Crítica | A Espinha do Diabo

estrelas 4

O clima é de assombração. O espaço cênico é distante e desolado. Apesar de não aparecer em cena, sabemos que a narrativa é desenvolvida em plena Guerra Civil Espanhola, uma época demarcada por um conflito bélico entre um setor do exército e o governo da Segunda República Espanhola. Após um golpe de estado fracassado, houve um conflito que se arrastou por três anos e terminou com a vitória dos militares.

Resultado? A instauração de um regime de caráter ditatorial, tendo o general Francisco Franco como líder. Com a instauração do regime e as derrotas da república, um sentimento de tristeza e desesperança tomou o país. Filmes como Por que os Sinos Dobram, Terra e Liberdade e A Língua das Mariposas abordaram muito bem todo o drama envolvendo os conflitos.

A Espinha do Diabo, produção que demonstra as ressonâncias deste sentimento melancólico e sem “grandes esperanças”, somos apresentados ao calvário de Carlos (Fernando Tielve), um garoto de 12 anos que é deixado pelo tutor (o pai morreu durante um ataque com bombas) no distante Orfanato Santa Luzia, em plena Guerra Civil Espanhola. As crianças ficam retidas no ambiente até que a guerra termine. No local, aprende a conviver com vários tipos de pessoas, desde aos dóceis companheiros de quarto, aos mais perversos, bem como adultos agressivos, todos, de certa forma, perturbados pela atmosfera sombria do lugar.

Entre os personagens centrais da narrativa temos a diretora Carmem (Marisa Paredes), o professor de ciências e médico nas horas vagas, Sr. Casares (Federico Luppi), e Jaime (Iñigo Garcés), garoto problema que ocupa o espaço de antagonismo, pois vai perseguir bastante o pequeno Carlos, enciumado pelo fato do garoto ter trazido gibis em sua mala,  e assim, destaca-se entre os demais meninos. Para completar o eixo, há Jacinto (Eduardo Noriega) e Conchita (Irene Viseto), um casal que terá importância fundamental no desfecho tráfico da narrativa.

Não vai demorar muito para Carlos enfrentar um conflito talvez muito maior que lidar com alguns colegas que lhe tiram a paz: um espírito de um ex-aluno, morto em circunstâncias violentas, clama por vingança, o que leva o novo integrante do orfanato à seguir em busca de pistas para resolução deste suposto crime silenciado por todos que convivem no local.

Ao longo dos seus 106 minutos de duração, o filme consegue equacionar momentos de suspense com a atmosfera sombria, adornada pelo charme da iluminação, pelo eficiente trabalho de montagem e pela trilha sonora contida, mas atuante. A direção de Guillermo del Toro, quase sempre competente, orquestra muito bem os momentos de tensão, a atuação das crianças pouco experientes no campo cinematográfico, além de conduzir os veteranos, como a ótima Marisa Paredes, numa trama que nos lembra os excepcionais O Sexto Sentido e Os Outros, mas o paralelo mais adequado vendo ao filme após quinze anos de lançamento é o igualmente perturbador O Orfanato.

Sandi (Junio Valverde), o fantasma atormentado, criado através de efeitos especiais equilibrados, sem os exageros da computação gráfica contemporânea, não fica devendo nada aos filmes de médio orçamento. “Muitos de vocês irão morrer”, prenuncia o espírito, deixando claro que “há algo de podre a vir no espaço daquele orfanato”. A direção de fotografia é outro aspecto que merece os devidos créditos. Competente, ajuda no estabelecimento do clima, num filme cheio de simbologias sobre as dores causadas pela guerra, bem como alegorias para o amadurecimento. A produção executiva, assinada por Pedro Almodóvar, garante mais prestígio ao filme dentro da indústria cinematográfica.

Sem apelar para histeria, tempestades barulhentas e ferrões sonoros, A Espinha do Diabo conduz o horror focado na “pegada” dramática, o que causa alguns momentos letárgicos. Não chega a atrapalhar a fruição da narrativa, mas nos faz buscar desesperadamente um botão chamado elipse para acionar. Talvez uns pequenos ajustes deixasse tudo mais dinâmico, mas não vale reclamar: diante do campo dos filmes de terror cacofônicos da época, a produção é um suspiro de genialidade e diferença. O título pode parecer estranho, mas é devidamente explicado lá pela metade da narrativa.

A Espinha do Diabo (El Espinazo del Diablo) – Espanha, França, México e Argentina, 2001.
Direção: Guillermo del Toro.
Roteiro: Guillhermo del Toro, Antonio Trashorras e David Muñoz.
Elenco: Adrián Lamana, Marisa Paredes, Berta Ojea, Daniel Esparza, Miguel Ortiz, Eduardo Noriega, Irene Visedo, Francisco Maestre, Fernando Tielve.
Duração: 106 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.