Crítica | A Estrada da Vida

estrelas 5

A Estrada da Vida marca o primeiro grande sucesso de Fellini e, também, o começo de uma trilogia existencialista do diretor que seria seguida de A Trapaça, terminando em Noites de Cabíria. Os três filmes contam com Giulietta Masina, esposa de Fellini por toda a vida, em papel de grande destaque e usam personagens como símbolos da luta para a recomposição moral da humanidade.

Masina vive a humilde e inocente Gelsomina, que é vendida por sua mãe para o brutamontes Zampanò (Anthony Quinn), um artista de circo que vive em sua carroça fazendo pequenos shows em vilarejos, normalmente envolvendo força bruta, como quebrar correntes e coisas do gênero. O contraste é evidente: fragilidade x força bruta, inocência x malícia, sonhos x realidade. Os dois passam a viajar e viver juntos, sempre com Zampanò desdenhando cruelmente Gelsomina e Gelsomina seguindo Zampanò como um cordeiro.

No meio dessa relação, surge Il Matto (“o bobo”), vivido por Richard Basehart. Ele é o artista galante que Zampanò odeia sem nenhuma razão específica além do evidente contraste entre os dois. O espectador logo percebe que uma tragédia se avizinha e que a maior vítima, provavelmente, será a frágil Gelsomina.

Mais do que uma história linear, A Estrada da Vida é um estudo da alma humana e da necessidade que temos de salvação. Gelsomina acha que Zampanò pode ser sua salvação e nós sabemos que isso jamais poderia acontecer. O coração tolo da inocente mulher não pode ver como Zampanò é cruel e despido de qualquer forma de amor. Ele é a força bruta, o ser humano em sua pior forma. Ela, ao contrário, é o ser humano puro, despido de maldade, completamente à mercê de gente como Zampanò. E o bobo, com suas atitudes brincalhonas, mas não inocentes, também traz um aspecto do ser humano: a sabedoria. Mas é uma sabedoria trágica.

Masina, saindo de seu curto papel da prostituta Cabíria em Abismo de um Sonho de Fellini, papel esse que viria a maravilhosamente expandir em 1957, tem uma atuação absolutamente irretocável. Ela transparece delicadeza, inocência, tristeza e compreensão (e perdão) como ninguém jamais conseguiu repetir. Sua Gelsomina é uma espécie de versão feminina de Carlitos, de Charlie Chaplin, mas sem a fisicalidade do papel. Sabemos que ela é o que representa sem que seja necessária uma só palavra.

Da sua maneira, o mexicano Anthony Quinn, que dez anos depois viria alcançar seu mais inesquecível papel em Zorba, o Grego, faz uma espécie de Hércules de filmes B. Grandalhão e forte, ele arrebenta correntes inflando o peito e corações com suas palavras. Ele é uma força da natureza completamente sem controle. Uma locomotiva sem freios que só pausa para pensar e refletir quando já é tarde demais, quando sua única chance de salvação vai embora. E, mesmo assim, Fellini consegue um feito extraordinário no tocante final de A Estrada da Vida, ao usar a câmera para dar ambiguidade a esse personagem tão terreno, tão maltratado pela vida. Zampanò ama ou não ama Gelsomina? Ele está mesmo arrependido do que fez? Entende o que ele é? Essas perguntas ficam para o espectador pensar.

Aliás, a beleza desse filme é nos despir completamente como seres humanos e brincar com nossos sentimentos mais escondidos. E a música de Nino Rota, solidificando sua profícua e longa parceria com Fellini, é um elemento importante para ajudar na contemplação do ser humano. Forte ao representar Zampanò, Rota não nos deixa esquecer de sua contrapartida mais frágil e flutua entre leitmotifs sem nunca perde o rumo, arrancando lágrimas sem muito esforço.

O filme foi justamente laureado com diversos prêmios, entre eles o Leão de Prata de Veneza, sendo o primeiro dos quatro Oscars do diretor na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Mas nenhum prêmio é capaz de eficientemente refletir a importância de A Estrada da Vida para o cinema moderno.

A Estrada da Vida (La Strada, 1954)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano
Elenco: Anthony Quinn, Giulietta Masina, Richard Basehart, Aldo Slivani, Marcella Rovere, Livia Venturini
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.