Crítica | A Escolha de Sofia

A ESCOLHA DE SOPHIA PLANO CRITICO

O narrador dirige-se ao público: “Call me Stingo”. O jovem, saído do sul dos Estados Unidos em direção à New York, conta sobre sua viagem no tempo passado. Estamos diante de uma narrativa retrospectiva, portanto. A fim de se tornar um grande escritor, Stingo caracteriza sua jornada como de descoberta: da liberdade, da maturidade, do amor – como podemos intuir pelo seu olhar ao casal que troca carícias no assento ao lado.

Não demora para que ele conheça aqueles que irão formar o triângulo afetivo central do filme. O perturbado casal formado por Nathan e Sophie já expõe de cara sua radical dicotomia: do sexo selvagem que faz o lustre de Stingo, no quarto logo abaixo, balançar, à briga que ganha as escadas da casa rosada que funciona como pensão. O corte direto entre os dois momentos evidencia a falta de meio termo constitutiva do relacionamento. No entanto, este pequeno episódio, exemplar da “Sodoma dos tempos atuais”, como diz o pai do narrador, atrai sua atenção para o casal. Ela, uma imigrante polonesa, ex-prisioneira em Auschwitz; Ele, um biólogo, acadêmico, às voltas com pesquisas que pretendem mudar o mundo.

As aventuras e passeios do trio pela cidade apontam para uma direta referência a Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (François Truffaut, 1962), inclusive em suas consequências fatais. A inconstância de Nathan logo fica clara, com suas explosões de raiva e ciúme contra Sophie. E a figura de gênio indomável se cristaliza em uma belíssima cena na qual ele rege uma sinfonia de Beethoven a si mesmo, de frente para cinco espelhos. Já devidamente apaixonado por Sophie, Stingo busca entender porque alguém com um histórico de aprisionamento se envolveria em uma relação tóxica e abusiva deste tipo.

Sendo basicamente um filme de três atores, o diretor Alan J. Pakula decidiu destacar as performances. Os planos longos e a fotografia de tom nostálgico dão um ar teatral à obra, e com os pontuais zooms chamando atenção para o detentor do discurso. Aqui, Meryl Streep ganhou seu primeiro Oscar de melhor atriz, numa atuação com vários papéis dentro de um só, tendo passado por transformações físicas – o que a Academia adora – e falando polonês e alemão. Sophie se apresenta de forma sensual, inocente, por vezes até engraçada, mas sem nunca deixar de demonstrar que carrega um enorme peso em suas costas, um fantasma que a ronda incessantemente.

O filme é de Streep, portanto. A função de narrador não dá a Stingo o privilégio de ser “objeto de interesse” da obra, pelo contrário, parece funcionar como uma janela para os outros personagens mais interessantes – e é sintomático que após a conclusão da história do casal, o filme acabe sem se preocupar com o tempo presente do narrador. No entanto, é através de seus olhos que nos é permitido testemunhar determinadas ocasiões. Essa posição, somada à função de narrador e de futuro escritor, nos permite desconfiar se não há aqui a criação de um universo imaginário. Como apontou o falecido crítico americano Roger Ebert, Stingo se apaixona por uma série de coisas: a imagem de si mesmo como escritor, a visão idealizada do romance entre Nathan e Sophie, e claro com ela própria.

A segunda parte do filme vai aos poucos desmistificando as idealizações do narrador; ao descobrir que Nathan não é quem diz ser quem é, e ao receber um pedido de ajuda do irmão deste, sua reação é “esses são meus amigos, eu os amo”, como que afirmando a impossibilidade de uma ação que os prejudicaria. Já a figura angelical de Sophie custa a se esvair, – e aqui é importante ressaltar que ela faz o mesmo movimento de idealização em relação a seu pai e a Nathan – atingindo seu ápice num longo flashback em que ela conta sobre seus dias no campo de concentração. À janela, a luz da lua empresta uma aura pictórica ao seu relato, com a dominância de um azul não antes visto na obra: seria a forma como Stingo enxerga esse momento? Provavelmente, dado que Pakula nunca nos oferece o contracampo. Como contraste, quando voltamos para Auschwitz, temos uma fotografia toda em tom pastel, sem vida.

É apenas com o plot twist, o momento que dá nome ao filme, que a figura de inocência e ingenuidade de Sophie é finalmente desfeita. Essa virada, porém, demora muito a chegar, e quando o faz, parece que vem para resolver a obra. A Escolha de Sofia é um filme longo, que utiliza a música para direcionar nossas emoções, que trata de vários temas grandiosos ao mesmo tempo – Holocausto, culpa, abuso, descobertas – mas que com seu final aparenta uma certa efemeridade, como se a história não deixasse rastros ou consequências, como um capítulo que apenas viramos a página final e seguimos em frente rumo ao próximo.

A Escolha de Sofia (Sophie’s Choice) – USA, 1982
Roteiro: Alan J. Pakula (baseado na obra de William Styron)
Direção: Alan J. Pakula
Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol, Rita Karin, Stephen D. Newman, Greta Turken, Josh Mostel, Marcell Rosenblatt, Moishe Rosenfeld, Robin Bartlett
Duração: 150 minutos.

RODRIGO GIORDANO . . . Acredito que o exercício crítico é uma continuação da experiência artística; é como se não quiséssemos deixar o filme partir, mas mesmo assim nunca o alcançamos completamente. Formado em Ciências Sociais, e mundialmente conhecido como chato. Sempre me arrependo das notas que dou.