Crítica | A Espada Era a Lei

estrelas 3,5

A lenda do Rei Arthur, ou de Excalibur, já recebeu inúmeras versões nos cinemas ao longo dos anos, desde clássicos como Excalibur, até comédias como Monty Python e o Cálice Sagrado. Muitos esquecem, porém, que a Disney também trouxe sua própria versão da famosa história, no formato de longa animado, através de A Espada Era a Lei, última animação do estúdio a ser lançada antes da morte de Walt Disney. Com uma abordagem diferenciada, adaptado da primeira parte de O Único e Eterno Rei, de T. H. White, a obra lida mais com a figura de Arthur em si, retratando-o como uma criança.

A trama tem início com uma narração sobre a situação da Inglaterra da época. Sem rei, o país entrou em um período de trevas, com um futuro soberano sendo destinado a tirar a espada mágica que aparecera cravada em uma pedra nas ruas de Londres. Anos se passam e ninguém realiza tal feito. Partimos para a cabana do mago Merlin, no meio de uma floresta onde ele espera a chegada de um garoto, que não muito depois cai por seu teto. O mago decide, então, educá-lo, querendo que ele fuja do destino de ser escudeiro de seu irmão mais velho. Órfão, adotado pelo senhor de um castelo, seu único possível caminho a ser seguido na vida seria o de servir, até esse momento, claro.

De imediato já sabemos qual será o desfecho de A Espada Era a Lei, com Arthur, obviamente, tirando a espada da pedra e tornando-se rei. Sabiamente, o texto de Bill Peet opta por focar no aprendizado do menino, com Merlin, que pode ver o futuro, algo deixado claro desde o início, ensinando-lhe o que é necessário para ele ser um bom governante. Evidente que o mago jamais diz que essa é sua intenção. Ao invés disso, ele dá lições sobre a vida, fazendo com que o menino valorize a inteligência sobre a força física. Dessa forma, percebemos a clara intenção de Peet em mostrar que a paz é o caminho certo a ser seguido.

Com personagens carismáticos, muito expressivos, especialmente nos olhos, o longa consegue manter sua proposta de maneira envolvente. A arte diferencia-se da grande maioria dos outros longas da Disney, com traços que, por vezes, parecem mais rabiscados e que se encaixam em toda essa composição visual. O uso de cores mais vivas também reflete os murais medievais, ainda que não da mesma forma como fora feito em A Bela Adormecida. Isso, aliado à fluida animação, torna A Espada Era a Lei um desenho fácil e prazeroso de ser assistido e, logo cedo, nos sentimos próximos de Merlim e seu aprendiz e algumas boas risadas são garantidas somente pela forma como são caracterizados. Cada lição do mago é divertida e capaz de nos absorver, a tal ponto que chegamos a esquecer da existência de uma espada mágica que transformaria o menino em rei futuramente.

Existe um evidente problema de ritmo na obra, contudo. Ao dividir sua narrativa nessas lições, sentimos uma grande fragmentação na trama como um todo, a tal ponto que ela soa como inúmeros episódios de um desenho feito para televisão (com altos valores de produção, claro). Tal fator acaba dilatando a projeção e sentimos como se ela durasse mais do que efetivamente dura. Piorando esse aspecto, observamos um desfecho deveras apressado, que lida com o grande momento da retirada da espada como se não fosse nada de mais. Claro que a intenção era mostrar que o digno rei seria aquele que não almeja o trono por poder, mas acabamos enxergando esse final como um anticlímax, como um epílogo de toda a aventura de Arthur e Merlin na floresta e no castelo.

Prejudicado pelo seu ritmo intermitente, A Espada Era a Lei não representa o melhor que a Disney pode nos entregar. Ainda assim, é uma divertida releitura da lenda de Arthur, que lida com a profunda questão de como deve ser um rei digno de sua coroa (ou espada mágica). Aqueles que esperam um conto grandioso certamente sairão decepcionados, mas os que se entregarem à divertida história de Arthur e Merlin, certamente garantirão bons momentos com as diversas lições do mago.

A Espada Era a Lei (The Sword in the Stone) — EUA, 1963
Direção:
 Wolfgang Reitherman
Roteiro: Bill Peet (baseado no livro de T.H. White)
Elenco: Rickie Sorensen, Sebastian Cabot, Karl Swenson, Junius Matthews, Ginny Tyler, Martha Wentworth, Norman Alden, Alan Napier
Duração: 79 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.