia ser simples ou quem sabe direta, mas o roteiro aproveita para mostrar como é complicado conseguir ajuda, mesmo dentro do meio profissional. Diversos médicos tratam como frescura ou doença da moda e dão outros diagnósticos precoces ou no mínimo descartam o autismo precocemente com argumentos rasos. Felizmente, depois de muito esforço, Julie consegue um atendimento decente em um centro de apoio a autistas que a analisa além da superficialidade, dando finalmente o diagnóstico libertador. Descobrimos na história também que é mais difícil diagnosticar a síndrome de Ásperger em mulheres pois elas comumente aprendem a disfarçar suas dificuldades.

Há diversos outros momentos como estes que por si só justificam a escolha da história em quadrinhos como recurso narrativo. A linguagem é usada de forma engenhosa e sem ela, perderíamos grande parte do resultado final. A paleta de cores predominantemente cinza com o caos sensorial sendo destacado em vermelho vai dando lugar a outras cores, demonstrando metaforicamente no decorrer das páginas que Julie, agora ciente de suas diferenças, consegue respirar e contemplar um pouco mais o mundo que a cerca.

E claro, não poderíamos deixar de falar da sociedade. Se até médicos podem ver certas diferenças com banalidade ou descaso, imagine colegas, amigos, parentes próximos, que adoram resolver tudo com frases motivacionais e tapinhas nas costas, normalmente tentando minimizar algo, acreditando de bom grado que basta uma injeção de ânimo para te curar dessa doença. A maioria dos casos nem é maldade. É só desinformação. Esta é uma obra, portanto, para autistas, que precisam se conhecer melhor e entender o que pode proporcionar mais conforto em sua vida e para não autistas, que entendendo melhor as dificuldades que eles enfrentam, podem tentar se adaptar para ajuda-los a se viverem melhor. Parece algo distante para você? Uma a cada sessenta e oito pessoas é diagnosticada dentro do espectro autista. As diferenças são invisíveis aos olhos e requerem sensibilidade e empatia da sociedade para perceber e lidar com elas. Julie e Caroline nos entregam então uma excelente ferramenta para ajudar nossa tarefa de disseminar informações sobre autismo.

plano critico a diferença invisível

Além de toda informação essencial, a edição nacional da editora Nemo incluiu informações extras muito relevantes que complementam a HQ de forma sólida. O enredo é por vezes angustiante, bem-humorado, didático e informativo. Tudo sem deixar de ser interessante, como prova o desfecho da história que se utiliza de metalinguagem ao mostrar as autoras planejando a obra em questão dentro do próprio enredo.

Seja para se desprender de preconceitos, para ajudar amigos e parentes ou apenas para conhecer mais a respeito do tema, A diferença invisível é uma obra de entrada excepcional. Mas é importante deixar bem claro que esta HQ não é apenas uma wiki sobre autismo. Tampouco é uma obra de nicho apenas para engajados na área. Trata-se de uma produção primorosa também em sua linguagem tanto em termos narrativos como visuais. Uma história em quadrinhos de alto nível que trata de um tema importante e com conteúdo acessível e bem-humorado para qualquer tipo de leitor.

A Diferença Invisível (Différence Invisible) — França, 2016
No Brasil:
Editora Nemo, 2017
Roteiro: Julie Dachez
Arte: Mademoiselle Caroline
Tradução: Renata Silveira
194 páginas

BRUNO CAVALCANTI . . . [Ao som de Top Gear....] Localização: Terra - Via Láctea - Universo Observável. Sou um terráqueo padrão, que se entretém sabe-se lá do quê com livros, filmes, quadrinhos e games. Falante excessivo a 30 anos, só dispenso um bom papo se o assunto for pagode ou Big Brother. Adepto da paz, não gosto de polêmicas. Mas a DC é claramente melhor que a Marvel. Se for me dar um livro, abra-o antes e escreva uma dedicatória. Não dou muito valor ao plástico do lacre, já que ele sempre vai pro lixo. Agora, se o presente for pro meu filho de 2 anos, ele me disse aqui que prefere um carrinho. De preferência um Jipe. E de preferência azul.