Crítica | A Era do Gelo: O Big Bang

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estrelas 1,5

Em algum momento, lá em 2002, A Era do Gelo teve graça. Eu tinha 15 anos na época em que o filme foi lançado e me lembro de ter saído demasiadamente feliz do cinema, porque, de fato, a temática, o humor, os personagens adoráveis… tudo servia como uma diversão despreocupada e com modelos bem interessantes de personalidades dadas aos bichos, sem contar as camadas levemente críticas que o roteiro trazia. Embora a estreia da franquia não tenha sido uma obra-prima, ela era no mínimo bem escrita, fazia rir pela novidade e trazia bom resultado de aplicações técnicas para animação no cinema.

Então vieram O Degelo, Despertar dos Dinossauros e EdG 4, cada um descendo alguns degraus em nível de qualidade se comparados ao primeiro filme. O fundo do poço é alcançado com louvor neste O Big Bang — aliás, que tenebrosa escolha da “tradução” brasileira para o original Collision Course!), filme que não tem absolutamente nenhum sentido de existir e que de bom mesmo só carrega a produção e a fotografia.

O irritante não é apenas o arrastar-se das desventuras de Scrat, o azarado Cronópio que, na ânsia de encontrar um lugar perfeito para encaixar sua noz, acha o controle de uma nave espacial congelada (visualmente indicada no primeiro filme da franquia. Mas isso não tem peso ou importância alguma aqui, porque o fato é tratado como easter egg) que decola em direção ao Sistema Solar. Todo o primeiro bloco do longa é focado nesse disparate, que embora nos faça rir moderadamente, se perde pela insistência em algo que já sabemos aonde vai dar, e que retorna diversas vezes, como uma pequena maldição, fazendo mímicas relativamente graciosas de Alien, o Oitavo Passageiro (1979), Prometheus (2012), Gravidade (2013) e Perdido em Marte (2015).

Exceto a obsessão pela noz e por um lugar para encaixá-la, mais nada envolvendo o Cronópio faz sentido, isso para o próprio personagem e dentro do Universo da franquia. Aí contamos o rearranjo dos planetas, a colocação das órbitas em torno do Sol, certos elementos visualmente interessantes (mas nulos em qualquer outro aspecto dentro do filme) como os anéis de Saturno e o furacão de Júpiter, e coisas que não são nem interessantes visualmente, como o “desastre de Marte” ou qualquer coisa do “subterrâneo” da Terra que não tenha a ver com Buck cantando uma versão extremamente divertida e maravilhosamente bem dirigida da ária Abram o Caminho Para o Faz-Tudo (Largo al Factotum), da ópera O Barbeiro de Sevilha.

No gelo, as coisas deveriam ser mais interessantes. Havia até a possibilidade de criar uma animação que tivesse um fio da meada épico, na linha da obra de 2002, com uma grande temática e intromissões paralelas na medida, surgidas como adendo ao roteiro, não como distração de isopor. E não há nada em tanta quantidade aqui em O Big Bang como distrações de isopor. Em um momento estamos assistindo ao dia a dia de Manny, Ellie, Amora e seu noivo Julian; mais adiante há desvios para um drama apenas de Ellie e Julian, incluindo a clicherenta reta final; depois estamos falando de Sid e suas desilusões amorosas, com uma insana virada narrativa pelo retorno de Brook; depois estamos falando de Buck, de uma profecia sobre as extinções na Terra; então partimos para os Dromeossauros que perseguem Buck (que bom ouvir o sotaque nordestino do youtuber Whindersson Nunes dublando o desajeitado Roger!), então temos o plano absurdo para salvar o planeta do meteoro “causado” por Scrat no começo do filme. É muita coisa acontecendo, muitos fios narrativos que não dão em nada. No final, o filme só tem assunto mesmo é para um curta-metragem. E como se não bastasse, no meio de tantos pequenos atos e tantos personagens sendo acrescentados à trama, vemos a descaracterização da maioria deles.

Como disse no início, o que realmente vale a pena em O Big Bang é a qualidade técnica da animação. Uma pena que todo o apelo digital não tenha sido melhor aproveitado pelos diretores, mas cenas como a já citada ária de O Barbeiro de Sevilha, a sequência da tempestade elétrica e a chegada dos personagens na deslumbrante Geotopia (em termos de direção, a segunda e última melhor sequência do filme), um lugar que nos últimos 100 milhões de anos tem acumulado cristais das mais diversas procedências, fazendo com que todos os seus habitantes sejam jovens, coloridos e tenham mais pelos, pele ou penas que outros exemplares da mesma espécie que vivem fora do local. Aqui, cada detalhe conta e é quase possível se esquecer do novelo mal amarrado de linhas narrativas rotas que tivemos até ali. Claro que o deslumbramento não dura muito tempo, mas é o bastante para mostrar ao espectador que pelo menos em técnica e imagem (a fotografia é soberba e tem o seu melhor momento em Geotopia, pela exploração imensa de tonalidades e de trabalho com luz e sombra — destaque para os takes mostrando o céu, com o asteroide se aproximando e a mistura de vegetação primitiva com bichos e cristais) a animação é válida. Uma pena que olhando a aplicação de toda essa beleza na história, pouco sobra de relação com o conteúdo, sendo a imagem, por si só, apenas estesia.

A dublagem brasileira tem bons momentos, mas não traz quase nada de diferente em relação aos outros filmes. A adaptação das piadas do inglês para o português tupiniquim talvez tenha sofrido imensamente nas mãos do regionalismo, com momentos que pioram ainda mais cenas que já não iam bem em diálogo ou atmosfera.

Com o resultado deste quinto filme, é hora do Blue Sky Studios e da Twentieth Century Fox Animation buscarem outra fonte para beber, porque esta daqui já deu o que tinha de dar. E não é de agora.

A Era do Gelo: O Big Bang (Ice Age: Collision Course) — EUA, 2016
Direção: Mike Thurmeier, Galen T. Chu
Roteiro: Michael Berg, Yoni Brenner, Aubrey Solomon, Michael J. Wilson
Elenco (vozes no Brasil): Diogo Vilela, Tadeu Mello, Márcio Garcia, Ingrid Guimarães, Carla Pompílio, Patrick de Oliveira, Gustavo Nader, Alexandre Moreno, Andrea Suhett, Eduardo Borgueth, Bruna Laynes, João Cappelli, Nádia Carvalho, Guilherme Briggs, Mauro Ramos, Sheila Dorfman, Whindersson Nunes
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.