Crítica | A Era da Estupidez

A Era da Estupidez é um filme inquietante. Produzido por meio de financiamentos que o tornaram uma realização independente, ao longo dos seus 92 minutos, o recado é bastante objetivo: em breve o planeta continuará existindo, entretanto, a humanidade corre o risco de ser extinta. Lançado em meio às polêmicas predecessoras à 15ª Conferência do Clima, em Copenhague, evento que ocorreu em dezembro de 2009, o documentário nos poupa de mensagens motivacionais e parte para o ataque, incomodando ao espectador que espera um discurso mais ameno e uma reflexão mais tranquila.

O ponto de partida para é a jornada hipotética: o ano é 2055. O mundo vive constantemente em caos diante das catástrofes naturais que ocorrem por conta das severas alterações climáticas. A humanidade está por um fio e o “fim” parece bem próximo. Tudo que foi produzido no campo das artes, da cultura e do conhecimento humano está arquivado após uma imensa onda devastadora de calor e um sobrevivente que vive no Ártico, “mestre de cerimônias” do documentário, sobrevivente numa região sem o gelo que é sua grande característica, faz o seguinte questionamento: por que não salvamos o planeta enquanto tínhamos chance?

Diante da situação exposta, o roteiro que mescla elementos ficcionais e documentais traça uma análise das consequências da emissão de dióxido de carbono na atmosfera, tendo como material de legitimação, especialistas no assunto, além de cidadãos comuns interessados na “salvação” do planeta. O que se reflete é a necessidade de viver diante de questões que não podem passar por um processo de reversão, mas que se modificadas ainda em tempo, podem mudar o panorama e suavizar-se diante do que se tem por previsão. A inovação no âmbito tecnológico, a criação de empregos verdes e a proteção das florestas são alguns dos caminhos.

Eis alguns dos que refletem sobre o tema e ofertam algumas propostas: Jeh Wadia (criador da primeira empresa aérea econômica do mundo, tendo em vista que os aviões são os principais emissores de dióxido de carbono); Fernand Pareau (um guia de turismo francês que revela a absurda e assustadora mudança na geleira dos Alpes); Alvin DuVernay (homem que após perder tudo durante o furacão Katrina, decidiu trabalhar em causas sociais para pessoas que sofrem diante de problemas ambientais); Piers Guy (um britânico que construiu as suas turbinas eólicas para evitar emissões, mas sente que o efeito seria maior se os seus vizinhos pensassem parecido); e Layela Maleni (moradora de uma aldeia arruinada pelos impactos da Shell).

O tema do documentário tornou-se uma alarmante discussão na realidade há pouco tempo. Numa medição realizada em maio de 2016, cientistas informaram que estávamos diante da maior concentração de dióxido de carbono da história. Especialistas alegam que no século XIX, antes da revolução no ramo industrial, o nível registrado era de 280 e que atualmente estamos em 400. O dióxido de carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis é considerado o principal gás do efeito estufa, um dos elementos centrais na celeuma do aquecimento global. Assim que é emitido, aprisiona a radiação do sol e impede que o calor seja dissipado pelo planeta. Tenso, concorda? No entanto, a preocupação não é unanimidade, pois de acordo com Luís Carlos Baldicero, PHD em Meteorologia pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, as emissões naturais são os dados realmente alarmantes, não as humanas, apontando que o dióxido de carbono não é o grande vilão do aquecimento global. Em suma: a questão não está fechada e há um debate sobre o assunto, o que torna o documentário um ponto de vista dentro de uma extensa discussão de cunho científico.

Dirigido e escrito por Franny Armstrong, o documentário conta com a edição eficiente de David G. Hill e a condução musical de Chris Brierley, “agonizante” tal como a situação do planeta.  Criado com elementos que comprovam a nossa atual era do individualismo, A Era da Estupidez possui um tom didático que o torna necessário uma produção necessária no que diz respeito ao nosso papel enquanto conscientizados e, posteriormente, de multiplicadores de questões tão relevantes. Com trechos de telejornal e outros materiais midiáticos, a produção peca quando não inclui dados informativos e de intervenção na estrutura central do documentário, o que deixa a sensação de que podia fazer mais efeito, afinal, alguns detalhes que aparecem apenas nos créditos finais não alcançam a todos. É cultural nos levantarmos assim que nos é exibido o primeiro crédito de encerramento. Somos apressados, característica integrante dessa tal “era da estupidez” e da pressa. Sendo assim, seria mais conveniente expor tais dados durante a jornada do documentário, mas ainda assim, a produção tem todos os seus demais méritos, que por sinal, não são poucos.

Lançado em 22 de setembro de 2009, A Era da Estupidez preferiu o orçamento contido e a rede de contatos que permitiu ao filme o financiamento sem a participação das grandes corporações do âmbito cinematográfico, pois o interesse era evitar cortes e ter liberdade de expressão para abordar questões que mexem com gente muito poderosa, situada em diversos setores da sociedade, dentre eles, o político e o econômico. Cientes do risco, os realizadores preferiram trafegar por uma via mais tranquila. Talvez fosse interessante o investimento para uma sequência, tal como Al Gore fez em seu Uma Verdade Inconveniente, afinal, as questões ambientalistas parecem uma discussão que só terá fim quando a humanidade for exterminada. E o nosso fim, conforme apontam os documentários sobre o assunto, parece estar bem próximo, não é mesmo?

A Era da Estupidez — (The Age of Stupid) Reino Unido, 2009.
Direção: Franny Armstrong
Roteiro: Franny Armstrong
Elenco:  Pete Postlethwhaite, Piers Guy, Layela Maleni, Jeh Wadia, Fernand Pareau, Alvin DuVernay
Duração: 92 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.