Crítica | A Entrevista

estrelas 4,5

A narrativa envolvendo o filme por fora da telona do cinema foi talvez uma das que mais repercutiram no cenário internacional por conta do enredo que mostra a interferência da CIA na ditadura de um país asiático — que faz referência direta a Coréia do Norte — a partir do contato estabelecido por um astro do entretenimento que descola uma entrevista exclusiva para elevar o status de seu programa.

Dave Skylark — interpretado por James Franco em uma atuação convincente  é egocêntrico ao extremo, e, embebido por sua fama e nenhum senso se aproxima do ditador Kim Jong-un, com quem passa a ter uma amizade gozada ao som de Kate Perry e inevitavelmente terá de matar. Seth Rogen é Aaron Rapoport, o produtor do programa de Skylark que busca fazer produtos mais relevantes. 

Foi por conta dessa premissa que a Sony foi hackeada por terroristas que parecem ter seguido ordens do ditador em pessoa. Isso gerou um estardalhaço na mídia e um impacto no mercado de distribuição, porque as ameaças dos terroristas tinham o objetivo de intimidar a Sony para que ela deixasse de lançar o filme. A primeira reação foi cancelar, mas depois de comentários advindos do presidente Obama e da repercussão em Hollywood o filme teve a data reposta, com um adendo: o lançamento ocorreu concomitantemente com a veiculação pela internet.

Algo desse gabarito é um marco na indústria, que não compactuou com a autocensura e ainda se arriscou a conceder espaço gratuito para as pessoas assistirem ao filme logo que a fila da pipoca andou. Esse fato é fantástico e ainda vai ser bastante visitado a partir de agora. Esse filme não parece apresentar nenhuma arma contra o ditador, mas certamente o ato terrorista impulsionou ainda mais a repercussão dele, agregando força e potência à democracia.

Em geral, a comédia de baixo orçamento segue um ritmo acelerado, característico do estilo de Rogen. As piadas não são nada contidas e, para alguns espectadores podem até extrapolar alguns limites. Nada disso afeta a qualidade do filme, que não tem nada mais ousado do que brincar com a hegemonia estadunidense e a maneira como a CIA se envolve na história do mundo ao retratar esse ditador como o vilão. Acho que vocês já devem ter visto muitos filmes assim não é mesmo?! 

Por ser de um gênero em que o limiar entre a verosimilhança e o absurdo é bem vasto, as cenas tem essa ambiguidade entre o tom de crítica escamoteada e a total esculhambação. Seja como for, o fato é que a fita conseguiu o status de polêmica, atraiu os olhos do mundo e com certeza atrairá os seus também. Nisso, recai a relevância do filme, ponto.

A Entrevista (The Interview, EUA – 2014)
Diretor: Evan Goldberg e Seth Rogen
Roteiro: Dan Sterling, Seth Rogen e Evan Goldberg
Elenco: James Franco, Seth Rogen, Lizzy Caplan, Randall Park, Diana Bang, Timothy Simons, Reese Alexander, James Yi, Paul Bae, Geoff Gustafson, Dominique Lalonde, Anesha Bailey, Anders Holm, Charles Rahi Chun, Don Chow
Duração: 112 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.