Crítica | A Enseada

A Enseada é um documentário angustiante, entretanto, necessário. Ao passo que os seus 92 minutos avançam, descobrimos que os golfinhos são animais que habitam o imaginário das diversas sociedades que circularam pelos mais variados territórios na Idade Antiga, no período Medieval até a era contemporânea. Infelizmente, descobrimos também que o seu foco central é denunciar a matança desses animais num determinado local do Japão, por meio de atividades que não são tratadas como ilegais pelo governo. Sem proteção das autoridades e sem leis que possam reduzir os danos, como lidar com tamanho problema?

Aos que não sabem, o extermínio de golfinhos é um problema de ordem mundial e pode trazer sérios danos para a vida marinha, o que por sua vez, vai ressoar no ecossistema de outros ambientes. Observe: o golfinho é uma espécie-chave, isto é, um grupo de animais cujo desaparecimento vai levar ao sumiço de outras espécies. Regulador do ecossistema marinho, as suas fezes ajudam na fotossíntese de plantas marinhas, bem como fornecem nutrientes para outros ciclos biológicos, etc. A Enseada foca na crueldade como esses animais são dizimados em águas japonesas, no entanto, nos permite refletir além das suas propostas iniciais.

O ponto de partida é o extermínio de golfinhos, animais que são vendidos por até duzentos mil dólares para aquários ao redor do planeta, ou então, são esquartejados e comercializados no mercado da alimentação, uma prática que veremos mais adiante, é até condenável do ponto de vista da manutenção de uma vida saudável. O documentário nos mostra que entre setembro e março os barcos de pesca saem com varas de aço que são utilizadas para mexer com o sonar dos animais, pois ao atordoa-los, torna-se mais fácil golpeá-los para atirar as lanças que os matam, bem como as redes que os capturam para a venda.

Diante da situação exposta, nos perguntamos: como as autoridades governamentais agem diante do assunto? A resposta é simples: agem numa postura favorável ao avanço desta indústria criminosa, pois é uma atividade altamente rentável para todos os envolvidos. Animais que fazem parte de um equivocado imaginário perpetuado pela série Flipper, famosa nos anos 1960, os golfinhos sofrem tal como o tubarão-branco, espécie ameaçada com mais veemência depois do lançamento do filme de Spielberg. Ao adentrar por Taiji, cidade conhecida por sua devoção por golfinhos e baleias, a produção revela os segredos do local, nos mostrando os mecanismos que engendram uma espécie de indústria criminosa, o que a torna a maior fornecedora de golfinhos do mundo. Os prediletos são os nariz-de-garrafa. Caros, exóticos e cada vez mais raros.

Durante a produção que teve dificuldade de ser realizada por conta da comunidade local que não facilitou nem um pouco o trabalho da equipe, A Enseada também denuncia o uso de carne de golfinho pela população, prática alimentar perigosa devido ao alto teor de mercúrio presente nesta dieta, ofertada, inclusive, nas escolas públicas para os estudantes durante as refeições. Na região de Minamata, por exemplo, a história mostrou os impactos do consumo oriundo desta prática que agride não apenas a natureza, mas alguns seres humanos envolvidos. Em 1956, a água local foi contaminada por mercúrio, situação que ocasionou problemas de saúde em diversas grávidas. De acordo com dados de pesquisa, o mercúrio causa danos na movimentação dos membros inferiores e superiores, além de problemas de audição e visão, dentre danos neurológicos.

Dirigido por Louise Psihoyos, a produção conta com um roteiro eficiente, assinado por Mark Monroe, material que ganha impacto com a montagem certeira de Geoffrey Richman. Apesar de tratar de um tema tão trágico e infeliz, a produção ganha pontos por sua direção de fotografia acima da média, trabalho desempenhado por Brook Aitken.  Psihoyos gerencia bem a sua equipe, mesmo diante dos estresses, demonstra domínio na empreitada, afinal, já havia trabalhado como fotógrafo da National Geographic.

Com microfones subaquáticos e câmeras de alta definição, o documentário unifica depoimentos de mergulhadores, cineastas e ativistas experientes para dar voz e legitimidade ao que denuncia: os crimes ambientais realizados na “tal” enseada japonesa. O país, segundo os relatos, compra votos de países mais pobres da Comissão Baleeira Internacional, tendo em vista conseguir parcerias suficientes para dar continuidade ao trabalho criminoso que é realizado à luz do dia, sem nenhuma vergonha ou ressentimento.

Lançado em 2009, A Enseada é um documentário que reflete as questões discutidas na Convenção de Montego Bay, encontro que teve como pauta a preservação e uso equitativo dos recursos naturais, a necessidade de regularização da pesquisa científica, alguns elementos basilares para pensar do Direito Ambiental e os problemas oriundos do uso irregular de determinados recursos/espécies e os impactos que isso pode ocasionar em escala global. Quase dez anos depois do lançamento, as discussões sobre o assunto continuam efervescentes, pois ainda há muito trabalho no que tange à conscientização da humanidade em relação aos efeitos da extinção de algumas espécies de golfinhos, tubarões, baleias e outros animais marinhos.

A Enseada — (The Cove) Estados Unidos/Japão, 2009.
Direção: Louise Psihoyos
Roteiro:  Mark Monroe
Elenco:  Richard O’Barry, Louise Psihoyos, Joe Chisholm, Mandy-Rae Cruikshank, Charles Hambleton
Duração: 101 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.