Crítica | A Espiã que Sabia de Menos

estrelas 4

Este ano de 2015 está bem generoso com o subgênero dos filmes de espionagem. Em fevereiro tivemos a estreia do excelente Kingsman. No fim do ano, estreia o  promissor 007 Spectre. Entretanto, agora em junho, fui surpreendido por um filme que eu não arriscava um palpite. O novo longa do diretor sensação de comédias, Paul Feig, com sua musa Melissa McCarthy talvez seja a melhor comédia do ano.

Melissa interpreta a simpática Susan Cooper, responsável por ser os olhos e ouvidos dos espiões da CIA que arriscam suas vidas em missões perigosas. Porém, quando uma missão dá completamente errado e as identidades de todos os agentes especiais são comprometidas, Susan se encontra em uma situação inusitada: ela será responsável por concluir a missão fracassada e encontrar uma ogiva nuclear que está à venda no mercado negro.

Desde Missão Madrinha de Casamento, Paul Feig vem pavimentando sua própria estrada do sucesso em Hollywood. Após realizar o deplorável As Bem Armadas, Feig retorna com diversos acertos tanto no roteiro quanto na direção de A Espiã que Sabia de Menos.

O texto está mais ácido que nunca, mesmo que o progresso da história seja lento. Uma boa enrolação para preencher os 120 minutos de filme. Feig ainda aposta em um humor bruto. A escatologia e o slapstick comedy estão presentes e, inclusive, há uma união entre as duas características. Ou seja, existe um humor bizarro que explora a violência gráfica. Entretanto, a atmosfera é tão bem trabalhada que o riso vem naturalmente.

Feig consegue realizar um filme com sua própria identidade. Por competência, não deixou virar um spoof comedy a la Todo Mundo em Pânico com piadas que fazem referência somente a longas clássicos de espionagem ou a trilogia Austin Powers.

A história também é razoável – faz um belo tour em diversas países da União Europeia. Seu único problema reside em ser previsível, porém as esperadas reviravoltas geram mudanças significativas divertidíssimas no comportamento de Susan Cooper. O filme se renova a cada ato, explorando novos diálogos rápidos e repletos de ironia possibilitando uma infinidade de piadas. Além disso, existe um tom inteligente de auto menção para alguns atores em retrospectiva ao estereótipo de personagens que eles trabalharam. Em especial, Jason Statham.

Fora o humor explosivo, Feig consegue entregar uma direção bem competente. As coreografias das cenas de ação não fogem muito do padrão, mas surpreendem para alguém que não possuía nenhum tipo de experiência com esse tipo de trabalho. De resto, ele cumpre bem sua função. Fica evidente que seus esforços se concentraram em acertar o timing das cenas e no roteiro, já que a direção não é muito imaginativa. Aliás, em diversos momentos ele enfatiza que a produção é bem descontraída. Por exemplo, as perseguições impossíveis fora da diegese de Melissa McCarthy tentando capturar um bandido em plena forma física ou com as óbvias sequencias em que a dublê da gordinha assume a ação.

O que sustenta muito bem o filme é o elenco que dá vida aos personagens carismáticos. Esta é a melhor atuação de Melissa McCarthy. Alguns vícios de atuação estão presentes, porém a atriz conseguiu se livrar dos papeis autodepreciativos e imbecis como os de seus dois filmes anteriores. Se você gosta da gordinha, vai gostar de sua performance aqui. Se não gosta, acho que nesse caso, vale a pena dar uma nova chance para a mulher. Ela tenta fugir do padrão e consegue atingir seu objetivo em diversos momentos.

Os coadjuvantes simplesmente são a cereja do bolo. Rose Byrne está impecável com seu sotaque brega e expressão corporal bizarríssima como a dondoca mafiosa Rayna Boyanov. Jude Law desconstrói sua figura de galã em diversos momentos com o espião Bradley Fine.  E Jason Statham, realmente está fantástico. É merecedor de todos os elogios que está ganhando da crítica internacional. Quem diria que ele poderia ser tão engraçado? O elemento surpresa favorece muito sua atuação, afinal trata-se de um dos poucos filmes que ele se arrisca fora do gênero de ação testosterona. Também há Peter Serafinowicz encarnando Aldo, um italiano divertidíssimo – o melhor personagem do longa, mesmo que seja baseado em um estereótipo clássico, o que comprova a eficácia e carisma do ator.

Chegando com um título que tenta ser engraçado aqui no Brasil, A Espiã que Sabia de Menos é uma excelente surpresa. Há anos que eu não me divertia tanto com uma comédia escrita diretamente para o cinema, porém o que me deixa ainda mais surpreso é que se trata de um filme de Paul Feig com Melissa McCarthy, duas figuras que admito não ter enorme apreço. Os erros cometidos aqui são bem irrelevantes. Não prejudicam o andamento do filme que consegue contar uma historinha que entretém bastante – apenas a tietagem a artistas que fazem participações especiais breguíssimas.

Enfim, a diversão é certeira. No caso desse filme, tive o privilégio de assistir em uma sessão normal – que não era direcionada à imprensa. Com isso tive a certeza de que eu não estava louco. O filme conseguiu proporcionar ao público diversos ataques de risos duradouros. Simplesmente entrou na minha coleção de melhores comédias.

A Espiã que Sabia de Menos (Spy, EUA – 2015)
Direção: Paul Feig
Roteiro: Paul Feig
Elenco: Melissa McCarthy, Rose Byrne, Jude Law, Jason Statham, Peter Serafinowicz, Miranda Hart, Jessica Chaffin, Raad Rawi, Sam Richardson, Katie Dippold, Morena Baccarin,
Duração: 120 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.