Crítica | A Era do Rádio

estrelas 5,0

Depois de toda a nostalgia metalinguística de A Rosa Púrpura do Cairo e do belo drama familiar junto com uma ciranda de amores em Hannah e Suas Irmãs, Woody Allen tinha a atmosfera e os ingredientes prévios necessários para reunir essas duas realidades que serviram como ponto de partida para o argumento de A Era do Rádio, uma bela homenagem do diretor à “Era de Ouro do Rádio”, dos anos 1920 a meados dos anos 1950 nos Estados Unidos. O filme é um emaranhado de lembranças alteradas de sua própria infância, casos populares que de fato foram sensação nos Estados Unidos — como o caso da garotinha que caiu no poço (com o nome mudado, no filme) e cuja tragédia de fato foi transmitida com grande comoção pelo rádio — e fofocas de celebridades versus o caos caloroso das famílias dos subúrbios.

Ao longo do filme, acompanhamos a vida de Joe (Seth Green), que cresceu ouvindo rádio em uma casa onde morava vários membros da família e onde todos tinham o seu programa radiofônico favorito. Assim, somos apresentados a vários esquetes que servem tanto como contexto histórico quanto como contexto narrativo, a começar do programa Guess That Tune, em uma hilária abertura, e seguindo por atrações como The Masked Avenger; Breakfast With Irene and Roger; The Court of Human Emotions e Sally White and Her Great White Way. A forma cômica e irônica como Woody Allen torna fictícia a presença de programas que foram reais (não necessariamente com esses nomes, mas a ideia era a mesma) e a forma como ele os mostra integrando a vida dos personagens acaba fazendo do filme uma memória doce, turbulenta e muito feliz de tempos que não eram nada fáceis.

A passagem da 2ª Guerra Mundial apenas como um plano de fundo notável para todo o enredo foi a escolha perfeita para esse tipo de filme. Se o olhar narrativo passa do pequeno Joe para um Joe adulto que não vemos, apenas ouvimos sob a narração do próprio Woody Allen, os acontecimentos históricos deveriam ter esse caráter de “fato distante”, até porque o filme é uma coletânea de memórias, o que faz com que estes momentos sejam alterados e cobertos de grande afetividade pela passagem do tempo e também pelo fato de Allen estar, pela segunda vez, homenageando Federico Fellini em toda a concepção de um de seus filmes, então existe muito mais caricatura, amor e humor nas memórias de infância do que uma preocupação mais intensa em abordar a história dos Estados Unidos entre 1939 e 1944 ou discutir os problemas sociais do subúrbio, o impacto da guerra ou a “ameaça dos comunistas”. Tudo isso é colocado aqui como um evento do qual alguém se lembra com carinho, não como uma crítica do diretor a tais comportamentos e eventos.

Se em Memórias, a homenagem a Fellini era baseada em Oito e Meio, aqui em A Era do Rádio ela é a baseada em Amarcord. O esqueleto do filme é exatamente modelado como espelho do clássico italiano, mas Allen é mais caótico e menos épico ou reflexivo que Fellini. A Era do Rádio não possui preocupações genealógicas e não raciocina exatamente sobre nada. Trata-se de 88 minutos de pura nostalgia, sentimento, paixão e fraternidade alcançados tanto pela construção fotográfica, direção de arte e figurinos perfeitamente adequados à época representada quanto por produções culturais do mesmo período, de onde se destaca, claro, o rádio (ponto em que a trilha sonora também ganha um destaque estrondoso em termos de memória); mas também o cinema, que ocupa um papel importante nesse olhar para a infância no início do século XX, com referências notáveis a produções como Besouro Verde (1940), O Galante Aventureiro (1940), Serenata Tropical (1940), Natal em Julho (1940) e Núpcias de Escândalo (1940).

Antes de A Era do Rádio, Woody Allen só havia usado a fotografia em cores de forma tão bela e tão bem modulada dramaticamente a ponto de nos transportar para a realidade diegética quase fisicamente em apenas dois filmes: Interiores e A Rosa Púrpura do Cairo (com menção honrosa para Hannah e Suas Irmãs). No caso dos dois primeiros filmes, o fotógrafo Gordon Willis criou verdadeiras prisões — algumas aconchegantes, outras sufocantes — dentro dos espaços visitados, ao mesmo tempo que utilizava a iluminação para delinear um ou outro personagem e abrir caminhos para fora daquela realidade. Aqui em A Era do Rádio, o fotógrafo Carlo Di Palma dá toques saturados a toda a concentração de pessoas e especialmente ao interior da casa de Joe, reafirmando a abordagem calorosa do roteiro, como já comentamos. É justamente por isso que os poucos momentos de tristeza, tons escuros ou com menos brilho chamam tanto a atenção do espectador e conseguem um efeito imediato de melancolia. Isso sem contar na forma mais caótica com que a câmera se move dentro casa e mais regrada nos espaços externos, algo que é impossível não percebermos devido a precisa transição e tempo de tela de cada um desses momentos, um triunfo da montagem de Susan E. Morse.

Com um elenco que claramente se divertia muito enquanto trabalhava e interpretações admiráveis de todos os atores, inclusive do elenco infantil, A Era do Rádio é um amontoado de desbotadas fotografias em movimento. Seja através da preciosa seleção musical — tem até Carmem Miranda interpretando South American Way e uma atriz brasileira em cena cantando Tico Tico No Fubá, de Zequinha de Abreu — ou da temática explorada, o diretor conseguiu realizar uma obra que olha para o passado com amor e contrasta esse outro e afável tempo com um presente onde a percepção da morte e da decadência do corpo geram a cada ano a impressão de que se tem menos tempo. Uma impressão verdadeira, diga-se de passagem. Há diversas camadas dessa reflexão no filme e isso é muito interessante porque recebe dois olhares diferentes da mesma pessoa (Joe criança, no filme, e Joe adulto, narrador off), mas nos dois casos, a memória calorosa sempre vence… com um pouco de nostalgia a mais no final, como é de praxe, sempre que nos lembramos da infância.

A Era do Rádio (Radio Days) — EUA, 1987
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Dianne Wiest, Julie Kavner, Mike Starr, Paul Herman, Diane Keaton, Don Pardo, Martin Rosenblatt, Helen Miller, Danielle Ferland, Julie Kurnitz, David Warrilow, Wallace Shawn, Seth Green
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.