Crítica | A Era do Gelo

estrelas 3

Com o advento da computação gráfica, as animações tem sido um dos setores mais lucrativos da indústria cinematográfica, um exemplo disso são obras como Toy Story 3 e Shrek 2, que possuem bilheterias próximas a 1 bilhão de dólares. Mas durante muito tempo essa fatia esteve apenas na mão da Pixar/Disney e DreamWorks. Diante disso, a Fox até tentou desenvolver uma animação própria com o fraco Titan A.E., que não obteve o resultado desejado pelos produtores. Portanto, A Era do Gelo foi lançado com a expectativa do estúdio de mudar esse panorama econômico, mas será que a qualidade do filme também foi priorizada?

O filme conta a história de Manny (Ray Romano), um mamute que certo dia salva Sid (John Leguizamo) de um ataque de rinocerontes e por isso acaba sendo seguido pelo bicho-preguiça. Enquanto os dois tentam resolver suas diferenças, eles encontram um bebê abandonado na beira de um rio e decidem devolvê-lo aos humanos, para a difícil tarefa pedem ajuda ao suspeito tigre Diego (Denis Leary).

Com uma simples leitura da sinopse é possível notar que o roteiro, escrito por Michael Berg, não tem como ponto positivo a originalidade, uma vez que, outros filmes já tiveram como premissa histórias onde personagens com diferenças precisam permanecer juntos por um motivo maior, como os já citados Toy Story (com Woody e Buzz) e Shrek (com Shrek e Burro). No caso de A Era do Gelo, há Manny, extremamente sério; e Sid, extremamente tagarela, sendo que o mamute a todo momento tenta se livrar do bicho-preguiça, que insiste em permanecerem juntos e atinge seu objetivo pela insistência, ficando ainda mais parecido com a trama de Shrek.

Além disso, o primeiro ato utiliza recursos para unir os personagens que acabam ficando sem respostas, como, por exemplo, porque Manny estava indo para o norte enquanto todos os outros animais migravam para o sul? Ou, por qual motivo a família de Sid o abandonou e viajou sem ele? Para piorar, os tigres, que podem ser considerados vilões da trama, em nenhum momento transmitem realmente temor, logo na primeira cena em que são apresentados eles falham ao tentar atacar uma pequena aldeia de humanos, mostrando-se, desde o início, incompetentes em suas pretensões.

Porém, a história possui méritos, acertando ao desenvolver uma relação familiar entre os personagens, utilizando uma narrativa que pode ser considerada surpreendentemente moderna, com um desfecho que mostra como família nem sempre precisa ser de sangue, mas sim quem cria e cuida, já que todos os protagonistas estão sozinhos (por motivos variados) e encontram apoio em animais de outras espécies. Mas a história não se limita a isso e possui até uma linha anti-conservadora, como no momento em que Diego encontra Sid e Manny para tentar capturar o bebê e diz “Vocês são um casal estranho. Ah entendo, querem adotar porque não conseguem ter um”, ou seja, mesmo que de forma sutil, o filme aborda a existência de casais do mesmo sexo.

Outro ponto positivo do roteiro é o humor, desenvolvido não apenas através dos diálogos que destacam a diferença entre os protagonistas, como também nos momentos onde Scrat aparece. Além de servir como um bom alívio cômico, as cenas do esquilo movimentam a trama, como, por exemplo, o período de frio que se inicia porque ele quebra uma geleira enquanto tenta enterrar sua noz, ou seja, além de engraçado, seus momentos não estão no longa sem motivo.

A parte técnica, comandada de forma competente pelos diretores Carlos Saldanha e Chris Wedge, também é um dos pontos altos do filme. Através da boa computação gráfica, todos os animais têm feições marcantes, sendo possível ver seu estado emocional apenas pelas suas expressões faciais. O design de produção ainda cria um universo rico, mostrando como o planeta aos poucos ingressa na era do gelo e as consequências disso para a natureza local. Por fim, a edição de som insere ruídos de vento sutis no longa para criar, aos poucos, um ambiente cada vez mais gélido e hostil, destacando a necessidade dos personagens permanecerem juntos.

Mesmo pecando pela falta de originalidade, A Era do Gelo se apresenta como um entretenimento satisfatório, com bons momentos e uma subtrama que destaca como é bobo o pensamento de que ‘família é constituída apenas por homem e mulher’. Afinal, se até os animais compreendem que, muitas vezes, família é quem cria, quem amamos e aqueles que estão do nosso lado nos momentos mais difíceis, independente do laço sanguíneo ou sexo, porque alguns humanos não entendem?

A Era do Gelo (Ice Age) – EUA, 2002
Direção: Carlos Saldanha e Chris Wedge
Roteiro: Michael Berg
Elenco: Ray Romano, John Leguizamo, Denis Leary, Goran Visnjic, Jack Black, Chris Wedge, Alan Tudyk, Diebrich Bader, Cedric The Entertainer, Stephen Root
Duração: 81 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.